
A pecuária brasileira vive um momento de reorganização estratégica em diferentes frentes, com foco em valor agregado, exigências socioambientais, rastreabilidade e gestão baseada em dados. Nos últimos dias, três movimentos chamaram a atenção do setor: o lançamento do Fundo de Promoção da Carne Gaúcha (Fundocarne), no Rio Grande do Sul; o avanço do Passaporte Verde em Mato Grosso, voltado ao monitoramento socioambiental; e a expansão do Simulador Pecuaria.io, ferramenta gratuita da Embrapa para apoiar decisões de manejo na pecuária de corte.
Em conjunto, as iniciativas apontam para uma tendência clara: a competitividade da carne bovina no Brasil depende cada vez mais de confiança, origem, conformidade ambiental e eficiência produtiva.
O Rio Grande do Sul deu um passo inédito ao estruturar um mecanismo permanente de promoção da carne do estado. O Fundocarne foi lançado na terça-feira (24), durante evento na Estação de Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, marcando uma mudança na forma como a cadeia pecuária gaúcha pretende se posicionar no mercado.
A novidade é a construção conjunta entre produtores e indústrias frigoríficas, dois elos que historicamente tiveram tensões e disputas comerciais. A proposta do fundo é substituir o conflito por coordenação estratégica, com foco em marketing, posicionamento e diferenciação de produto.
“O gaúcho precisa valorizar essa carne e o brasileiro precisa reconhecer que o que produzimos aqui é igual ou até superior ao que fazem Uruguai e Argentina.”
— liderança do setor produtivo
A comparação com os vizinhos do Mercosul não é aleatória. Uruguai e Argentina consolidaram reputação internacional ao associar suas carnes a origem, qualidade e tradição. O objetivo do Fundocarne é construir uma narrativa semelhante, reforçando identidade regional e atributos de produção.
O primeiro movimento do fundo é a campanha “Carne gaúcha é diferente”, com um vídeo institucional pensado para circular nas redes das entidades e parceiros. A narrativa destaca elementos do cotidiano rural, o manejo extensivo e o churrasco como símbolo cultural, reforçando a ideia de que o produto é mais do que uma commodity.
As gravações foram realizadas em atividades reais de nove propriedades de diferentes regiões do estado. A mensagem central é que a qualidade está conectada ao sistema de produção: genética, pastagens, respeito ao tempo do animal e a paisagem típica dos campos sulinos.
Foco da comunicação: diferenciação por origem e tradição.
Estratégia: apelo emocional e construção de marca.
Ponto-chave: valorizar o modo de produção e não apenas o corte final.
O fundo será constituído como pessoa jurídica independente e terá financiamento por contribuições voluntárias. No desenho inicial, 17 frigoríficos se comprometeram a destinar um valor fixo por cabeça abatida, considerando a totalidade dos abates. Do lado dos produtores, as contribuições também serão espontâneas, inclusive por meio de doações durante leilões.
A meta agora é ampliar a base de participantes para garantir escala financeira e continuidade das ações de promoção e posicionamento, com presença mais consistente no mercado.
Em destaque: o modelo busca dar estabilidade ao investimento em marketing e reduzir a fragmentação da cadeia, estimulando uma visão de longo prazo para a carne gaúcha.
O lançamento do Fundocarne ocorreu dentro da programação da Arena Pecuária, realizada durante a Abertura da Colheita de Arroz, que reuniu produtores, técnicos e representantes do setor. Entre os temas discutidos no primeiro dia, a rastreabilidade foi tratada como ferramenta decisiva para gestão, sanidade e acesso a mercados premium.
Também foram apontadas a importância da certificação e da integração com o poder público para fortalecer o protagonismo do estado no sistema nacional de identificação bovina. A programação ainda incluiu debates sobre integração produtiva, eficiência e geração de valor dentro da propriedade, além de painéis dedicados a Integração Lavoura-Pecuária e pecuária intensiva, com foco em produtividade por hectare.
