
A relação de troca entre a soja e fertilizantes essenciais ao manejo da lavoura — indicador que mede quantas sacas do grão são necessárias para comprar uma tonelada do insumo — voltou a se deteriorar no início de 2026 e pode piorar ainda mais até meados do ano, segundo estimativas da Scot Consultoria.
Entre fevereiro e julho, a quantidade de sacas de soja exigida para adquirir uma tonelada de fertilizante pode aumentar em até 20%, refletindo uma combinação de alta nos preços internacionais, restrições de oferta e incertezas geopolíticas que afetam um mercado no qual o Brasil depende fortemente de importações.
Dados compilados pela Scot indicam que os preços médios de fertilizantes amplamente utilizados por produtores de soja no Brasil subiram na comparação entre 2025 e 2026, com destaque para produtos na forma granulada como o cloreto de potássio (KCl), o superfosfato simples (SSP) e o fosfato monoamônico (MAP).
Na primeira quinzena de fevereiro, a cotação média do MAP foi de R$ 4.624,20 por tonelada, ficando 5,4% acima da média de 2025. No mesmo período, o SSP avançou 7,1%, para R$ 2.381,07 por tonelada. Já o KCl registrou alta de 7,9%, com preço médio de R$ 3.042,79 por tonelada.
Em resumo: com fertilizantes mais caros, o produtor precisa entregar mais sacas de soja para comprar a mesma quantidade de insumo, elevando o custo efetivo da adubação e pressionando margens.
A elevação das cotações tem impacto direto sobre a relação de troca. Em 23 de fevereiro, a Scot registrou que eram necessárias 18 sacas de soja para a compra de uma tonelada de SSP, acima da média de 16,1 sacas por tonelada observada ao longo de 2025.
Para o KCl, a relação de troca no mesmo dia foi de 23 sacas por tonelada, superior à média de 20,4 sacas por tonelada no ano anterior. Já no caso do MAP, a última referência apontou 35 sacas de soja para a compra de uma tonelada, frente a 31,8 sacas por tonelada na média de 2025.
Todos os insumos considerados no levantamento estão na forma granulada, conforme a consultoria.
Fertilizante Relação de troca (23 de fevereiro) Média de 2025 SSP (granulado) 18 sacas/tonelada 16,1 sacas/tonelada KCl (granulado) 23 sacas/tonelada 20,4 sacas/tonelada MAP (granulado) 35 sacas/tonelada 31,8 sacas/tonelada
A Scot projeta que a relação de troca deve continuar se deteriorando ao longo de 2026, ampliando a pressão sobre o custo de produção da sojicultura. Pelas estimativas, já em março a relação de troca pode atingir 18,5 sacas por tonelada para o SSP, 23,2 sacas por tonelada para o KCl e 33,5 sacas por tonelada para o MAP.
Para julho, o cenário projetado é de deterioração ainda mais acentuada. Produtores podem ter de desembolsar 21,8 sacas de soja por tonelada de SSP, o que representaria uma alta de 15% em relação ao valor médio de fevereiro. No caso do KCl, a relação de troca pode chegar a 28,6 sacas por tonelada, avanço de 20% ante a média de fevereiro. Já para o MAP, a estimativa é de 40,7 sacas por tonelada, aumento de 19% na mesma comparação.
Destaque: o KCl aparece com a projeção de maior deterioração percentual até julho, reforçando o impacto potencial sobre a estratégia de compra de insumos e o planejamento financeiro do produtor.
Fertilizante Março (estimativa) Julho (estimativa) SSP 18,5 sacas/tonelada 21,8 sacas/tonelada KCl 23,2 sacas/tonelada 28,6 sacas/tonelada MAP 33,5 sacas/tonelada 40,7 sacas/tonelada
De acordo com a Scot, o encarecimento dos fertilizantes está ligado a fatores externos e à elevada dependência brasileira do mercado internacional. O Brasil segue como grande importador: no ano passado, o país trouxe do exterior 45,5 milhões de toneladas e a expectativa é de que, neste ano, as compras externas ultrapassem 47 milhões de toneladas.
Entre os fatores que têm sustentado preços mais firmes está a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que interfere no trânsito de cargas e aumenta o custo logístico e a percepção de risco — com atenção especial ao Estreito de Ormuz, rota estratégica associada ao fluxo de petróleo e gás natural, insumos energéticos relevantes para a produção de fertilizantes.
Outro ponto levantado é que a China mantém restrições à exportação de fosfatados e nitrogenados, priorizando o abastecimento interno — movimento que também é observado nos Estados Unidos. Além disso, o conjunto de sanções comerciais sobre a Rússia, importante fornecedora global de nutrientes agrícolas, tende a elevar custos financeiros e aumentar a volatilidade, mesmo sem interromper totalmente o comércio.
Dependência de importação amplia exposição a custos externos.
Tensões geopolíticas elevam risco logístico e financeiro.
Restrições de exportação reduzem oferta global de alguns nutrientes.
Sanções e incertezas aumentam volatilidade e custo de transação.
Segundo a consultoria, mesmo com um alívio cambial recente, a combinação de fertilizantes mais caros e o ambiente geopolítico incerto mantém os custos da sojicultura pressionados. Na prática, isso significa maior risco econômico, exigindo atenção redobrada ao cronograma de compras, às decisões de adubação e à gestão de caixa.
“Mesmo com o alívio cambial recente, a alta da cotação dos fertilizantes e o ambiente geopolítico incerto mantêm pressionados os custos da sojicultura, deteriorando a relação de troca e elevando o risco econômico da atividade.”
Com a perspectiva de piora até julho, o produtor tende a enfrentar uma janela mais desafiadora para fechar compras de insumos, especialmente se o preço da soja não acompanhar o movimento de alta dos fertilizantes. O indicador de relação de troca, nesse contexto, segue como um dos termômetros mais relevantes para avaliar o momento de compra e o impacto no custo total de produção.

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