
Café brasileiro cai nas exportações para os EUA após tarifa de 40% e revogação; Brasil busca diversificar mercados
Resumo O texto aborda o impacto de tarifas impostas pelos EUA sobre importações brasileiras, especialmente o café. Entre agosto e novembro de 2023 vigorou uma tarifa extra de 40% sobre diversos produtos do Brasil, incluindo o café, após já haver uma tarifa de 10% em abril. Em 14 de novembro de 2023, o governo americano publicou decreto isentando de tarifas uma série de mercadorias, entre elas o café, em parte para ajudar a combater a inflação. Segundo dados do Cecafé, a imposição tarifária provocou uma queda de 54,8% nas exportações de café brasileiro para os EUA no período agosto–novembro de 2023.
Tarifa dos EUA sobre café brasileiro derrubou embarques e mantém efeitos em 2026, apesar de revogação
Mesmo após a suspensão da sobretaxa que encareceu o café brasileiro no mercado americano, as exportações seguem em patamar inferior ao do ano anterior, indicando que a recomposição de contratos e volumes não ocorre de forma imediata. O episódio, além de pressionar a cadeia do agronegócio, também reacendeu o debate sobre inflação de alimentos, dependência externa e segurança de abastecimento em grandes mercados consumidores.
Queda forte durante a sobretaxa e recuperação lenta depois
Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que a tarifa extra de 40%, em vigor de agosto a novembro do ano passado, provocou uma queda de 54,8% nas exportações brasileiras de café para os Estados Unidos, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O recuo permaneceu mesmo após a revogação da medida. No primeiro trimestre deste ano, o volume embarcado para os EUA ainda registrou queda de 48,3% frente ao mesmo intervalo de 2025. Em abril, a tendência de retração continuou: os embarques somaram US$ 136,4 milhões, com redução de 46,1% em relação ao mesmo mês de 2025.
Como as tarifas surgiram e por que o café entrou na lista de exceções
A imposição de tarifas a produtos importados foi uma das bandeiras de campanha do então presidente Donald Trump, com o argumento de fortalecer a economia americana. Em abril, foi estabelecida uma alíquota de 10% para produtos do Brasil. Em agosto, veio a medida mais severa: uma sobretaxa de 40% sobre diversos itens brasileiros, incluindo o café.
A situação se manteve até 14 de novembro, quando um decreto presidencial isentou uma lista de mercadorias — entre elas, o café. Segundo Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, a necessidade de conter o aumento generalizado de preços nos EUA contribuiu para a inclusão do produto nas exceções.
“A inflação do café foi oito vezes maior do que a inflação média para o consumidor americano”, afirma Marcos Matos.
O impacto potencial era relevante porque os Estados Unidos não produzem café e são o maior consumidor do mundo, com 76% da população consumindo a bebida diariamente. Caso o tarifaço tivesse sido mantido, a avaliação do setor é de que o preço da bebida e a inflação geral poderiam sofrer forte pressão, com reflexos econômicos e políticos internos.
Suprema Corte derrubou tarifas, mas setor mantém alerta
Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou todas as tarifas sobre produtos importados, ao considerar que a base legal usada para criá-las exigiria autorização do Congresso. Ainda assim, Matos afirma que o cenário segue exigindo acompanhamento, pois o governo americano buscaria alternativas com maior sustentação jurídica para pressionar países exportadores.
Para o setor, a preocupação é que novas medidas protecionistas surjam sob outro formato, mantendo incertezas sobre previsibilidade comercial e risco de interrupções de contratos.
Mudança no ranking de compradores do café brasileiro
Historicamente, o Brasil foi o principal fornecedor de café aos americanos, e os Estados Unidos, o maior destino do café brasileiro. Em 2024, o Brasil exportou 8 milhões de sacas para os EUA, equivalente a 34% do total importado pelo país. A Colômbia ficou em segundo lugar, com 20%.
Com a aplicação das tarifas, o fluxo comercial mudou. Enquanto em 2024 os Estados Unidos representaram 16,09% do total de café exportado pelo Brasil, no ano seguinte essa participação caiu para 13,43%. Nesse movimento, a Alemanha passou a liderar, ainda que por pequena margem, com 13,49%.
No recorte mais recente, de janeiro a março deste ano, a distância cresceu: a Alemanha respondeu por 14,07% das exportações brasileiras de café, enquanto os EUA ficaram com 11,02%.
Participação nas exportações brasileiras de café
Período EUA Alemanha 2024 16,09% — 2025 13,43% 13,49% Jan–Mar (ano atual) 11,02% 14,07%
Contratos cancelados, importador cauteloso e expectativa pela nova safra
A leitura do Cecafé é que retomar o ritmo anterior depende de tempo. Durante a vigência das tarifas, muitos contratos teriam sido cancelados ou postergados, o que dificulta uma recuperação imediata. Segundo Matos, é possível que importadores americanos aguardem a chegada da nova safra, que começa a entrar no mercado a partir de junho.
O cenário futuro segue marcado por incertezas. Embora exista uma lista de exceção que protege parte das vendas, o setor avalia que a ausência de um acordo bilateral robusto limita a previsibilidade comercial.
Café solúvel ficou fora da exceção e segue com tarifa de 10%
Um ponto sensível é o café solúvel, que representa cerca de 10% das exportações brasileiras de café. O produto ficou de fora da lista de exceção e, por isso, permanece taxado em 10%. De acordo com Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), essa restrição ajudou a encerrar 2025 com queda de 10,6% nas exportações totais.
No recorte para os Estados Unidos, o recuo do café solúvel foi de 28%, com a ressalva de que o primeiro semestre foi positivo, o que evitou uma queda ainda maior no resultado anual.
Governo busca diálogo e diversificação de mercados
O governo brasileiro afirma manter esforços contínuos para buscar melhorias e soluções. Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), informou que negociadores participam de fóruns para fornecer esclarecimentos e estreitar relações comerciais com os Estados Unidos.
Em paralelo, a estratégia inclui diversificação de parceiros. No caso do café, o secretário citou China e Austrália como destinos com potencial de crescimento. Segundo ele, o movimento busca ampliar oportunidades comerciais de forma estrutural, independentemente do cenário com os EUA.
Pontos-chave para entender o impacto
Sobretaxa de 40% reduziu exportações de café para os EUA em 54,8% no período em que vigorou.
A recuperação tem sido lenta: primeiro trimestre ainda com queda de 48,3% e abril com retração de 46,1%.
O café entrou na lista de exceções devido ao peso no consumo e ao risco de pressionar a inflação nos EUA.
A Alemanha ultrapassou os EUA como principal destino do café brasileiro em participação nas exportações.
Café solúvel segue com tarifa de 10%, afetando resultados do setor.
Em síntese, o episódio das tarifas mostrou como decisões comerciais podem afetar rapidamente fluxos de exportação e preços em cadeias globais. Embora a taxação mais pesada tenha sido retirada, os números indicam que o mercado ainda se ajusta — e que a previsibilidade segue como um tema central para o café brasileiro no comércio internacional.
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