
Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, a mosca parasitoide Trichopoda ypiranga parasitando adultos do percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus), uma das principais pragas associadas a sistemas de produção com soja e milho. O registro ocorreu em áreas agrícolas do médio-norte de Mato Grosso e reforça o potencial do inimigo natural em estratégias de manejo integrado de pragas, com foco na redução da dependência do controle químico.
O levantamento foi realizado entre outubro de 2021 e fevereiro de 2025, em 43 amostragens que abrangeram diferentes ambientes agrícolas e de vegetação espontânea. As coletas ocorreram em nove municípios da região, incluindo áreas com soja, feijão-caupi, milheto, gergelim e plantas daninhas, com o objetivo de mapear a presença de parasitoides associados ao percevejo.
Ao todo, foram coletados 7.754 adultos de D. melacanthus. Desses, 703 apresentaram sinais de parasitismo, resultando em uma taxa média de 9,06%. As taxas, contudo, variaram de forma expressiva entre as amostragens, oscilando de 1,04% a 30,83%, evidenciando que fatores como cultura, época do ano e pressão de inseticidas podem interferir na ação dos inimigos naturais.
Destaque: Os maiores índices de parasitismo foram observados entre março e maio, período associado ao avanço do ciclo agrícola e à transição entre áreas de cultivo e ambientes de refúgio.
Entre os ambientes avaliados, as maiores médias de parasitismo ocorreram em áreas de milheto (com picos de 30,8%) e gergelim (até 17%). Em maio, aproximadamente um quarto dos percevejos coletados nessas duas culturas apresentava parasitismo, sugerindo que esses sistemas podem favorecer a atividade de moscas parasitoides.
Os pesquisadores apontam que milheto e gergelim podem oferecer condições que aumentam a sobrevivência e a eficiência dos parasitoides, como alimento complementar, abrigo, microclima adequado e, principalmente, menor interferência de agroquímicos em comparação com grandes culturas anuais. Com menos pulverizações, essas áreas tendem a funcionar como reservatórios naturais, ajudando a manter populações de inimigos naturais na paisagem agrícola.
A Trichopoda ypiranga respondeu por cerca de 84% das emergências registradas a partir de D. melacanthus, consolidando-se como a espécie predominante no conjunto de amostras. Outras moscas parasitoides também foram observadas, porém com menor frequência, como Cylindromyia brasiliana, Gymnoclytia e Phasia.
Além do registro inédito de T. ypiranga parasitando o percevejo-barriga-verde, o trabalho também traz a primeira observação de Phasia associada ao parasitismo de D. melacanthus, ampliando o conhecimento sobre o complexo de inimigos naturais presentes em áreas agrícolas da região.
Primeiro registro de Trichopoda ypiranga parasitando Diceraeus melacanthus.
Taxa média de parasitismo de 9,06%, com variação ampla entre amostragens.
Picos de parasitismo entre março e maio.

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Milheto e gergelim aparecem como ambientes com maiores índices, sugerindo papel de “refúgio” para parasitoides.
Novo registro de Phasia parasitando D. melacanthus.
No médio-norte de Mato Grosso, a soja domina o verão, em geral entre setembro e fevereiro, enquanto o milho entra em sucessão entre fevereiro e junho. Essa sequência cria um ambiente propício para D. melacanthus, já que ambas as culturas funcionam como hospedeiras e sustentam a praga ao longo de diferentes fases do ano.
Após a colheita da soja, os insetos podem permanecer na área, protegidos em restos culturais ou em plantas daninhas. Na sequência, migram para lavouras de milho e passam a atacar as plântulas, elevando o risco de perdas e aumentando a pressão por aplicações de inseticidas.
Os dados também mostraram que o parasitismo varia conforme a fase da cultura. Ao longo do ciclo da soja, os valores ficaram entre 2% e 23%, considerando amostragens em áreas com plantas daninhas antes da semeadura, em fase de colheita e também após a colheita. A maior taxa foi registrada no início do desenvolvimento da soja, indicando que o momento do ano e a estrutura do ambiente influenciam a interação entre praga e parasitoide.
Apesar da presença constante de Trichopoda ypiranga, a taxa geral foi considerada moderada. Segundo o estudo, um dos fatores associados pode ser o uso intensivo de inseticidas, especialmente produtos de baixa seletividade. Esses compostos podem reduzir a densidade dos inimigos naturais, dificultar a busca por hospedeiros e até comprometer a emergência dos parasitoides.
O trabalho chama atenção para o uso frequente de acefato em culturas anuais da região. Em testes em casa de vegetação citados pelos autores, plantas de milho tratadas com diferentes concentrações do produto provocaram alta mortalidade de parasitoides em um curto intervalo de tempo, o que indica risco de impacto direto sobre agentes naturais de controle.
De forma geral, o controle químico de percevejos no Brasil envolve inseticidas de amplo espectro, como piretroides, neonicotinoides e organofosforados. Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de integrar o uso racional desses produtos com práticas de conservação de inimigos naturais no campo.
Indicador Resultado Período do estudo Outubro de 2021 a fevereiro de 2025 Número de amostragens 43 Adultos coletados de D. melacanthus 7.754 Adultos com parasitismo 703 Taxa média de parasitismo 9,06% Variação entre amostragens 1,04% a 30,83% Participação de T. ypiranga nas emergências Cerca de 84%
Para os autores, a ocorrência de Trichopoda ypiranga em diferentes culturas e ambientes indica relevância ecológica e potencial contribuição para estratégias de controle biológico do percevejo-barriga-verde. No entanto, eles ressaltam que novos estudos são necessários para aprofundar o entendimento sobre biologia, comportamento, especificidade de hospedeiros e seletividade a agroquímicos, de modo a orientar a incorporação do parasitoide em programas de manejo integrado de pragas.
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