
O agronegócio brasileiro adentra o ano de 2026 em um contexto de desafios marcados por um cenário econômico menos permissivo. Diante da virada para 2027, o crescimento do setor deixa de ser meramente uma consequência da escala, exigindo cada vez mais enfoque estratégico, gestão aprimorada e eficiência operacional.
Depois de um ciclo de expansão acelerada, o início do ano é caracterizado por ajustes finos, quando o setor enfrenta pressões de juros elevados, maior seletividade de crédito e margens mais estreitas. Essa análise é corroborada pelo engenheiro agrônomo e especialista em estratégias empresariais, Marcos Fava Neves, sócio-fundador da Harven Agribusiness School, que destaca a necessidade de reduzir o improviso e adotar abordagens metodológicas.
"Após um período de rápido crescimento, o agronegócio passa a enfrentar um cenário de custos crescentes, exigindo controle e decisões mais racionais", afirma Neves.
O consenso para 2026 é claro: a tecnologia será um elemento central no campo. A inteligência artificial (IA) emerge de um discurso futurista e se estabelece como uma ferramenta essencial dentro das fazendas brasileiras.
"A IA está transformando praticamente todos os setores, e na agricultura, isso já está acontecendo", destaca Neves. Algoritmos já estão sendo utilizados para otimizar a aplicação de insumos, monitorar lavouras e planejar operações. O resultado será uma agricultura mais precisa e eficiente, diminuindo o desperdício e aumentado a precisão.
Esses avanços também impactam a gestão, capacitação de equipes e a redução da dependência de mão de obra em etapas específicas do processo produtivo.
Paralelamente à busca por eficiência, os bioinsumos estão se consolidando como parte estrutural dos sistemas produtivos. Essa adoção crescente reflete tanto a pressão por práticas sustentáveis quanto a necessidade de reduzir custos e aumentar a previsibilidade agronômica.
Com solos mais equilibrados, menor dependência de insumos químicos e maior estabilidade produtiva, os bioinsumos passam a ser diferenciais importantes em um ambiente de margens comprimidas.
A bioenergia também ganha espaço em 2026. Apesar do uso obrigatório do combustível sustentável de aviação estar previsto somente para 2027, os investimentos já começaram.
"Os testes com etanol, biogás e biometano em maquinário agrícola apontam para uma mudança estrutural nos custos energéticos do setor", comenta Neves. Isso promete promover benefícios ambientais e econômicos, com muitos grupos produzindo seu próprio combustível e substituindo o uso do diesel.
Embora a tecnologia indique novos caminhos, o ambiente financeiro impõe restrições significativas. Para 2026, o controle de custos e a redução do endividamento surgem como prioridades absolutas, especialmente em função dos juros elevados.
"A eficiência torna-se a palavra-chave", reforça Neves, destacando que as elevadas taxas de juros são atualmente o principal fator de pressão sobre as margens do setor. O encarecimento do crédito, associado ao aumento das recuperações judiciais no setor, reduz a confiança dos investidores, impondo uma expansão mais cautelosa e seletiva.
Em âmbito institucional, a Reforma Tributária surge como uma variável estratégica. Embora não apresente efeitos imediatos, ela traz simplificações e uma fiscalização mais moderna e digital.
As mudanças em tarifas e carga tributária ocorrerão gradualmente, necessitando de um acompanhamento próximo por parte das empresas. No entanto, é importante estar atento aos segmentos específicos dentro da cadeia, que podem ser impactados de formas distintas.
No cenário macroeconômico, o câmbio permanece influente nas decisões do setor. Após anos de competitividade impulsionada por um dólar alto, a valorização do real ao longo de 2026 desponta como um cenário possível.
"Os riscos residem no descompasso entre custos e receitas", alerta Neves, destacando que ajustes financeiros serão necessários para evitar o esmagamento das margens durante a colheita.
As condições climáticas, produção agrícola e comportamento dos preços das commodities continuarão sendo fatores determinantes para o desempenho do setor. Questões sanitárias, além de um ano eleitoral que influencia o ritmo do investimento e decisões regulatórias, também estão no radar.
Apesar de um ambiente mais exigente, o agronegócio brasileiro mantém-se resiliente, com fundamentos sólidos e um grande potencial de inovação e crescimento a médio e longo prazo. A combinação de tecnologia, gestão eficaz e disciplina financeira é crucial para atravessar o ciclo de 2026 com consistência e sucesso.

