
Operação Boi Fantasma: Lavagem de Dinheiro com Gado de Papel e GTAs Fictícias na Fronteira Oeste, Investigação da GAECO
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por meio do 9º Núcleo Regional — Campanha — do GAECO, investiga uma organização criminosa da Fronteira Oeste que utilizava “bovinos de papel” para lavagem de dinheiro. A Operação Boi Fantasma, deflagrada em 9 de junho, desarticulou o esquema que movimentava mais de R$ 100 milhões, envolvendo a emissão de Guias de Trânsito Animal (GTAs) fictícias para camuflar valores ilícitos vinculados ao tráfico de drogas. Cerca de....
Operação no RS identifica “bovinos de papel” usados para lavar dinheiro do tráfico e movimentação acima de R$ 100 milhões
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por meio do 9º Núcleo Regional — Campanha — do GAECO, identificou a movimentação de cerca de mil “bovinos de papel” em pouco mais de dois anos, em um esquema investigado como lavagem de dinheiro vinculada ao tráfico de drogas na Fronteira Oeste.
A apuração ganhou força com a Operação Boi Fantasma, deflagrada na terça-feira, 9 de junho, que teve como foco a simulação de compra e venda de gado e a emissão de documentos para dar aparência de legalidade a recursos ilícitos. Segundo os investigadores, parte das transferências teria ocorrido apenas no papel, sem que os animais saíssem do local.
Como funcionava o esquema do “gado de papel”
De acordo com o MPRS, os investigados utilizavam duas propriedades rurais arrendadas em Alegrete para registrar movimentações fictícias nas fichas de produtor rural. O mecanismo se baseava em Guias de Trânsito Animal (GTAs) sem correspondência com deslocamentos reais, criando um histórico documental que sustentaria, perante o sistema de controle, a entrada e saída de animais.
Na prática, a investigação aponta que pelo menos mil cabeças teriam sido “transferidas” entre propriedades apenas nos registros. O objetivo seria justificar depósitos e transações bancárias com origem criminosa, fazendo-os parecer receitas típicas da atividade pecuária.
Em destaque: as autoridades apontam que a pecuária teria sido usada como “camuflagem” contábil para ocultar recursos do tráfico, por meio de registros documentais incompatíveis com a capacidade das áreas investigadas.
Inconsistências apontadas em registros de entrada e saída
O caso inclui divergências entre o que foi declarado e o que efetivamente existia nas propriedades. Conforme levantamento com base em dados da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI/RS), foram verificadas inconsistências em registros de:
Entrada: 2.535 animais
Saída: 2.657 animais
Durante vistorias, também foram relatadas divergências envolvendo bovinos e ovinos declarados nos documentos, mas não localizados nas áreas fiscalizadas — um indício relevante para a suspeita de que parte do rebanho existia apenas nos sistemas de registro.
Resumo dos principais números investigados
Indicador Apuração inicial “Bovinos de papel” Cerca de mil em pouco mais de dois anos Registros de entrada 2.535 animais Registros de saída 2.657 animais Movimentação sob suspeita Superior a R$ 100 milhões Período apontado Esquema ativo desde 2023
Investigação cita possível ligação com outras frentes de lavagem
Além das irregularidades no trânsito e na declaração de animais, a investigação aponta movimentação superior a R$ 100 milhões em atividades ilícitas. Entre os elementos citados está a suspeita de lavagem de capitais associada a casa de apostas, conforme o levantamento utilizado pelos investigadores.
O MPRS sustenta que os registros de movimentação e a estrutura operacional observada seriam incompatíveis com a capacidade das propriedades envolvidas. Esse tipo de discrepância é considerado um sinal de alerta em auditorias e fiscalizações, especialmente quando a documentação sugere um volume de transações acima do padrão esperado para a área arrendada e para a logística local.
GAECO diz que apuração segue para mensurar alcance e mapear a estrutura criminosa
Segundo o coordenador estadual do GAECO, o promotor de Justiça Rogério Meirelles Caldas, o trabalho continua com foco em dimensionar o total do “gado de papel” e entender como a organização se estruturava. A suspeita é de que o grupo fosse formado por ao menos nove núcleos, com atuações complementares para dar sustentação ao esquema.
Conforme informado pelo Ministério Público, os investigadores avançam na análise de dados e materiais apreendidos na operação, além de realizar a reconstituição contábil das transações. A expectativa é consolidar as provas para posterior oferecimento de denúncia à Justiça. A apuração também deve ser ampliada para identificar outros produtores que possam ter adotado o mesmo método.
Ponto-chave da investigação: registros de movimentação de animais e uso de GTAs sem deslocamento real teriam sido usados para ocultar a origem de recursos e justificar entradas financeiras com aparência de atividade rural regular.
Operação Boi Fantasma: onde houve cumprimento de ordens e o que foi apreendido
A Operação Boi Fantasma cumpriu ordens em diferentes municípios do Rio Grande do Sul, além de ações em Santa Catarina e em unidades prisionais. As diligências ocorreram em:
RS: Alegrete, Quaraí, Pelotas, Capão do Leão, Itaqui, Canoas e São Leopoldo
SC: Palhoça e Joinville
Presídios: São Gabriel, Uruguaiana e Cachoeira do Sul
Ao todo, houve nove prisões — sendo oito preventivas e uma em flagrante. Também foram apreendidos itens que, segundo as autoridades, serão analisados para aprofundar a apuração e cruzar informações financeiras e operacionais do grupo.
Materiais apreendidos
46 celulares
Oito notebooks
R$ 36,9 mil em espécie
Duas armas
Dois veículos
Drogas
O Ministério Público informou que o material recolhido será examinado para subsidiar novas etapas da investigação, incluindo a análise de comunicações, registros e possíveis vínculos entre os envolvidos e o fluxo de dinheiro apontado como irregular.
Contexto: casos de fraude documental envolvendo trânsito animal e registros rurais podem ter impactos indiretos em cadeias produtivas, fiscalização sanitária e controle de movimentação, além do foco central em crimes financeiros investigados neste caso.
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