
Entre avanço tecnológico e crédito caro, o agro entra em um novo ciclo
A entrevista mostra que o mercado de máquinas agrícolas vive um ciclo de ajuste após anos de forte crescimento, impactado por juros altos, crédito restrito e maior cautela do produtor. Apesar disso, a tecnologia segue avançando rapidamente, transformando o campo com automação e gestão baseada em dados. O principal desafio, porém, não é tecnológico, mas estrutural: custo de capital elevado, infraestrutura deficiente e falta de previsibilidade, o que exige do Brasil uma visão de longo prazo para sustentar a competitividade do setor.
O trator ficou mais inteligente. O crédito ficou mais caro. E o produtor ficou mais cauteloso. Essa combinação define o momento atual do mercado de máquinas agrícolas no Brasil. Após um período de forte expansão impulsionado pela alta das commodities, o setor entra em uma fase de ajuste marcada por juros elevados, restrição ao financiamento e incertezas no cenário econômico.
Enquanto isso, a tecnologia avança em ritmo acelerado, transformando equipamentos em sistemas cada vez mais conectados, automatizados e exigentes em gestão. É nesse ponto de tensão, entre inovação e limites estruturais, que se posiciona Pedro Estevão Bastos de Oliveira, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq. Com quase cinco décadas de experiência no setor, ele resume o momento com a clareza de quem já viu esse ciclo se repetir diversas vezes.
“Sempre foi assim: quando as commodities sobem, o produtor compra máquina. Quando cai, ele segura investimento.”
Na sua análise, qual é o momento do setor de máquinas agrícolas do País?
O que estamos vivendo é um movimento típico de ajuste, não uma crise estrutural. O setor teve anos muito fortes recentemente, especialmente em 2021 e 2022, quando os preços das commodities estavam elevados e o produtor teve uma rentabilidade maior. Isso gerou um volume expressivo de compra de máquinas.
Quando o preço das commodities começa a cair, como estamos vendo agora, o produtor naturalmente reduz o ritmo de investimento. Isso não é novo — é uma característica histórica do setor. Em cada oito ou dez anos o setor passa por um período de ajuste. O que muda são os fatores que provocam esse movimento, como preço, clima, crédito, cenário internacional, mas o comportamento é recorrente.
Qual é o peso do crédito nesse mercado?
O crédito é absolutamente central. No Brasil, diferentemente de outros países, o produtor não compra máquina à vista — ele compra financiado. Isso significa que o volume de vendas está diretamente ligado à disponibilidade de crédito e às condições desse crédito.
Nós temos programas importantes, como o Plano Safra, que contém linhas como Moderfrota, Pronamp e Pronaf, que viabilizam esse acesso. Mas, quando o custo do dinheiro sobe ou quando os bancos ficam mais restritivos, o impacto no mercado é imediato. Hoje, aproximadamente metade das vendas de máquinas agrícolas depende diretamente de financiamento. Então qualquer mudança nesse cenário tem efeito direto na indústria.
A troca pode ser uma solução?
Sim, especialmente em momentos como o atual, de crédito mais restrito. Ela ajuda a viabilizar a compra de máquinas novas mantendo o mercado ativo, porque o usado passa a ter valor estratégico na negociação.
Como o custo do capital afeta o setor?
O custo do capital no Brasil é um dos maiores entraves ao desenvolvimento do setor e da indústria como um todo. Quando você compara com economias mais desenvolvidas, a diferença é muito grande. Em países da Europa ou nos Estados Unidos, o custo do dinheiro é baixo, o que permite planejamento de longo prazo. No Brasil, o custo é elevado e instável. Isso reduz a capacidade de investimento do produtor e também limita a modernização da indústria.
Aqui existe um ponto importante: produtividade não depende apenas da pessoa, depende do ambiente ao redor dela.
“O problema não é o trabalhador brasileiro. O problema são as máquinas antigas ao redor dele.”
Ou seja, sem investimento em tecnologia e modernização, você trava a produtividade. E sem crédito acessível, esse investimento não acontece no ritmo necessário.
O setor pode se recuperar rapidamente ou o cenário ainda é de cautela?
O comportamento do setor vai continuar muito ligado ao preço das commodities e ao câmbio. Se houver uma recuperação nos preços agrícolas, o investimento tende a voltar. Mas, no curto prazo, o cenário ainda é de cautela. O produtor está mais conservador, e isso é natural diante do ambiente de incerteza.
A tecnologia continua avançando mesmo com o mercado retraído?
Continua, e talvez esse seja um dos pontos mais interessantes do setor. A evolução tecnológica não acompanha o ciclo do mercado. Ela segue avançando independentemente do momento econômico.