Durante o India–Brazil Business Forum em Nova Délhi, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, destacou a retomada das relações Brasil–Índia e abriu uma nova etapa de cooperação estratégica baseada em confiança, diálogo e complementaridade econômica. Ele apresentou oportunidades de ampliação do comércio bilateral, investimentos e inovação no agronegócio brasileiro, ressaltando o papel da ciência, sustentabilidade e da Embrapa na adaptação de soluções aos trópicos. Foram mencionados avanços como a eficiência da produção de carne de frango via integração com pequenas propriedades, o melhoramento do girolando, ganhos de qualidade em feijões e pulses, além de tecnologias de baixa emissão de carbono, conservação do solo, bioinsumos e projetos como o Caminho Verde Brasil. Fávaro também enfatizou a importância da reciprocidade comercial, apontando que o agro brasileiro abriu 538 mercados nos últimos anos, e destacou oportunidades de cooperação em inovação, biológicos e agricultura regenerativa, com interesse de investidores indianos em tecnologia, IA e bioinsumos. Em 2025, a Índia foi o quinto maior parceiro comercial do Brasil, com US$ 15,2 bilhões em comércio, reforçando o compromisso com previsibilidade regulatória e ambiente seguro para investimentos.

As grandes redes de varejo do Reino Unido e Europa enviaram uma carta às principais tradings agrícolas exigindo um posicionamento sobre a saída da Moratória da Soja. Eles determinaram que as empresas têm até 16 de fevereiro para responderem sobre a adesão individual à moratória, o cumprimento dos compromissos climáticos e os controles de compra anti-desmatamento. A retirada da Abiove do pacto ocorre no contexto da Lei nº 12.709/2024, de Mato Grosso, que condiciona incentivos ao cumprimento estrito da legislação ambiental nacional. As tradings agora serão avaliadas individualmente por seus clientes europeus, que mantêm a restrição à soja proveniente de desmatamento na Amazônia. A saída foi encarada positivamente por produtores e autoridades de Mato Grosso, mas gera alertas de ambientalistas sobre riscos para o agronegócio brasileiro.

Em janeiro, o algodão teve uma alta moderada em Nova York, mas em fevereiro enfrentou queda de preços devido a estoques elevados e demanda internacional fraca. No Brasil, os preços internos também recuaram em razão do excesso de oferta. O caroço de algodão, influenciado pela safra abundante e concorrência com a soja, também registrou queda no início de 2026. Internacionalmente, a produção chinesa aumentada pressiona os preços. Em Mato Grosso, a redução na área plantada indica menor produção para 2026. Perspectivas para o segundo semestre de 2026 apontam para uma recuperação gradual nos preços do algodão. No milho, a colheita avança lentamente no sul do Brasil devido ao clima instável e pouca liquidez no mercado. A estabilidade persiste nos mercados futuros de Chicago e B3, apoiada por exportações e demandas por biocombustíveis. Analistas esperam manutenção da estabilidade nos preços do milho a curto prazo.

O governo atualizou os percentuais de bônus do Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar (PGPAF) para fevereiro, ampliando os descontos no Pronaf para produtores familiares. Os ajustes visam proteger a renda dos agricultores frente às discrepâncias entre os preços de mercado e os valores de garantia. Destaques incluem a manga no Rio de Janeiro e São Paulo, batata no Paraná e cebola no Rio Grande do Sul. Mudanças na lista de produtos beneficiados incluem a adição do milho na Bahia e a exclusão de produtos como tomate e abacaxi. No Sul do Brasil, a colheita de milho continua com baixo ritmo de negociações devido ao clima instável. Na Bolsa de Chicago, o mercado de milho permanece estável, sustentado pela demanda global e aumento nas exportações dos EUA. Na B3, os preços futuros encerram estáveis, refletindo a baixa liquidez e as negociações internas lentas. As perspectivas indicam estabilidade nos preços a curto prazo, com atenção ao impacto da nova safra e exportações.

A colheita de milho no Sul do Brasil está avançando com ritmo desigual, impactada por negociações limitadas e chuvas instáveis. No Rio Grande do Sul, o preço médio recuou 2,24%, com a colheita atingindo 49% da área. Em Santa Catarina, há impasse entre produtores e indústrias, enquanto a colheita está em 16% da área. No Paraná, o clima favorece o avanço da colheita, já em 18% da área, mas o mercado permanece pouco fluido. O Mato Grosso do Sul vê cotações entre R$ 53,00 e R$ 55,00 e semeadura lenta da safrinha. Internacionalmente, o mercado de milho demonstra estabilidade, sustentado pela demanda energética e exportações dos EUA, mas enfrenta incertezas como a votação sobre a venda de E-15. No mercado interno, a B3 reflete lentidão nas negociações, com produtores sem pressa para vender. Analistas preveem estabilidade de preços no curto prazo.