
Os produtores rurais de Minas Gerais estão acessando menos recursos do crédito rural na safra 2025/26, em um movimento que combina juros mais altos, maior seletividade dos bancos e a busca crescente por fontes alternativas de financiamento. Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) apontam que, nos primeiros oito meses da safra 2025/26, os desembolsos caíram 14,07%, somando R$ 33,39 bilhões.
A retração atingiu tanto a agricultura quanto a pecuária. No segmento agrícola, o montante recuou de R$ 26,22 bilhões para R$ 22,52 bilhões (queda de 14,11%). Já na pecuária, os desembolsos chegaram a R$ 10,87 bilhões, aproximadamente 14% abaixo do registrado no mesmo intervalo da safra anterior.
Apesar da queda nos valores financeiros, houve aumento do número de operações. O total de contratos aprovados em Minas Gerais cresceu 8%, alcançando 191.656 operações. A leitura do setor é que o avanço no número de contratos, junto da redução do valor total, indica uma pulverização do crédito — com operações menores e menor capacidade de financiamento para parte dos produtores.
Em destaque: mais contratos e menos dinheiro liberado sinalizam redução do valor médio por operação, com impacto direto em produtividade, tecnologia e proteção contra volatilidade de preços.
Mesmo com a retração, Minas Gerais manteve peso relevante no cenário nacional: o Estado respondeu por 14,46% do valor total desembolsado no Brasil, que somou R$ 230,91 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. No país, o crédito rural também caiu, com redução de 11% em relação ao período anterior.
A avaliação técnica do setor é que o comportamento do crédito rural em Minas Gerais mostra um quadro de maior demanda por financiamento, mas com menor acesso aos recursos necessários para sustentar o ciclo produtivo e reduzir riscos de mercado. Segundo a assessoria técnica do Sistema Faemg Senar, o crescimento do número de operações simultâneo à queda do volume médio por contrato representa uma perda de capacidade financeira do produtor.
O alerta se intensifica porque a redução do crédito atinge linhas consideradas estratégicas, como custeio, comercialização e investimento. Na prática, isso pode limitar a compra de insumos, diminuir a adoção de tecnologia e ampliar a vulnerabilidade a oscilações de preços, sobretudo quando o produtor precisa vender em momentos desfavoráveis por falta de capital ou instrumentos de armazenagem e negociação.
O custeio da safra registrou retração relevante. Os dados da Seapa indicam queda de 13% nos desembolsos, com o valor aprovado recuando de R$ 22,41 bilhões para R$ 19,44 bilhões. Na agricultura, a retração foi de 12%, com desembolso de R$ 11,94 bilhões. Na pecuária, a queda chegou a 15%, totalizando R$ 7,5 bilhões aprovados em crédito de custeio.
Por que o custeio importa? É a linha que sustenta o dia a dia da produção — compra de sementes, fertilizantes, defensivos, ração, medicamentos veterinários e outras despesas essenciais. Quando encolhe, o produtor tende a reduzir escala, renegociar pacotes tecnológicos ou adiar decisões produtivas.
O recorte de fevereiro de 2026 mostra quais cadeias concentraram os contratos de custeio em Minas. Entre as lavouras, o café liderou com R$ 238,10 milhões, representando 41% do total. Na sequência, a soja somou R$ 112,51 milhões (20%).
Na pecuária, os bovinos concentraram a maior parte dos recursos de custeio, com R$ 592,93 milhões. Em seguida, apareceram suínos com R$ 19,41 milhões e aves com R$ 20,86 milhões.
Segmento Atividade Valor Participação Agricultura Café R$ 238,10 milhões 41% Agricultura Soja R$ 112,51 milhões 20% Pecuária Bovinos R$ 592,93 milhões Maior concentração Pecuária Suínos R$ 19,41 milhões — Pecuária Aves R$ 20,86 milhões —
Além do custeio, outras linhas fundamentais também encolheram. A demanda por recursos de investimento somou R$ 7,18 bilhões, o que representa queda de 22%. Na linha de comercialização, a retração foi igualmente de 22%, com liberação de R$ 4,19 bilhões.
A redução do crédito para comercialização é vista como um fator que pode ampliar a exposição à volatilidade de preços, já que essa modalidade costuma ajudar o produtor a ganhar fôlego para escolher o melhor momento de venda, organizar logística e negociar com mais previsibilidade.
A combinação de custo do dinheiro mais elevado e critérios mais restritivos por parte das instituições financeiras tem levado parte do setor a buscar caminhos fora do financiamento bancário tradicional. Entre as alternativas, ganha espaço o uso de recursos próprios e acordos como barter, em que insumos e produtos são negociados com entrega futura.
Juros mais altos: encarecem o crédito e reduzem margens.
Maior seletividade: exige garantias e eleva barreiras para alguns perfis de produtor.
Financiamento alternativo: cresce o uso de capital próprio e operações estruturadas fora do banco.
O retrato do crédito rural em Minas Gerais sugere um período de ajustes no campo, com produtores tentando manter a produção em um ambiente de financiamento mais restrito. O aumento no número de contratos indica que a demanda não desapareceu, mas a redução do volume liberado reforça a necessidade de planejamento, controle de custos e estratégias para mitigar riscos de mercado.
Em um contexto de menor volume de crédito para custeio, comercialização e investimento, o setor tende a operar com projetos mais conservadores, menor escala e decisões mais cautelosas — fatores que podem repercutir na competitividade e na capacidade de expansão tecnológica ao longo da safra.

Resumo: O Ministério da Agricultura está negociando com a Fazenda um aumento de 10% nos recursos do Plano Safra 2026/27 em relação ao ciclo anterior, o que pode elevar o volume destinado à agricultura empresarial para próximo de R$ 570 bilhões. A agricultura familiar fica sob a condução de outro ministério. O objetivo é manter a taxa de juros “teto” em um dígito, e o novo Plano Safra deve ser anunciado em 1º de julho.

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