
Ondas de calor prolongadas e períodos de seca já começam a pressionar a produção de arroz e óleo de palma no Sudeste Asiático, enquanto famílias da região enfrentam a escalada dos custos de combustível, alimentos e transporte, em um cenário agravado por tensões internacionais no Oriente Médio. A combinação de clima adverso e aumento de preços eleva o risco de impacto no abastecimento e na inflação de itens essenciais.
Especialistas meteorológicos internacionais indicam que o El Niño foi oficialmente caracterizado e está em intensificação, com previsão de persistir ao menos até novembro. O fenômeno é associado ao aumento da temperatura da superfície do mar em áreas do Oceano Pacífico, acima dos níveis considerados normais, o que altera a circulação atmosférica e modifica padrões de chuva em diversas partes do mundo.
De acordo com as projeções, a alteração no padrão de ventos no sentido leste-oeste pode contribuir para o acúmulo adicional de calor no Pacífico central e oriental. Para o Sudeste Asiático, isso costuma significar um período mais crítico de atraso das chuvas e redução da precipitação em determinadas áreas, aumentando a vulnerabilidade das lavouras.
No campo, o cenário exige decisões rápidas. Se as chuvas chegarem tarde ou permanecerem abaixo do esperado, produtores podem ser forçados a adiar o plantio, reduzir a área cultivada ou priorizar culturas mais resistentes à seca, em uma tentativa de conter perdas e garantir alguma previsibilidade de produção.
“A agricultura do Sudeste Asiático é particularmente vulnerável ao novo choque do El Niño. Duas commodities essenciais, o arroz e o óleo de palma, são altamente sensíveis a flutuações climáticas incomuns”, avalia o professor associado Jason Lee, presidente do Centro do Sudeste Asiático da Rede Global de Informação em Saúde.
A preocupação é maior porque se trata de commodities estratégicas tanto para o consumo interno quanto para o comércio internacional. O arroz é base alimentar de milhões de pessoas na região, enquanto o óleo de palma tem ampla utilização na indústria de alimentos e em cadeias de suprimentos globais.
Entre as culturas mais ameaçadas, o arroz aparece como a principal preocupação no curto prazo. Para Paul Teng, do Programa de Mudanças Climáticas do Sudeste Asiático do Instituto ISEAS-Yusof Ishak, o cultivo está exposto a dois fatores simultâneos: escassez de chuvas e aumento do estresse térmico, que pode comprometer produtividade e qualidade do grão.
O risco tende a variar conforme o tipo de área agrícola:
Regiões dependentes da chuva: maior probabilidade de secas localizadas e quebra de safra, especialmente se o calendário de plantio for afetado.
Regiões com irrigação: ainda que haja alguma proteção, a escassez de água pode se tornar inevitável com a queda de níveis em reservatórios e sistemas de irrigação.
Como resultado, especialistas estimam que a produção de arroz no Sudeste Asiático pode registrar uma queda de 2% a 8% em comparação à média anual, com perdas mais severas em áreas particularmente sensíveis à seca.
Indicador Projeção/Impacto Produção de arroz Possível queda entre 2% e 8% ante a média anual Principais gatilhos de perda Chuvas tardias/escassas e estresse térmico Áreas mais vulneráveis Zonas dependentes de chuva e regiões sensíveis à seca

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Além do impacto direto na colheita, um desempenho mais fraco do arroz pode elevar a pressão sobre preços regionais, com efeito em cascata sobre custos de alimentação — justamente em um contexto em que famílias já relatam dificuldades com despesas básicas.
Outra commodity no centro das preocupações é o óleo de palma, com destaque para Indonésia e Malásia, que respondem por cerca de 85% da oferta global. Embora o setor também seja sensível ao aumento de temperatura, a natureza do impacto difere do arroz.
“O óleo de palma é muito sensível ao aumento das temperaturas. No entanto, ao contrário do arroz, o impacto geralmente só se torna aparente após 6 a 12 meses, devido à diminuição na formação de cachos de frutos frescos e nas taxas de extração de óleo”, explica Paul Teng.
Esse atraso pode dificultar a gestão do risco, porque as perdas podem ser percebidas quando o mercado já está contando com determinado volume de produção. Em cadeias globais, qualquer ajuste de oferta tende a influenciar preços e disponibilidade, afetando tanto países produtores quanto importadores.
Os efeitos do El Niño não se limitam à agricultura. A intensificação da seca pode elevar o risco de incêndios florestais e queimadas em turfeiras, especialmente em “pontos críticos” como o norte da Tailândia, Sumatra e Kalimantan, na Indonésia. Esse tipo de ocorrência costuma agravar o problema da fumaça transfronteiriça, que afeta grandes centros urbanos e pode gerar impactos relevantes na saúde pública.
Entre os principais riscos associados à fumaça, especialistas costumam apontar:
Aumento de irritações respiratórias e agravamento de condições pré-existentes;
Maior procura por serviços de saúde em períodos de pior qualidade do ar;
Impactos socioeconômicos em escolas, trabalho e transportes, dependendo da intensidade do episódio.
A agência climática dos Estados Unidos confirmou a formação do El Niño no Oceano Pacífico e indicou que o evento está ganhando força. As projeções sugerem que este pode se tornar um dos episódios mais intensos desde 1950, o que reforça a necessidade de monitoramento e planejamento em setores sensíveis ao clima, especialmente agricultura e gestão hídrica.
Para os próximos meses, o cenário no Sudeste Asiático dependerá de como as chuvas se comportarão e da capacidade dos países em mitigar riscos no campo. Em uma região onde o arroz é essencial para a segurança alimentar e o óleo de palma tem peso estratégico nas exportações, o avanço do El Niño pode trazer efeitos que extrapolam as fronteiras agrícolas, pressionando preços, logística e saúde pública.
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