
Pastagens degradadas no Brasil: recuperação pode aumentar o carbono do solo em 14%–23% e avançar as metas climáticas
Resumo: Um estudo publicado na Nature Communications (jan/2026) aponta que a recuperação de pastagens degradadas é uma das estratégias mais eficazes para aumentar o carbonoorgânico no solo brasileiro. O Brasil apresenta uma dívida de carbono estimada em 1,4 bilhão de toneladas na camada de 0‑30 cm, resultado da conversão de vegetação nativa em áreas agrícolas. Conduzido pelo CCARBON/Esalq com participação da Embrapa e da UEPG, o estudo liderado por Carlos Cerri e com João Villela como primeiro autor indica que a recarbonização parcial de áreas agrícolas pode elevar entre 14% e 23% o estoque de carbono no solo, variando conforme região e manejo.
Recuperação de pastagens degradadas pode aumentar carbono no solo e apoiar metas climáticas do Brasil, aponta estudo
Recuperar pastagens degradadas está entre as estratégias mais eficazes para ampliar os estoques de carbono orgânico no solo no Brasil, segundo um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Nature Communications. A pesquisa mostra que a recomposição da qualidade dessas áreas pode transformar um passivo histórico em oportunidade ambiental, com impactos diretos sobre mitigação das mudanças climáticas, fertilidade do solo e sustentabilidade da produção agropecuária.
De acordo com os autores, o país acumula uma dívida de carbono estimada em 1,4 bilhão de toneladas na camada de 0 a 30 centímetros do solo. Esse déficit é atribuído, principalmente, à conversão histórica de vegetação nativa em áreas agrícolas — processo que reduziu a capacidade do solo de armazenar carbono ao longo do tempo.
Quem realizou a pesquisa
O trabalho foi conduzido pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), com participação da Embrapa Agricultura Digital e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O estudo teve liderança de Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, com João Marcos Villela como primeiro autor.
Quanto a recuperação pode elevar o carbono do solo
Os pesquisadores estimam que a recuperação de pastagens pode elevar o estoque de carbono no solo entre 14% e 23%, a depender da região e das práticas implementadas. Para o estudo, esse ganho representa um caminho prático para reduzir parte da dívida de carbono brasileira, ao mesmo tempo em que contribui para sistemas produtivos mais resilientes.
Destaque: os resultados reforçam que recarbônizar áreas agrícolas — ou seja, aumentar novamente o carbono orgânico do solo — pode ser uma medida concreta com efeito climático relevante.
Impacto nas metas do Acordo de Paris
O estudo indica que a recarbonização parcial de áreas agrícolas tem potencial para ajudar o Brasil a avançar no cumprimento de metas climáticas associadas ao Acordo de Paris. Segundo as estimativas apresentadas, recarbônizar cerca de um terço do potencial calculado poderia reduzir entre 59% e 67% das emissões de carbono na atmosfera até 2035.
A recuperação de áreas já abertas, em especial pastagens degradadas, pode combinar ganhos de produtividade e redução de emissões, com efeito direto sobre o balanço de carbono.
Biomas com alto potencial: Mata Atlântica e Cerrado
Entre os biomas considerados estratégicos, a Mata Atlântica se destaca por concentrar cerca de 20 milhões de hectares de pastagens degradadas, com margem importante para recuperação. Já o Cerrado, por ser uma das bases da produção pecuária nacional, também aparece como área-chave para práticas de manejo capazes de elevar o carbono no solo e reduzir perdas associadas à degradação.
Intensificação sustentável e o papel das forrageiras de alto desempenho
Os autores ressaltam que a intensificação sustentável pode acelerar a recuperação de pastagens ao aumentar a produção de biomassa e o aporte de matéria orgânica ao solo. Nesse contexto, forrageiras de alta produtividade são apontadas como peças centrais para impulsionar ganhos de carbono, especialmente quando combinadas a manejo adequado.
O estudo cita como exemplo o híbrido de braquiária Mavuno, que se destaca por apresentar raízes profundas (atingindo até quatro metros) e elevada produção de biomassa. Essas características favorecem o incremento de carbono inclusive em camadas mais profundas do solo, o que pode melhorar também a estrutura, a fertilidade e a retenção de água.
Raiz profunda: maior aporte de carbono em profundidade e melhor estrutura do solo.
Alta biomassa: aumento de matéria orgânica e potencial de estoque de carbono.
Qualidade nutricional: teor de proteína bruta em torno de 21%.
Resiliência: rápida recuperação pós-pastejo e resistência à seca.
Para Tiago Penha Pontes, a recuperação e intensificação de pastagens vai além de uma escolha técnica. Trata-se também de uma estratégia climática, com capacidade de elevar a produção de carne e leite na mesma área, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas e, ao mesmo tempo, fortalecendo atributos do solo relacionados à sustentabilidade.
Sistemas diversificados reduzem perdas de carbono
Outro ponto destacado é o impacto do tipo de uso do solo sobre os estoques de carbono. De acordo com a análise, a conversão para monoculturas foi a prática associada às maiores reduções de carbono no solo. Em contraste, sistemas diversificados e integrados apresentaram efeitos menos negativos, indicando que a complexidade do sistema pode contribuir para manter mais carbono estocado.
Na avaliação de Alexander Wolf, os resultados reforçam a relevância de investir em reforma de pasto com genética superior e manejo adequado, combinando produtividade e rentabilidade com oportunidades futuras em mercados associados à sustentabilidade, como o mercado de carbono.
O que o estudo sugere como caminhos práticos
O conjunto de evidências aponta que recuperar pastagens degradadas pode funcionar como uma tecnologia estratégica e relativamente acessível, especialmente quando a intensificação é conduzida com critérios agronômicos e ambientais. A lógica central é transformar uma área com baixa produtividade em um sistema capaz de:
Produzir mais na mesma área, elevando eficiência do uso da terra.
Reduzir pressão por expansão agropecuária sobre novas áreas.
Melhorar o solo, aumentando fertilidade e retenção de água.
Ampliar o carbono estocado no solo, apoiando metas climáticas.
Resumo dos números e achados
Indicador Estimativa do estudo Dívida de carbono no solo (0–30 cm) 1,4 bilhão de toneladas Aumento potencial de carbono com recuperação de pastagens 14% a 23% Redução estimada de emissões até 2035 (recarbonização de ~1/3 do potencial) 59% a 67% Pastagens degradadas na Mata Atlântica cerca de 20 milhões de hectares
Por que isso importa para saúde e clima
Embora o tema esteja ligado ao campo, os efeitos se estendem para além da produção. Solos mais saudáveis tendem a reter mais água, reduzir erosão e aumentar a resiliência a eventos climáticos extremos. Além disso, a captura e o armazenamento de carbono no solo são componentes relevantes na resposta global às mudanças climáticas, com potencial de impacto indireto sobre bem-estar, segurança alimentar e qualidade ambiental.
Em síntese, o estudo aponta que o Brasil tem uma oportunidade significativa de combinar recuperação ambiental com ganhos produtivos ao priorizar a recuperação de pastagens degradadas e o uso de práticas de manejo e sistemas que preservem e ampliem o carbono orgânico do solo.




