
A Fundação Bunge está ampliando sua atuação em prevenção a incêndios florestais, restauração ecológica e agricultura regenerativa, com investimento anual de R$ 15 milhões em recursos próprios e novas parcerias com o poder público. A estratégia, segundo a instituição, combina tecnologia, políticas públicas e integração produtiva para aumentar a capacidade de resposta a eventos extremos e fortalecer a sustentabilidade de sistemas agrícolas.
Em entrevista, a presidente da Fundação, Cláudia Buzzette Calais, detalhou as frentes de atuação e defendeu que a agenda ambiental deixou de ser apenas reputacional e se tornou uma necessidade econômica, diante do avanço do estresse hídrico e térmico e do impacto direto sobre produtividade e custos no campo.
Uma das iniciativas centrais é a parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para capacitação de brigadistas indígenas e doação de equipamentos. O acordo prevê treinamento para uso de drones, tanto em ações de combate direto ao fogo quanto em monitoramento preventivo, incluindo operações de queima prescrita.
Além da formação, a Fundação também realiza a doação dos equipamentos às brigadas, ampliando a autonomia e o alcance das equipes em áreas remotas. Segundo a instituição, o objetivo é acelerar a detecção e reduzir o tempo de resposta em momentos críticos, quando as condições climáticas favorecem a rápida propagação das chamas.
Outro eixo do apoio ao Ibama é o financiamento para estruturar sete salas de situação móveis, projetadas para permitir operação remota em áreas críticas. Três unidades já foram entregues. Os módulos incluem telões, computadores de alta performance, impressoras e plotters, facilitando planejamento, coordenação e tomada de decisão diretamente no território.
A proposta é descentralizar a capacidade de resposta, reduzindo a dependência de infraestrutura em sedes distantes. A Fundação avalia que esse formato é especialmente relevante em cenários de grandes emergências ambientais, quando a logística e a comunicação precisam funcionar em tempo real para direcionar equipes e recursos.
Integração em campo: as salas móveis funcionam como centros avançados de comando, permitindo que equipes operem com estrutura completa mesmo longe de bases fixas.
De acordo com a Fundação, os recursos do acordo com o Ibama são integralmente financiados pela instituição, enquanto o órgão ambiental contribui com conhecimento técnico e execução dos treinamentos.
Questionada sobre a priorização de brigadas indígenas, a presidente argumenta que terras indígenas concentram parte expressiva das áreas preservadas do país e, historicamente, recebem menos investimentos em tecnologia e estrutura operacional. Para ela, fortalecer essas brigadas é uma medida estratégica para proteção de biodiversidade e estabilidade climática.
Segundo a dirigente, a iniciativa não exclui grandes produtores. A expansão do projeto prevê parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para apoiar a implementação dos Planos de Manejo Integrado do Fogo, que passam a ser uma exigência legal. A intenção é que grandes produtores, agricultores familiares e povos indígenas atuem de forma coordenada dentro de um mesmo território.
Grandes produtores: podem aportar recursos como caminhões-pipa e, em alguns casos, aeronaves.
Pequenos agricultores: contribuem com mão de obra local e capilaridade no território.
Povos indígenas: agregam conhecimento detalhado da área e atuação direta em regiões preservadas.
A Fundação defende que, com protocolos integrados, cada elo sabe como agir quando há risco de incêndio ou ocorrência confirmada, reduzindo conflitos e melhorando a eficiência do combate.
Na frente de restauração ecológica, a Fundação participa do edital do Floresta Viva, iniciativa do BNDES com aporte total de R$ 10 milhões, dividido entre o banco e a iniciativa privada. Dentro desse arranjo, a Fundação aporta R$ 4 milhões, e a empresa parceira Agrícola Alvorada contribui com R$ 1 milhão.
A meta do projeto é restaurar até 500 hectares em terras indígenas nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. A presidente descreve o modelo como restauração “ecológica”, que combina recomposição com espécies nativas e um planejamento produtivo voltado à viabilidade de longo prazo.
Segundo a Fundação, restaurar em escala é caro, e por isso o desenho do projeto inclui elementos de segurança alimentar e geração de renda para comunidades locais. Em uma experiência anterior no Mato Grosso, foram restaurados 100 hectares com adensamento de espécies como baru e pequi, importantes na alimentação regional e com potencial de comercialização.
O modelo também prevê sistemas integrados, combinando floresta e culturas como mandioca e abóbora, ampliando diversidade produtiva e resiliência do uso do solo.
As sementes usadas nos projetos vêm de terras indígenas e utilizam a técnica conhecida como “muvuca”, que mistura sementes de diferentes espécies para estimular a regeneração. Além do ganho ambiental, o fornecimento de sementes pode gerar renda para comunidades tradicionais, criando um circuito econômico associado à restauração.
A Fundação conecta suas ações ao conceito de agricultura regenerativa, já incorporado como política corporativa pela Bunge. Entre os exemplos citados está a polinização assistida, com introdução de colmeias em grandes propriedades.
De acordo com dados apresentados pela instituição, projetos acompanhados registram aumento médio de 13% na produtividade com a adoção de colmeias, podendo chegar a 30% em culturas como o gergelim. A estratégia inclui a participação de agricultores familiares no manejo das colmeias, o que permite renda adicional por meio da produção de mel.
Frente Como funciona Benefício esperado Prevenção a incêndios Treinamento, drones, equipamentos e salas móveis Resposta mais rápida e prevenção territorial Restauração ecológica Espécies nativas + integração produtiva Biodiversidade, renda e segurança alimentar Agricultura regenerativa Polinização assistida, bioinsumos e corredores verdes Produtividade e resiliência climática
A presidente também apontou a necessidade de adaptação a estresse hídrico e térmico, que eleva custos e pressiona a produtividade. Entre soluções discutidas com produtores estão corredores verdes para formação de microclima e maior uso de bioinsumos.
“Cada vez está mais caro produzir. Se o solo e o clima estão desequilibrados, você compensa com mais insumo químico. O biológico passa a ser estratégico”, afirmou a dirigente ao defender a adoção de alternativas para reduzir dependência de insumos e ampliar a saúde do solo.
Ao tratar do retorno financeiro direto para a empresa mantenedora, a Fundação afirmou que não há mensuração específica, pois o investimento responde a uma lógica sistêmica. A avaliação é que a estabilidade do clima e a preservação de áreas ao Norte do país têm relação com a produtividade em regiões agrícolas estratégicas.
Na visão da instituição, a pauta ambiental passou a integrar decisões econômicas porque sem biodiversidade não há produção. A Fundação destaca a relevância dos polinizadores e afirma que uma parcela significativa de alimentos básicos da cadeia depende de polinização, reforçando a necessidade de ações que protejam ecossistemas e garantam serviços ambientais essenciais.
Destaque: a Fundação Bunge aposta em tecnologia (como drones), coordenação territorial e modelos produtivos regenerativos para reduzir riscos de incêndios, restaurar áreas degradadas e sustentar produtividade agrícola em um cenário de mudanças climáticas.
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