
A avaliação é reforçada pelo relatório Visão Agro 2026, do Itaú BBA, que aponta um cenário de custos ainda elevados, juros em patamares restritivos, maior seletividade no crédito rural e preços menos estimulantes para parte das commodities agrícolas. Mesmo com expectativa de uma nova safra robusta de soja - estimada entre 182 milhões e 186 milhões de toneladas, mantendo o Brasil na liderança global da produção -, o estudo mostra que o produtor deverá conduzir o próximo ciclo com maior disciplina financeira e atenção redobrada à gestão dos riscos. O cenário é influenciado também pelo comportamento do mercado internacional. Segundo o relatório, a produção mundial de soja deverá atingir aproximadamente 441 milhões de toneladas na safra 2026/27.
Para a CEO da Vitalforce, Sheilla Albuquerque, esse ambiente representa uma mudança importante na forma como o produtor precisará conduzir sua propriedade. "A agricultura brasileira sempre demonstrou enorme capacidade de adaptação, mas o momento atual exige uma mudança de foco. Em um ambiente de custos elevados e margens mais estreitas, preservar o potencial produtivo passa a ter impacto econômico tão importante quanto buscar ganhos adicionais de produtividade. A eficiência deixa de ser somente um diferencial competitivo e passa a ser uma condição para manter a rentabilidade”, disse.
Essa mudança de comportamento já começa a ser percebida dentro das fazendas. No lugar de ampliar investimentos indiscriminadamente, muitos produtores passaram a concentrar esforços em estratégias capazes de aumentar o retorno dos recursos já empregados na lavoura.
Essa busca por eficiência também está relacionada ao ambiente macroeconômico. O Itaú BBA projeta crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2,1% em 2026 e 1,7% em 2027, mantendo a avaliação de que os juros permanecerão elevados por mais tempo. O cenário aumenta o custo do capital, pressiona o financiamento da atividade agrícola e torna ainda mais relevante a gestão financeira das propriedades.
Na avaliação de Sheilla, essa combinação faz com que o produtor passe a olhar de forma diferente para cada decisão tomada ao longo da safra.
O clima continua sendo a principal variável
Se a economia exige maior eficiência, o clima aumenta a necessidade de planejamento. O El Niño é um dos principais fatores de risco para diferentes cadeias produtivas durante a safra 2026/27. Na soja, por exemplo, o fenômeno pode alterar significativamente o comportamento da produção entre as diferentes regiões do país. No milho, permanece como um fator relevante para o desempenho da próxima temporada.
Segundo o coordenador de Excelência Técnica da Vitalforce, Felipe Crepaldi, compreender essas diferenças regionais será fundamental para reduzir riscos. "Existe uma tendência de tratar o El Niño como um único evento, mas seus efeitos são completamente diferentes entre as regiões produtoras. Enquanto as regiões Norte e Nordeste, e parte do Centro-Oeste e Sudeste, deverão enfrentar temperaturas mais elevadas, menor disponibilidade hídrica e maior pressão de pragas, o Sul tende a conviver com excesso de umidade e maior incidência de doenças. O manejo precisa acompanhar essa realidade."
Uma mesma safra, desafios completamente diferentes entre as regiões
Embora o El Niño seja um fenômeno climático de escala global, seus impactos sobre a agricultura brasileira estão longe de ser homogêneos. O comportamento esperado para a safra 2026/27 reforça justamente essa necessidade de regionalizar as estratégias de manejo.
No Centro-Oeste e em parte do Sudeste, regiões responsáveis por grande parcela da produção nacional de soja e milho, a expectativa é de temperaturas acima da média e períodos de irregularidade na distribuição das chuvas. A combinação desses fatores tende a aumentar o estresse fisiológico das plantas e ampliar a pressão de pragas adaptadas a ambientes mais quentes e secos.
Já na região Sul, o cenário deverá ser marcado pelo excesso de precipitações. Embora a maior disponibilidade de água possa parecer positiva em um primeiro momento, solos encharcados comprometem a oxigenação das raízes, reduzem a absorção de nutrientes e criam condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças, principalmente as associadas ao sistema radicular e à parte aérea das plantas.
"O produtor brasileiro precisará conviver com dois cenários completamente diferentes dentro do mesmo país. Em algumas regiões, o desafio será conservar água e manter o metabolismo das plantas ativo durante períodos de estresse. Em outras, será preservar a sanidade das lavouras diante do excesso de umidade. Isso reforça que não existe uma receita única de manejo", afirma Crepaldi. Segundo ele, compreender essas diferenças regionais será determinante para reduzir perdas e aproveitar melhor o potencial produtivo de cada ambiente.
Quando se fala em estiagem ou excesso de chuvas, a tendência é relacionar imediatamente o problema à falta ou ao excesso de água disponível. Na prática, porém, os efeitos sobre a produtividade começam muito antes de a planta apresentar sintomas visíveis.
No caso do déficit hídrico, o primeiro impacto ocorre no sistema radicular. Com menor disponibilidade de água no perfil do solo, a absorção de nutrientes torna-se menos eficiente, reduzindo a atividade metabólica da planta. Como mecanismo de sobrevivência, ocorre o fechamento parcial dos estômatos, diminuindo a fotossíntese, a produção de energia e, consequentemente, o enchimento dos grãos.
Por outro lado, quando o solo permanece saturado por longos períodos, como pode ocorrer em regiões sob influência de chuvas intensas, o problema está além da água, passa a ser a ausência de oxigênio. A redução da respiração radicular compromete a absorção de nutrientes, limita o crescimento das raízes e favorece o desenvolvimento de microrganismos causadores de doenças.
"O comportamento da planta diante de um evento climático extremo é resultado das condições que ela encontrou desde o início do desenvolvimento. Um sistema radicular bem formado, um solo biologicamente equilibrado e uma planta fisiologicamente estruturada conseguem responder melhor tanto à falta quanto ao excesso de água", explica Crepaldi
Embora boa parte das atenções esteja voltada para o comportamento do clima durante o desenvolvimento das culturas, a construção da produtividade começa meses antes. A qualidade da estrutura do solo, a atividade biológica, o desenvolvimento radicular, a conservação da umidade, o equilíbrio fisiológico das plantas e o monitoramento preventivo de pragas e doenças formam um conjunto de fatores que determina a capacidade da lavoura de responder aos eventos climáticos ao longo do ciclo.
Em um cenário marcado por maior volatilidade climática e menor margem financeira, a preparação da área se consolida como uma ferramenta de gestão.
"O clima continuará sendo uma variável que nenhum produtor consegue controlar. O que está ao alcance dele é construir uma lavoura mais preparada para responder a esses desafios. Quanto mais cedo esse trabalho começa, maior é a capacidade da planta de preservar seu potencial produtivo quando o ambiente se torna adverso", conclui o gerente de Desenvolvimento de Mercado da Vitalforce.