A parte mecânica das máquinas mudou pouco ao longo dos anos. O grande salto está na tecnologia embarcada.
“A parte de ferro da máquina mudou um pouco. O que evoluiu muito rápido é a tecnologia embarcada.”
Hoje você tem máquinas que coletam dados em tempo real, analisam a operação, monitoram o ambiente e ajustam automaticamente seus parâmetros. Isso transforma completamente a lógica da operação agrícola. A máquina deixa de ser apenas um equipamento e passa a ser uma plataforma de informação.
Esse avanço tecnológico tem sido acompanhado pela mão de obra?
Esse é um dos principais desafios do setor hoje. Nós temos uma escassez generalizada de mão de obra no Brasil, e isso se reflete também no campo. Mas no agro existe um agravante: a tecnologia está evoluindo muito rápido.
“Hoje falta mão de obra em todo lugar: na indústria, na cidade e no campo.”
O que temos observado é que os produtores que conseguem acompanhar essa evolução são aqueles que estão investindo em gestão e capacitação.
Isso muda o perfil do produtor rural?
Mudou completamente. A agricultura deixou de ser apenas uma atividade produtiva e se tornou um negócio complexo. Hoje você precisa ter gestão profissional.
“A agricultura virou agronegócio. Quem não profissionalizar a gestão vai ficar para trás.”
Isso envolve gestão de pessoas, tecnologia, finanças, operação. O produtor precisa tomar decisões baseadas em dados, não apenas em experiência.
A automação surge como solução para esse cenário?
Sem dúvida, é um caminho natural. A tecnologia já permite isso. As máquinas já estão praticamente preparadas para operar de forma autônoma. O que estamos vendo agora é a evolução dessa aplicação no campo.
“As máquinas já estão praticamente preparadas para operar de forma autônoma.”
A automação ajuda a reduzir a dependência de mão de obra e aumenta a eficiência das operações.
Como o senhor vê a entrada de máquinas chinesas no Brasil?
Ela existe, mas ainda é limitada. Máquina agrícola é um produto complexo. Não basta vender o equipamento — é preciso ter estrutura de suporte, assistência técnica, peças, atendimento.
“O produtor não compra só a máquina. Ele compra disponibilidade.”
Sem isso, fica muito difícil ganhar participação relevante, especialmente em equipamentos de maior valor.
Em um cenário de digitalização, as feiras ainda são relevantes?
Muito. A Agrishow continua sendo uma das principais vitrines do setor. É onde o produtor vê tecnologia, compara soluções e toma decisões.
“Se você quer entender o que está acontecendo no agro, precisa ir à Agrishow.”
Mesmo com o avanço do digital, o contato presencial ainda é fundamental nesse mercado.
Qual é hoje o maior desafio do setor de máquinas agrícolas no Brasil?
O maior desafio do setor hoje não é tecnológico, é estrutural. A indústria brasileira já demonstrou, ao longo dos anos, que tem capacidade de desenvolver tecnologia de ponta, adaptada à agricultura tropical, e competir em nível internacional. O problema é o ambiente em que essa indústria está inserida.
Nós temos um custo de capital muito elevado, infraestrutura ainda deficiente, problemas logísticos relevantes e uma insegurança jurídica que dificulta investimentos de longo prazo. Quando você compara o Brasil com países da OCDE, produzir aqui pode ser cerca de 25% mais caro. Em relação à China, essa diferença pode chegar a 40%. Isso afeta diretamente a competitividade.
Não é que o produto brasileiro seja inferior — muitas vezes ele é até superior tecnicamente —, mas ele chega ao mercado com um custo maior.
“O problema não é o trabalhador brasileiro. O problema são as máquinas antigas ao redor dele.”
Ou seja, não é uma questão de capacidade humana, mas de ambiente produtivo. Falta investimento em modernização, e isso está diretamente ligado ao custo do dinheiro e à falta de previsibilidade.
Além disso, a indústria trabalha com ciclos de investimento muito longos. Quando uma empresa decide ampliar uma fábrica ou desenvolver uma nova tecnologia, ela está olhando para um horizonte de 10, 15 ou até 20 anos. E no Brasil, esse tipo de planejamento é dificultado por mudanças frequentes nas regras e nas políticas.
Por isso, mais do que medidas pontuais, o setor precisa de estabilidade e visão de longo prazo.
“O Brasil precisa de plano de país, não de plano de governo.”
Sem isso, o risco não é parar — é crescer abaixo do potencial que o país claramente tem.
O que precisa mudar para o Brasil avançar?
Nós precisamos de visão de longo prazo. A indústria trabalha com ciclos de investimento muito longos. Só que o país ainda funciona com lógica de curto prazo.
Sem estabilidade e previsibilidade, fica difícil avançar em competitividade.




