
Primeira certificação de soja para SAF no mundo com ISCC Corsia Plus Low-LUC: Brasil mira redução de até 70% de emissões
Este é o primeiro esforço mundial de certificação de soja para a cadeia de SAF (querosene de aviação sustentável). A certificação ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk atesta que a soja usada não provocou desmatamento após 2008, apoiando metas de redução de emissões do transporte aéreo. A certificação foi emitida pela International Sustainability & Carbon Certification (ISCC), uma das três certificadoras reconhecidas pelo programa Corsia da ICAO. Para assegurar a entrega de SAF certificado, toda a cadeia precisa ser certificada: produtores de soja, esmagadora....
Uma iniciativa inédita de certificação de soja para a cadeia de produção de combustível sustentável de aviação (SAF) foi anunciada como a primeira do tipo no mundo, reforçando a importância de rastreabilidade e credenciais ambientais em um mercado que avança sob pressão de metas climáticas.
O movimento ocorre em um momento decisivo para o setor aéreo. A partir do próximo ano, companhias no Brasil e no exterior passam a enfrentar metas mais rígidas de redução de emissões. Para cumprir esses compromissos, as empresas precisarão adquirir combustíveis que tragam certificação reconhecida e comprovem, de forma auditável, o nível de redução de gases de efeito estufa ao longo de toda a cadeia.
Certificação “ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk”: o que muda
O produto recebeu a certificação “ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk”, considerada uma das mais rigorosas para SAF. Na prática, o selo atesta que a soja cultivada para originar o óleo utilizado na produção não provocou desmatamento após 2008, um marco relevante para requisitos internacionais de sustentabilidade.
Segundo a diretora de Soluções para Combustíveis Renováveis da Bunge, Cristini Kubo, a lógica por trás do rigor é direta: não há ganho climático real em substituir combustível fóssil por um produto associado a desmatamento.
A certificação foi emitida pela International Sustainability & Carbon Certification (ISCC), uma das três certificadoras reconhecidas pelo Corsia, o programa da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) voltado ao controle e compensação de emissões na aviação internacional.
Rastreabilidade do campo ao aeroporto: cadeia inteira precisa ser certificada
Para garantir a entrega de SAF derivado de óleo de soja certificado, não basta certificar apenas a matéria-prima. Toda a cadeia precisa atender aos critérios exigidos, envolvendo:
Produtores de soja (com comprovação de práticas e histórico de uso do solo);
Unidade de esmagamento da Bunge em Rondonópolis;
Refinaria Reduc, onde ocorre o coprocessamento;
Base de distribuição da Vibra no Galeão, que já conta com certificação ISCC Corsia Plus desde 2024.
O desenho, descrito pelos participantes como um projeto piloto, busca demonstrar que o Brasil tem condições de estruturar uma cadeia de fornecimento de SAF com padrão internacional, do campo ao abastecimento.
Gargalo do SAF: matéria-prima certificada, não capacidade industrial
De acordo com Daniel Sales, gerente executivo de Comercialização no Mercado Interno da Petrobras, o entrave atual do SAF não está na capacidade de refino em si, mas na disponibilidade de matéria-prima devidamente certificada para atender exigências ambientais e regulatórias.
Hoje, a Reduc é a única refinaria da Petrobras com certificação para produzir querosene de aviação coprocessado com conteúdo renovável. Quando demandada, a unidade já produz querosene com 1% de conteúdo renovável.
Até aqui, a produção realizada utilizou como matéria-prima renovável óleo de milho certificado, fornecido pela FS. A nova etapa, com foco em óleo de soja certificado, amplia as opções e responde à necessidade de escala do mercado de aviação.
Expansão de certificações em refinarias e atendimento de demanda até 2029
A Petrobras espera concluir até o fim do ano a certificação de outras três refinarias para a produção de querosene de aviação coprocessado:
Regap, em Betim (MG);
Revap, em São José dos Campos (SP);
Replan, em Paulínia (SP).
Com a certificação dessas unidades, a companhia avalia que poderá atender toda a demanda por SAF até 2029. Parte das refinarias deve operar com até 5% de conteúdo renovável no combustível final entregue às companhias aéreas, conforme a demanda e os requisitos de mercado.
Por que o óleo de soja tende a liderar a produção de SAF no Brasil
Embora existam outras matérias-primas possíveis para produzir combustível sustentável de aviação, as empresas envolvidas no projeto indicam que o óleo de soja deve ser a principal opção no Brasil, principalmente pela capacidade do país de oferecer escala.
Na avaliação de Cristini Kubo, o diferencial está no volume disponível: entre as alternativas, é o óleo de soja que o Brasil consegue suprir em grande escala, o que é decisivo diante do crescimento esperado da demanda por SAF.
Dados padrão x dados primários: impacto direto na redução de emissões
Um ponto técnico central do processo é a forma de comprovar a redução de emissões. A certificação da soja dentro do padrão Corsia pode ser feita com:
Dados padrão, baseados em médias globais para a produção de soja;
Dados primários, coletados diretamente em cada fazenda e auditados no processo de certificação.
Se a certificação fosse conduzida com dados padrão, a redução de emissões estimada seria mais limitada, em torno de 30%. Para assegurar uma redução de 70%, a Bunge utilizou dados primários de produtores participantes do Programa de Agricultura Regenerativa da empresa.
Além disso, a certificação foi viabilizada pelo avanço em rastreabilidade: segundo Kubo, a empresa afirma conseguir rastrear 100% das compras de soja, tanto diretas quanto indiretas, elevando a transparência exigida pelo mercado internacional de combustíveis sustentáveis.
Resumo do que a certificação representa para o mercado
Fator O que significa Selo ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk Comprova critérios rigorosos e ausência de desmatamento após 2008 na cadeia certificada Cadeia certificada Garante que a sustentabilidade não se perde entre produção, processamento, refino e distribuição Gargalo atual Oferta de matéria-prima certificada é mais crítica do que capacidade industrial Dados primários Permitem comprovar reduções maiores de emissões quando comparados a médias globais Escala do óleo de soja Tende a ser a principal rota no Brasil por disponibilidade e volume de oferta
Em um cenário de novas exigências climáticas para a aviação, a certificação de soja voltada ao SAF reforça o papel da agricultura rastreável e de cadeias auditadas para destravar investimentos e garantir que a descarbonização do setor aéreo venha acompanhada de integridade ambiental.
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