O Instituto Agronômico (IAC), da Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, fará o 9º Workshop Viroses da Batata & Tecnologia IAC Broto/Batata-Semente. O evento será nos dias 11 e 12 de agosto, no município de Presidente Castelo Branco (PR).

A Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé realizou, no dia 29 de julho, o 8º Fórum Café e Clima, em Guaxupé (MG). O encontro reuniu especialistas para apresentar uma análise das condições meteorológicas registradas ao longo do último ciclo agrícola, seus reflexos sobre a safra 2026/2027 e as perspectivas climáticas para a produção de café em 2027, marcada pela influência de um El Niño de forte intensidade.
Toda vez que um fenômeno climático extremo ameaça o país, a discussão segue um roteiro conhecido. Especialistas projetam os efeitos sobre a produção agrícola, analistas revisam estimativas para a safra e produtores tentam calcular o tamanho do prejuízo. Desta vez não é diferente. A possibilidade cada vez maior de um Super El Niño já mobiliza o agronegócio e reacende preocupações sobre a temporada 2026/27.
Com a previsão de chegada do El Niño neste segundo semestre, o Brasil poderá enfrentar um cenário de maior instabilidade climática, marcado por fortes chuvas na região Sul e secas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Embora o fenômeno represente riscos para o agronegócio, afetando diretamente commodities como soja e milho, a agricultura tropical brasileira desenvolveu ao longo de décadas, inovações e manejos próprios para garantir a produção mesmo em condições adversas.

Passagem de frente fria e formação de ciclone trarão chuvas intensas ao Sul e Sudeste do Brasil a partir de 29 de setembro, segundo o Inmet. A previsão é de tempestades, vento, raios e granizo, com chuvas superando 100 mm em algumas áreas. Na sexta-feira, 30, o ciclone intensifica as chuvas no Sudeste, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais. No sábado, 31, chuvas persistentes seguem entre o Triângulo Mineiro e o Rio de Janeiro, com risco de volumes elevados. O ciclone pode manter a umidade alta até a próxima semana, levando a um padrão típico de verão.