
Reformas estruturais e ajustes microeconômicos podem destravar crédito e investimentos no varejo brasileiro; Copom pode cortar juros, dizem executivos
A mensagem dos executivos converge para a necessidade de um pacote que una juros mais baixos, reformas estruturais, modernização do trabalho, qualificação profissional e política industrial previsível para sustentar investimento, produtividade e crescimento no médio prazo.
Executivos defendem reformas, crédito mais acessível e qualificação profissional para destravar investimentos no Brasil
Agenda econômica, custo de capital e escassez de mão de obra qualificada dominaram o debate entre lideranças empresariais, com foco em previsibilidade e competitividade.
Em meio a um cenário de incertezas e custo financeiro elevado, executivos de grandes empresas brasileiras reforçaram a necessidade de reformas estruturais, avanços microeconômicos e medidas para aumentar a previsibilidade do ambiente de negócios. A avaliação comum é que a combinação entre mudanças de curto prazo e uma agenda mais ampla pode facilitar o acesso ao crédito, reduzir riscos e destravar investimentos e expansão em diferentes setores da economia.
Para o CEO do Magazine Luiza, Frederico Trajano, o financiamento segue como um obstáculo importante para empresas do varejo, limitando decisões estratégicas. Segundo ele, o país ainda convive com barreiras que encarecem o crédito e elevam a percepção de risco, o que freia projetos de crescimento. No entanto, Trajano ponderou que medidas microeconômicas podem contribuir para melhorar o acesso a capital e diminuir incertezas para o setor.
Frederico Trajano: “Avanços microeconômicos podem melhorar o acesso a crédito e reduzir riscos no varejo. Sem mudanças estruturais, o ambiente tende a seguir restritivo.”
Na visão do executivo, uma agenda consistente de reformas é indispensável para “destravar” o ambiente de negócios. Ele ressaltou que, sem mudanças estruturais, o país corre o risco de manter um contexto restritivo por mais tempo, com reflexos diretos em investimento, competitividade e geração de empregos.
Juros, custo de capital e instituições: expectativa de corte na Selic
O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou que a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve marcar o primeiro corte de juros após um período prolongado de taxa básica em patamares elevados. Para Maluhy, reduzir o custo de capital é essencial para estimular investimentos, aliviar o peso do financiamento e ampliar a capacidade de planejamento de empresas e consumidores.
Milton Maluhy Filho: “Precisamos discutir alavancas para uma queda estrutural da taxa de juros.”
Maluhy também destacou a importância de instituições sólidas e de um ambiente com maior segurança jurídica para reduzir o prêmio de risco. Ele observou que os fluxos estrangeiros para o Brasil no início do ano foram positivos, mas com características de investimento de portfólio, considerado mais volátil e sensível a mudanças no cenário macroeconômico.
Outro ponto central, segundo o executivo, é o debate fiscal. Maluhy avaliou que o país precisa acelerar medidas que melhorem a trajetória da dívida pública e defendeu a urgência de uma reforma orçamentária, independentemente de mudanças políticas futuras.
Destaque: Para lideranças do setor financeiro, a combinação de queda de juros, instituições fortes e ajuste fiscal é determinante para reduzir risco, destravar crédito e sustentar o crescimento.
Mercado de trabalho: modernização e disputa por mão de obra
O mercado de trabalho apareceu como um tema recorrente, especialmente entre executivos ligados ao varejo e à construção. Para o CEO do Assaí, Belmiro Gomes, a estrutura atual do regime de contratação formal é um entrave ao setor produtivo, e a modernização seria mais relevante do que debates focados apenas no fim de escalas específicas de jornada.
Belmiro Gomes: “É muito para quem paga e pouco para quem recebe. Temos um paradoxo.”
Gomes citou o avanço de plataformas de trabalho por aplicativo e a busca de parte dos profissionais por jornadas mais longas para ampliar renda, apontando que essa dinâmica aumenta a pressão sobre empresas tradicionais. Na avaliação do executivo, a discussão deveria considerar modelos que permitam ao trabalhador ser melhor remunerado e, ao mesmo tempo, reduzam distorções que dificultam contratações e a disponibilidade de mão de obra.
Desafio apontado: competição por trabalhadores com plataformas digitais
Risco associado: escassez de mão de obra em segmentos com alta demanda
Objetivo: aumentar remuneração e eficiência sem ampliar insegurança
Energia e construção: falta de qualificação limita expansão
O CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, afirmou que a escassez de mão de obra qualificada é um dos principais gargalos para a expansão de setores como energia e construção civil. Mesmo com demanda, empresas enfrentam dificuldades para preencher posições técnicas e sustentar planos de crescimento com produtividade.
Werneck também mencionou que, em determinados contextos, o retorno esperado não se viabiliza, o que acaba limitando a aprovação de investimentos. Paralelamente, o executivo reforçou que transformação digital e inteligência artificial se tornaram elementos centrais de competitividade e sobrevivência empresarial.
Gustavo Werneck: “Virou uma questão de sobrevivência.”
Tema Impacto no investimento Mão de obra qualificada Atrasos em expansão e dificuldade de aumentar capacidade produtiva Transformação digital e IA Competitividade, eficiência e necessidade de adaptação rápida
Comércio internacional e crise global: estratégia e mitigação de riscos
O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, destacou o papel do setor privado na sustentação do crescimento do país e defendeu passos para fortalecer o ambiente produtivo. Entre os pontos citados, estão a reforma tributária, a manutenção de um cenário macro consistente e um comércio internacional com menos burocracia, fator considerado decisivo para empresas com forte atuação externa.
Ao abordar o cenário global, Gomes Neto observou que turbulências internacionais têm sido frequentes, incluindo inflação em economias desenvolvidas, gargalos de fornecimento e tensões geopolíticas recentes. Segundo ele, a empresa busca lidar com esse contexto com objetividade, planejamento e medidas de mitigação.
O executivo ressaltou que o mercado internacional é central para a Embraer e responde por parcela significativa da receita do grupo. Ele também citou perspectivas favoráveis após mudanças nas condições de exportação de aviões do Brasil para os Estados Unidos, reforçando a importância de regras previsíveis para o comércio exterior.
Política industrial e incentivos: lições de modelos internacionais
A líder regional da Dow no Brasil, Mariana Orsini, afirmou que o país precisa organizar e avançar em sua política industrial, com diretrizes claras, estabilidade regulatória e instrumentos que fortaleçam cadeias produtivas selecionadas. Ela citou como referência um modelo internacional de incentivo à indústria, destacando que previsibilidade e acesso a insumos podem ser decisivos para grandes projetos.
Orsini mencionou que investimentos industriais tendem a buscar ambientes com regras bem definidas, oferta de matérias-primas e incentivos alinhados a uma estratégia de longo prazo. Na avaliação da executiva, benefícios fiscais podem ser importantes para acelerar setores escolhidos como prioritários, desde que integrados a uma visão consistente de desenvolvimento e competitividade.
Em síntese: a mensagem dos executivos converge para a necessidade de um pacote que una juros mais baixos, reformas estruturais, modernização do trabalho, qualificação profissional e política industrial previsível para sustentar investimento, produtividade e crescimento no médio prazo.




