
Empresas ajustam abates e produção diante da expectativa de queda nas compras chinesas até outubro, quando o comércio deve se reorganizar para a próxima cota.
Frigoríficos brasileiros de diferentes regiões estão reorganizando turnos, programação de abates e volumes de produção a partir de julho, diante do avanço do preenchimento da cota anual de exportação de carne bovina destinada à China. A avaliação de executivos do setor é que o limite de 1,106 milhão de toneladas estabelecido para o Brasil está perto de se esgotar, o que tende a reduzir a demanda chinesa nos próximos meses e levar companhias a adotarem medidas como férias coletivas e redução parcial de operações.
O cenário é consequência do sistema de cotas definido pela China no fim de 2025 para seus principais fornecedores, incluindo Brasil, Austrália e Estados Unidos, com o objetivo de proteger a produção local. Para o Brasil, o volume autorizado é inferior ao total exportado no ano anterior, quando o país embarcou cerca de 1,7 milhão de toneladas ao mercado chinês. Dentro do limite, as vendas estão sujeitas a tarifa de 12%; já os embarques que ultrapassam a cota enfrentam um adicional de 55%, elevando a tributação total para 67% e reduzindo significativamente a competitividade do produto.
Um ponto central para as empresas é a forma de contabilização das cotas: a China considera o que chega aos seus portos dentro do ano-calendário, e não apenas o que é embarcado no Brasil. Com isso, cargas enviadas no fim de um ano podem ser contabilizadas no ano seguinte, conforme a data de desembarque. Essa dinâmica acelera a percepção de esgotamento do limite e aumenta a cautela de frigoríficos e tradings ao planejarem novas remessas.
Dados divulgados pelo governo chinês em 23 de junho indicaram que, até maio, o Brasil já havia utilizado 65,4% de sua cota. No setor, há expectativa de que, uma vez preenchido o volume anual, importadores chineses reduzam ou interrompam compras do Brasil e retomem negociações apenas a partir de outubro, considerando que os embarques realizados nos últimos meses do ano tendem a chegar à China já no início de 2027, dentro de uma nova cota.
Entre as companhias que se preparam para reduzir operações está a Frigol, uma das maiores do setor no país. A empresa programou férias coletivas de 18 dias, a partir de 1º de julho, para quase mil funcionários da unidade de Água Azul do Norte (PA). Segundo a direção, a planta destinava cerca de 70% de sua produção ao mercado chinês. Em outras unidades, a empresa prevê reduzir abates em aproximadamente 20%, sem adotar férias coletivas adicionais.
A expectativa interna é que, mesmo após o retorno dos trabalhadores, a operação continue em ritmo inferior ao normal, com redução estimada entre 30% e 40%. A empresa avalia que parte do volume anteriormente absorvido pela China não consegue ser realocada de forma imediata, seja em outros mercados externos, seja no consumo doméstico, aumentando a pressão por ajustes temporários.
A Better Beef, que opera duas unidades de abate no estado de São Paulo, informou que vai interromper a produção na planta de Araçatuba entre 20 de julho e 10 de agosto. A estratégia é direcionar a estrutura da unidade de Rancharia — que tradicionalmente envia a maior parte do que produz à China — para abastecer o mercado interno e outros destinos, como Estados Unidos, Chile e países do Oriente Médio. Em condições normais, a planta de Araçatuba tem papel relevante no atendimento do mercado brasileiro.
Com a restrição do principal comprador, a empresa revisou expectativas e passou a trabalhar com a possibilidade de repetir o resultado do ano anterior, em vez do crescimento projetado antes do avanço do esgotamento da cota.
No Centro-Oeste, a Iguatemi Beef, de Mato Grosso do Sul, também adotará férias coletivas em julho para cerca de 650 funcionários, de um total de 850 trabalhadores na unidade do município de Iguatemi. A fábrica exporta entre 90% e 95% do que produz, sendo aproximadamente 80% com destino à China.
A companhia aponta que a redução do abate ajuda a administrar custos em um período de menor demanda externa, ao mesmo tempo em que o setor convive com preços elevados do boi. Para compensar a queda do fluxo chinês, a empresa reforçou estoques e intensificou a preparação de vendas para mercados como Estados Unidos, Oriente Médio, Reino Unido e o mercado interno, dentro de uma lógica de negociação antecipada comum ao comércio internacional de proteína animal.