No Centro-Oeste, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso promoveu, na segunda-feira (23), uma audiência pública para discutir a lei que institui o Passaporte Verde, um programa de monitoramento socioambiental de propriedades pecuárias no estado. Participaram representantes do governo estadual, do Instituto Mato-grossense da Carne e lideranças do setor produtivo.
O programa foi apresentado como alternativa para reintegrar ao mercado formal produtores com algum tipo de irregularidade ambiental, em um cenário de exigências crescentes de frigoríficos e compradores, especialmente quando o destino é o mercado internacional.
Sancionado no final de 2025, o Passaporte Verde estabelece monitoramento socioambiental do rebanho bovino e bubalino no estado e está alinhado ao cronograma do Plano Nacional de Identificação Individual.
Entre os critérios apontados estão a ausência de desmatamento ilegal após julho de 2008, a situação ativa do Cadastro Ambiental Rural e a inexistência de embargos ambientais.
Ponto do programa Objetivo Monitoramento socioambiental Aumentar transparência e atender exigências de mercado Conformidade ambiental Reforçar segurança jurídica e reduzir risco comercial Reinserção de produtores Permitir retorno gradual ao mercado formal após regularização
Um dos componentes centrais do Passaporte Verde é o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), descrito como mecanismo para apoiar produtores com pendências ambientais na regularização e no retorno à comercialização com frigoríficos. Atualmente, mais de 160 pecuaristas participam da iniciativa.
Representantes do governo estadual afirmaram que a lei não cria exigências adicionais às já previstas no Código Florestal Brasileiro, e que o foco está em orientar e apoiar a regularização, ao mesmo tempo em que se fortalece a imagem da carne produzida no estado diante de mercados mais rigorosos.
No campo da inovação, a Embrapa Pecuária Sul (RS) desenvolveu o Simulador Pecuaria.io, ferramenta digital gratuita que pretende impulsionar a gestão da pecuária de corte por meio de simulações acessíveis e intuitivas. A plataforma pode ser utilizada em computador ou celular conectado à internet e ajuda o produtor a comparar cenários e visualizar como decisões de manejo influenciam resultados.
A proposta é funcionar como um sistema de apoio à decisão, transformando indicadores zootécnicos e econômicos em projeções práticas. Com isso, o produtor consegue planejar investimentos e reduzir incertezas, conectando dados da fazenda a resultados esperados em produtividade e rentabilidade.
O simulador foi pensado para analisar fazendas com rebanhos estabilizados, especialmente em sistemas de ciclo completo, onde o equilíbrio entre categorias animais reflete nascimentos, mortes e vendas da própria propriedade, sem depender de compras externas. Também está prevista uma versão voltada a sistemas de cria.
Simulação de cenários: comparar estratégias e resultados.
Indicadores integrados: unir zootecnia e economia na mesma análise.
Planejamento: estimar impactos antes de executar mudanças no manejo.
Apesar da relevância econômica da pecuária de corte no Brasil, a produtividade por hectare permanece como desafio em muitas regiões. Entre os fatores, estão dificuldades em medir o efeito combinado de decisões como taxa de desmame, idade de abate, acasalamento e capacidade de suporte das pastagens.
Nesse contexto, ferramentas digitais que traduzem dados em projeções claras ganham importância por apoiar o produtor a tomar decisões com mais segurança, profissionalizando a gestão e ampliando eficiência produtiva.
A combinação de promoção de marca, monitoramento socioambiental e gestão orientada por dados revela um movimento de modernização e alinhamento às novas demandas do mercado. A carne bovina, cada vez mais, é avaliada não apenas pelo produto final, mas pelo que está por trás dele: origem, conformidade e consistência do sistema produtivo.
Ao buscar diferenciação, ampliar rastreabilidade e fortalecer a regularização, o setor dá sinais de que a competitividade nos próximos anos dependerá de uma palavra-chave: credibilidade.
Conteúdo reescrito a partir de informações setoriais divulgadas por entidades e instituições ligadas à pecuária.

