
Produção de leite no Norte do RS cai com calor e estiagem; irrigação e silagem tentam salvar as pastagens
Dias de calor intenso e pouca chuva reduzem a produção leiteira no norte do RS em até 17%, com o volume por animal caindo de cerca de 30 para 25 litros devido ao estresse térmico e à pastagem de menor qualidade. A fibrosidade das pastagens reduz o consumo, impactando diretamente a produção, e a silagem/ração reforçada aumenta custos e modifica a rotina alimentar. Em Marau, a família De Marchi relata produção abaixo do esperado, mesmo com suplementação. Em Água Santa, 114 propriedades dependem do leite como principal fonte de renda; o sistema de irrigação de Márcio Rodigheri ajuda a manter pastagens, aplicando cerca de 20 mm em duas horas. Apesar disso, o retorno financeiro não acompanha os custos, com o leite variando entre R$ 1,87 e R$ 1,95 por litro nos últimos meses.
Calor intenso e pouca chuva reduzem produção de leite em até 17% no norte do RS
A combinação de dias consecutivos de altas temperaturas e baixa ocorrência de chuvas já provoca impactos relevantes na produção leiteira no norte do Rio Grande do Sul. Propriedades rurais relatam queda de até 17% no volume produzido, com médias aproximadas de 25 litros por animal, abaixo dos cerca de 30 litros registrados em períodos sem estiagem.
Estresse térmico e pastagens com menor qualidade explicam a queda
Técnicos e produtores apontam dois fatores principais por trás da redução: o estresse térmico dos animais e a dificuldade de rebrote das pastagens. Com menos chuva, o capim tende a perder qualidade, ficando mais fibroso, o que reduz o consumo pelos animais. A menor ingestão de alimento se reflete diretamente na queda da produtividade.
“Diminuiu bastante a produção por causa do sol, não por falta de oferta de pasto. O pasto existe, mas elas acabam não comendo porque ele está fibroso, por falta de chuva. Hoje está fechando nos cerca de 25 litros devido ao calor e ao estresse das vacas; elas não comem pasto suficiente.”
O cenário preocupa especialmente pela persistência do calor. Além da queda no volume de leite, a situação exige mudanças no manejo e pode elevar os custos operacionais, já que a alimentação precisa ser ajustada para compensar a menor qualidade das pastagens.
Ajustes na dieta e uso de silagem elevam custos nas propriedades
Em propriedades da região, famílias têm reforçado a dieta das vacas com ração e silagem para manter a produtividade. A silagem, técnica de conservação de forragem úmida, é uma alternativa comum em períodos de seca por garantir oferta de alimento quando o pasto perde vigor. No entanto, seu uso tende a aumentar despesas, seja pela produção na propriedade, seja pela compra do insumo, além de modificar a rotina alimentar do rebanho.
Ponto de atenção: com o capim mais fibroso e menos palatável, o consumo cai. Isso pode resultar em redução do leite mesmo quando ainda há pasto disponível no campo.
Principais efeitos observados no campo
- Queda de produção por animal em comparação com períodos sem estiagem;
- Menor consumo de pastagem devido à fibrosidade e perda de qualidade nutricional;
- Maior dependência de suplementação (ração e silagem);
- Elevação de custos com alimentação e manejo.
Municípios dependentes do leite sentem pressão econômica
O impacto do clima atinge em cheio municípios onde o leite é base da renda rural. Em Água Santa, por exemplo, a atividade leiteira aparece como uma das principais fontes de receita para famílias do campo, com 114 propriedades tendo o leite como carro-chefe da renda familiar, segundo levantamento técnico local.
Nesse contexto, a estiagem e o calor prolongado não afetam apenas a produção diária, mas também a previsibilidade financeira das propriedades, que passam a depender de estratégias de mitigação para atravessar períodos mais críticos.
Irrigação nas pastagens vira estratégia para enfrentar anos mais secos
Para reduzir perdas, alguns produtores têm investido em irrigação das áreas de pastagem. A estratégia busca manter a hidratação do capim e preservar a qualidade do alimento oferecido aos animais, mesmo em períodos de chuva irregular.
“Ter irrigação numa propriedade em um momento como esse é o que está salvando muitos produtores. Nós vamos ampliar a área irrigada da propriedade, para ver se conseguimos passar mais tranquilamente por esses anos ruins.”
De acordo com o relato, com cerca de duas horas de funcionamento, o sistema de irrigação consegue aplicar aproximadamente 20 milímetros de água na área irrigada. Ainda assim, o investimento precisa ser equilibrado com a realidade financeira do setor, já que o preço pago pelo leite nem sempre acompanha os custos crescentes de produção.
Resumo dos números citados
| Indicador | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Queda na produção | Até 17% | Efeito de calor e baixa chuva |
| Média por animal | Cerca de 25 L | Abaixo de ~30 L sem estiagem |
| Propriedades com foco no leite | 114 | Em município onde o leite é base de renda |
| Irrigação (aplicação) | ~20 mm em 2 h | Para manter pasto hidratado |
Preço do leite pressiona retorno de investimentos
Mesmo com alternativas como irrigação e suplementação alimentar, produtores relatam que o retorno financeiro nem sempre acompanha o investimento. A remuneração pelo litro do leite tem sido apontada como um entrave para ampliar estruturas e absorver o aumento de custos na propriedade.
“Esse mês eu recebi R$ 1,95 ao litro, mas já teve meses piores. Eu cheguei a receber R$ 1,87 ao litro de leite. Nos últimos dois meses subiu um pouco, só que ainda não é viável.”
Especialistas avaliam que, em períodos de estiagem e ondas de calor, a cadeia do leite fica mais vulnerável porque depende de alimentação de qualidade e de um ambiente térmico adequado para manter a produtividade. Sem essas condições, os custos sobem e a margem do produtor tende a diminuir.
