
Celebrado em 25 de fevereiro, o Dia do Agronegócio chega em um momento em que o Brasil reforça a agricultura tropical como um ativo estratégico para o futuro, combinando inovação tecnológica no campo, aumento de produtividade e avanço de práticas que buscam reduzir impactos ambientais. A mensagem central defendida por representantes do setor é que o modelo brasileiro pode contribuir para mitigar a crise climática, apoiar a transição energética e ampliar a segurança alimentar global, desde que esteja acompanhado de mecanismos robustos de controle e métricas adequadas.
Destaque: O setor aponta que produzir mais sem ampliar proporcionalmente a área é uma das chaves para manter a competitividade, reduzir pressão sobre florestas e atender exigências de comércio sustentável.
Em debates recentes sobre clima, a avaliação é que o Brasil tem uma particularidade relevante: enquanto em muitas economias desenvolvidas as emissões se concentram sobretudo em energia e transporte, no caso brasileiro o perfil é mais associado ao uso da terra. Dentro desse contexto, a agropecuária tem buscado demonstrar que práticas sustentáveis podem elevar a eficiência e, ao mesmo tempo, atuar como sumidouros de carbono.
Fernando Sampaio, integrante do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, avalia que consolidar uma agenda agroambiental é essencial para a competitividade brasileira em negociações e acordos comerciais. Na visão do setor, liderar esse debate ajuda o país a se antecipar a exigências globais relacionadas a comércio sustentável e a contestar barreiras unilaterais. Para isso, são apontados como pilares a implementação plena do Código Florestal e o combate rigoroso ao desmatamento ilegal.
Entre as soluções que vêm sendo destacadas como parte do avanço tecnológico da agricultura tropical estão:
Plantio direto, que reduz a erosão e contribui para a conservação do solo;
Fixação biológica de nitrogênio, diminuindo dependência de insumos e ampliando eficiência;
Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), para uso mais inteligente da terra;
Recuperação de áreas degradadas, ampliando produtividade sem abrir novas áreas;
Terminação intensiva de gado a pasto, buscando ganhos de desempenho e manejo;
Bioinsumos, como alternativa em diferentes sistemas produtivos.
O setor também ressalta o papel da biomassa e dos biocombustíveis na composição energética do país, contribuindo para uma matriz com parcela elevada de fontes renováveis e abrindo espaço para ampliar a economia circular com aproveitamento de resíduos.
Desafio apontado: ampliar o uso dessas práticas em escala exige, de um lado, mais produção e difusão de tecnologia e, de outro, mais investimentos chegando ao campo.
Outro ponto sensível é a forma de mensurar a contribuição da agricultura tropical para o clima. Representantes do setor defendem a necessidade de “tropicalizar” fatores de emissão e de reavaliar parâmetros internacionais. Um exemplo citado é a profundidade considerada em medições de carbono no solo: padrões internacionais muitas vezes analisam apenas camadas superficiais, enquanto em sistemas de pastagens no Brasil as raízes podem alcançar profundidades muito maiores, sugerindo um ativo ambiental potencialmente subestimado.
O Brasil passou, nas últimas décadas, por uma transformação que reposicionou a agricultura tropical no mercado global. O ambiente tropical, historicamente visto como desafiador por questões de fertilidade do solo, pragas e irregularidade climática, foi impactado por uma revolução científica e tecnológica que levou o país de importador a grande exportador de alimentos. Dados oficiais citados pelo setor indicam que o agronegócio tem participação relevante na economia e nas exportações.
As projeções de safra reforçam essa tendência. Estimativas de produção de grãos para o ciclo 2025/2026 apontam volume elevado, com soja em patamar de destaque e perspectiva de novo recorde, caso os números se confirmem. Para especialistas, esse movimento evidencia a capacidade de o país aumentar a oferta com ganhos de eficiência, reduzindo a necessidade de expansão proporcional de área cultivada.
Na avaliação apresentada por Sampaio, florestas em pé também são parte do sistema produtivo ao ajudarem a regular chuvas e contribuir para a estabilidade climática que sustenta a produtividade agrícola. Assim, a proteção ambiental é apontada como condição para a própria continuidade da produção e da segurança alimentar.
O Brasil dispõe de instrumentos voltados à consolidação de uma agropecuária de menor emissão. Entre os destaques, estão:
Plano ABC+: direcionado à agricultura de baixo carbono, com metas de expansão de sistemas sustentáveis até 2030;
Caminho Verde: voltado à recuperação de áreas degradadas em horizonte de uma década.
