
O Brasil deve registrar em 2026 a maior produção de café já projetada, impulsionando expectativas de maior oferta e possível alívio nos preços no curto prazo. Ainda assim, o setor mantém cautela: o avanço do El Niño no Oceano Pacífico pode alterar o regime de chuvas e comprometer a floração e o desenvolvimento dos frutos da safra de 2027, o que tende a influenciar a disponibilidade do produto e as cotações mais à frente.
Estimativas oficiais e internacionais apontam um salto na colheita do próximo ciclo. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 66,7 milhões de sacas para a safra de 2026, um avanço de 18% em relação ao ciclo anterior e o maior volume da série histórica, superando o recorde anterior registrado em 2020. Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trabalha com uma previsão ainda mais elevada, de 71,9 milhões de sacas.
Na prática, a leitura de campo sustenta o otimismo com a produção. Em áreas tradicionais, a colheita começa a ganhar ritmo e a expectativa é de recuperação de volumes após anos mais irregulares. No Cerrado Mineiro, por exemplo, produtores e entidades locais indicam perspectiva de retorno a patamares mais altos, à medida que a colheita avança e se intensifica ao longo de junho.
Fonte Projeção de safra (2026) Leitura do mercado Conab 66,7 milhões de sacas Recorde histórico e alta expressiva no ciclo USDA 71,9 milhões de sacas Projeção mais agressiva e suporte à maior oferta
Mesmo com a perspectiva de supersafra, a cadeia do café segue em estado de atenção. O motivo é que dois fatores podem mudar rapidamente a leitura do mercado:
Estoques globais baixos: após uma sequência de safras prejudicadas em diferentes regiões produtoras, os estoques internacionais seguem reduzidos, deixando o mercado mais sensível a qualquer surpresa climática.
Risco climático com o El Niño: o fenômeno pode afetar diretamente as regiões cafeeiras brasileiras a partir do segundo semestre, com potencial de impactar a próxima etapa crítica do ciclo — a formação da safra de 2027.
Se houver condições climáticas adversas que reduzam a produção, o cenário pode se traduzir em restrição de oferta e pressão altista nos preços.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e, historicamente, está associado a mudanças importantes nos padrões de chuva. No caso do café, alterações no regime hídrico podem atrapalhar desde a floração até o enchimento e a maturação dos frutos, afetando o volume que será colhido no ciclo seguinte.
De acordo com projeções de monitoramento climático, as probabilidades de consolidação do fenômeno aumentaram, com chance elevada de ocorrência ao longo dos próximos meses e avanço para o período que coincide com fases-chave do desenvolvimento da safra futura. Além disso, há sinalização de que o episódio pode alcançar intensidade forte ou muito forte no intervalo em que os impactos tendem a ser mais relevantes para a agricultura.
Ponto central: a safra recorde de 2026 melhora a oferta agora, mas o risco para 2027 pode limitar quedas de preços e trazer volatilidade.

A colheita do café acelerou nas principais regiões produtoras no início de junho, após um ritmo mais lento até meados de maio devido às chuvas frequentes e à maturação ainda irregular dos frutos. Com a diminuição das chuvas e temperaturas mais baixas, as condições mais secas favoreceram o....

Para o consumidor, a tendência no curto prazo é de estabilidade ou leve recuo no preço do café. A expectativa de maior oferta, com a supersafra, já contribui para arrefecer o valor da matéria-prima. Com isso, a indústria ganha espaço para recompor parte dos estoques que vinham pressionados.
Entretanto, o possível efeito do El Niño não deve aparecer imediatamente nas gôndolas. Um dos motivos é que grandes marcas trabalham com contratos previamente estabelecidos, o que ajuda a amortecer oscilações de curto prazo e torna os repasses mais graduais.
Produção no campo (volume e qualidade da safra)
Estoques (nível de oferta disponível no Brasil e no mundo)
Clima (chuvas e temperaturas nas fases de floração e formação dos grãos)
Estratégia comercial e contratos (compras antecipadas e política de preços)
A definição do preço final não depende apenas do que ocorre na lavoura: custos industriais, logística, prazos de compra e planejamento de estoques também pesam na formação do valor que chega ao consumidor.
Embora o tema esteja ligado ao agronegócio, o comportamento dos preços do café tem reflexos no cotidiano. Em um cenário de maior oferta, famílias podem perceber alívio no orçamento, enquanto períodos de restrição de produção tendem a elevar o custo de um item presente na rotina alimentar de grande parte da população.
Destaque: a supersafra de 2026 pode favorecer preços mais comportados no curto prazo, mas a atenção do mercado está voltada para o clima e para a safra de 2027, quando os efeitos do El Niño podem pesar sobre a oferta.
O quadro atual combina otimismo produtivo com incerteza climática. A colheita robusta prevista para 2026 reforça o papel do Brasil como principal fornecedor global e tende a reorganizar estoques e expectativas. Ao mesmo tempo, o monitoramento do El Niño deve se intensificar, já que a evolução do fenômeno pode determinar se o mercado seguirá em relativa tranquilidade ou entrará em nova fase de aperto de oferta.
Nos próximos meses, o acompanhamento das chuvas nas regiões produtoras e das indicações climáticas será decisivo para entender se a supersafra atual será suficiente para equilibrar o mercado diante dos riscos do próximo ciclo.
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