Resumo: A Abramilho acompanha com apreensão a guerra entre EUA, Israel e Irã, destacando o Irã como principal parceiro comercial do Brasil nas exportações de milho. Entre 2020 e 2025, o Irã absorveu 9,08 milhões de toneladas de milho brasileiro, cerca de 20% das exportações brasileiras no último ano, com aproximadamente 80% do milho importado pelo Irã vindo do Brasil. O Irã também exporta ureia (184,7 mil toneladas no último ano), mas suas vendas diretas ao Brasil são limitadas por sanções; em 2025 o Brasil importou cerca de US$ 84 milhões em produtos iranianos. Há suspeitas de Triangulação de Carga para driblar restrições. No Brasil, a demanda interna supera a produção neste período, com a primeira safra em torno de 26 milhões de toneladas e o consumo no primeiro semestre chegando a cerca de 50 milhões de toneladas, com as exportações de milho previstas para se intensificarem a partir da segunda colheita. A entidade alerta que a escalada do conflito pode influenciar o cenário futuro, mas, enquanto não houver ataques que comprometam portos por razões humanitárias, o abastecimento interno de milho não deverá ser prejudicado.

Resumo: O fechamento do Estreito de Ormuz pode impactar o agronegócio de Minas Gerais ao elevar o custo do petróleo, combustíveis e fretes, pressionando a logística e o custo de produção. A crise tende a valorizar o dólar, o que, por um lado, pode favorecer exportações para o mercado árabe, mas, por outro, encarece fertilizantes, defensivos e máquinas importadas. O setor de fertilizantes, dependente de insumos importados, fica particularmente vulnerável à volatilidade de preços. A Faemg/Senar recomenda reforçar a gestão de risco, planejar compras de insumos com antecedência, usar instrumentos de proteção de preços e manter o fluxo de caixa sob controle, além de cobrar ações diplomáticas para reduzir impactos. Apesar dos riscos, há potencial de maior receita em reais com as exportações, desde que custos permaneçam sob controle.

Sumário: O PIB do setor agropecuário brasileiro cresceu 29,1% desde 2020, com 2025 registrando alta de 11,7% impulsionada por safras recordes na agricultura e pela recuperação da pecuária. Em 2024/25 houve safra de soja de 166 milhões de toneladas e milho de 142 milhões em 2025; para 2026, a projeção aponta queda do milho para 134 milhões e do arroz para 11,5 milhões (-2,2%), comrecados esperados para algodão, trigo e sorgo, enquanto a soja pode alcançar recorde de 173 milhões. A laranja atingiu 15,7 milhões de toneladas (+28,4%), o arroz 12,7 milhões (+19,4%) e o algodão 9,9 milhões (+11,4%). A cana-de-açúcar permanece estável. A produção de carne totalizou 33 milhões de toneladas em 2025, com a bovina dominando as exportações mundiais; no entanto, 2026 tende a trazer maior volatilidade e possível redução de oferta, influenciada pela demanda chinesa e por riscos geopolíticos, como a guerra no Irã. Café (+6%), cacau e batata também devem sustentar o PIB do setor.

Resumo: A agricultura regenerativa pode transformar uma propriedade de emissora de carbono para capturadora, armazenando carbono no solo na forma de matéria orgânica, com o solo como o segundo maior reservatório do planeta. O modelo aumenta biodiversidade, recupera ecossistemas e reduz custos a médio e longo prazo ao diminuir a dependência de insumos. Além disso, favorece a vida microbiana do solo e polinizadores, com sistemas integrados como ILPF e o uso de bioinsumos contribuindo para reduzir emissões de óxido nitroso e metano. Economicamente, pode gerar até US$ 1,4 trilhão em oportunidades e criar 62 milhões de empregos no mundo; no Brasil, tende a alinhar conservação ambiental e competitividade, ampliando acesso a mercados e financiamento verde por meio de rastreabilidade. A estabilidade de custos vem da menor dependência de insumos importados e do maior uso de processos biológicos. Embora associada à orgânica, a regenerativa foca em resultados ecológicos (sequestro de carbono, biodiversidade, melhoria do solo) em vez de proibições de insumos. Em transições, podem ocorrer insumos sintéticos pontuais, desde que avaliados por indicadores ambientais. Para iniciar, é essencial um diagnóstico detalhado do solo, identificação de problemas e medidas como bioinsumos, diversificação de culturas, rotação de plantios e plantio direto, com apoio de extensão rural e troca entre produtores já atuantes.

Resumo: A indústria brasileira de máquinas e equipamentos desacelerou em janeiro, com a receita líquida de vendas caindo 17% ante janeiro de 2025, para R$ 17,28 bilhões. No mercado interno, a receita recuou 19% (R$ 12,8 bilhões) e o consumo aparente caiu 21,5% (R$ 26,5 bilhões). As exportações chegaram a US$ 838,2 milhões, alta de 3,1% YoY, mas queda de 41,4% em relação a dezembro. As importações somaram US$ 2,48 bilhões, -10,3% YoY. O nível de utilização da capacidade instalada ficou em 78,6% (alta de 0,6 ponto percentual MoM e 4% frente a janeiro de 2025). O backlog de pedidos ficou em 9 semanas. A Abimaq projeta crescimento de 3,5% na produção e aproximadamente 4% na receita líquida do setor neste ano, sustentados principalmente pelo mercado doméstico, com expansão da demanda próxima de 5,6%, impulsionada por projetos de infraestrutura e investimentos continuados em atividades extrativistas. Em máquinas agrícolas, as vendas devem cair cerca de 5% em 2026; em janeiro, a receita com venda de máquinas e implementos caiu 15,6% YoY, para R$ 3,6 bilhões.