Para o setor, além de políticas públicas, são necessárias ações privadas para democratizar o acesso à tecnologia, especialmente para pequenos e médios produtores. Também são apontados como essenciais o enfrentamento à ilegalidade, o avanço na implementação do Código Florestal e mecanismos de remuneração por ativos ambientais em áreas privadas, como forma de fortalecer a resiliência produtiva, atrair investimentos, ampliar mercados e melhorar a imagem internacional da agricultura brasileira.
No recorte regional, a Bahia mantém posição entre os principais produtores do país. Levantamento divulgado pelo IBGE, com base no acompanhamento de janeiro, indica o estado na sétima colocação nacional na produção de grãos. Um dos destaques foi o feijão (primeira safra), com aumento expressivo e produção estimada em 116,9 mil toneladas, crescimento de 35,3% na comparação anual.
O secretário estadual da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura, Pablo Barrozo, atribui o desempenho ao trabalho de anos no campo, impulsionado por políticas públicas, infraestrutura e ações de defesa sanitária. Segundo ele, a estratégia envolve estimular novas tecnologias, enfrentar efeitos do clima, reforçar o controle sanitário e apoiar pequenos e médios produtores para ampliar a presença do estado nos mercados nacional e internacional.
Outros produtos também aparecem com perspectiva de crescimento. O milho (primeira safra) tem previsão de alta, alcançando 2,088 milhões de toneladas, enquanto o cacau registra incremento estimado em 6.297 toneladas, avanço de 5,3%. O levantamento ainda indica a Bahia como segundo maior produtor de algodão do Brasil, com participação relevante na produção nacional.
Considerando o conjunto de produtos agrícolas monitorados, a projeção é de que 15 de 26 safras tenham desempenho superior em 2026 frente a 2025, incluindo itens como café arábica, uva, mamona, laranja, batata inglesa (em diferentes safras), tomate, trigo, fumo, castanha de caju e amendoim.
Nas exportações estaduais, o segmento de frutas e preparações registrou destaque em janeiro, com vendas de US$ 11,9 milhões, alta de 35% sobre o mesmo mês do ano anterior. A análise aponta que o resultado foi influenciado por maior volume embarcado e por fatores de mercado, incluindo sazonalidade, preços e normalização tarifária aos Estados Unidos.
No Rio Grande do Sul, uma medida voltada ao crédito rural busca aliviar a pressão financeira sobre a agricultura familiar. O governo estadual publicou decreto autorizando o Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper) a restabelecer o bônus de adimplência em contratos com parcelas em atraso, desde que ainda não prescritos.
Na prática, agricultores familiares que perderam a subvenção por inadimplência poderão recuperar o benefício original e reorganizar o pagamento. O bônus funciona como um abatimento para quem mantém o contrato em dia; quando ele é perdido, o saldo devedor cresce, dificultando ainda mais a quitação.
Além disso, o decreto autoriza a prorrogação de parcelas vencidas. Em contratos já expirados, o prazo poderá ser ampliado em anos equivalentes à quantidade de parcelas em atraso. A primeira prestação renegociada passa a vencer em dezembro de 2026, com as demais seguindo o cronograma anual.
A medida alcança contratos ativos e vencidos, inclusive aqueles em cobrança judicial. Nesses casos, a adesão exige renúncia formal a defesas ou recursos no processo. O Conselho de Administração do Feaper terá prazo para regulamentar procedimentos, incluindo prazos, formalidades e canais de adesão, com orientação de ampla divulgação.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim, a iniciativa busca oferecer nova oportunidade para regularização e retomada do benefício, preservando investimentos e mantendo o crédito como ferramenta de desenvolvimento e permanência no campo. O Feaper é executado por órgãos estaduais em parceria com entidades de assistência técnica e instituição financeira, apoiando projetos de investimento e custeio em diferentes cadeias produtivas.
Tema O que muda / o que está em foco Agro e clima Pressão por métricas adequadas, expansão de práticas sustentáveis e combate ao desmatamento ilegal. Tecnologia no campo Plantio direto, ILPF, recuperação de áreas degradadas e bioinsumos como base de eficiência e menor impacto. Bahia Alta do feijão, avanço do milho e do cacau, e exportações de frutas em crescimento. Rio Grande do Sul Feaper retoma bônus de adimplência e permite alongamento de dívidas para agricultura familiar.
Em comum, as iniciativas e resultados apresentados no Dia do Agronegócio reforçam uma agenda em que produtividade, tecnologia e políticas públicas são colocadas como condições para sustentar o crescimento do setor, ampliar competitividade e responder às demandas de sustentabilidade e saúde ambiental que ganham espaço no debate global.

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