Outras empresas também passaram a listar férias coletivas como alternativa para atravessar o período. A Plena Alimentos planeja a medida por 21 dias úteis para cerca de 1,5 mil funcionários em unidades de Goiás e Tocantins. Já a Astra Foods, do Paraná, aposta em ampliar o fornecimento regional, redirecionando ao mercado local parte da carne que deixará de ser exportada para a China durante os próximos meses.

A valorização da origem de produtos e serviços vem ganhando força no Brasil. Nos últimos cinco anos, o número de Indicações Geográficas (IGs) reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mais do que dobrou, passando de pouco mais de 70 certificações em 2020 para mais de 150 atualmente

Entre as maiores companhias do setor, a combinação de diversificação de destinos, portfólio de produtos e operações em diferentes países tende a suavizar o impacto do esgotamento da cota chinesa. Em linhas gerais, empresas com presença internacional conseguem reorganizar origens e destinos, atendendo a China com produção fora do Brasil e direcionando plantas brasileiras a mercados que seguem demandantes.
É o caso da Minerva Foods, que deve manter unidades no Brasil operando para atender o mercado americano, enquanto plantas localizadas em países como Argentina, Uruguai e Colômbia seguem abastecendo a China, conforme avaliação de fonte ligada à operação. Esse tipo de rearranjo torna o fluxo comercial mais flexível em momentos de restrição tarifária ou de limite de volume.
Em outra frente, a Friboi, controlada pela JBS, sinalizou que interromperia a produção de cortes específicos voltados à China a partir do dia 20, como parte da adaptação ao novo ambiente de comércio. O movimento reforça a tendência de adequação do mix de produção e do planejamento logístico para reduzir exposição ao custo adicional gerado pela tarifa acima da cota.
Destaque: quando a cota se esgota, a tarifa mais alta torna a carne brasileira menos competitiva na China, reduzindo pedidos e levando frigoríficos a ajustar abate, turnos e contratos temporariamente.
O mecanismo de cotas altera rapidamente a dinâmica de oferta e demanda ao longo do ano. Enquanto há espaço dentro do limite, exportadores e importadores operam com maior previsibilidade de custos. Com o limite próximo, no entanto, compradores tendem a recuar para evitar que a mercadoria chegue aos portos chineses já fora da cota, o que encarece o produto e pode inviabilizar contratos.
Para as plantas brasileiras altamente dependentes do mercado chinês, o efeito se traduz em ociosidade industrial. Como parte do volume não é realocada imediatamente para outros destinos, o setor recorre a ferramentas de ajuste temporário, como férias coletivas, paradas programadas e redução de escalas. Em paralelo, empresas buscam acelerar habilitações, ampliar carteira de clientes e negociar volumes para países com demanda mais constante, além de reforçar vendas no mercado interno.
Ponto-chave O que muda na prática Limite anual de volume Exportações passam a ter risco de tarifa elevada ao chegar na China Tarifa acima da cota Custo adicional reduz competitividade e desestimula compras Dependência do mercado chinês Plantas muito expostas precisam ajustar turnos, abate e estoques Redirecionamento de destinos Busca por EUA, Oriente Médio, Reino Unido, Chile e mercado interno
Férias coletivas surgem como medida para reduzir custos e atravessar a fase de menor demanda.
Paradas programadas ajudam a ajustar estoques e replanejar o mix de produção.
Diversificação é vista como estratégia estrutural para reduzir dependência de um único comprador.
A tendência, segundo projeções do setor, é de um período de menor ritmo de exportações do Brasil para a China após o preenchimento do volume anual, com retomada mais consistente a partir de outubro, quando operações passam a considerar o calendário logístico e a chegada das cargas sob a nova cota. Até lá, o mercado deve acompanhar o equilíbrio entre oferta doméstica, capacidade de absorção de outros destinos e a manutenção dos custos, especialmente em um ambiente de matéria-prima valorizada.
Enquanto frigoríficos ajustam estratégias, a cadeia da carne bovina monitora os impactos sobre emprego, renda local e funcionamento das plantas em cidades altamente dependentes da atividade industrial. O desfecho do ciclo de cotas também deverá influenciar decisões de produção e investimentos, à medida que as empresas buscam mais previsibilidade e resiliência diante de mudanças nas regras de importação do principal parceiro comercial do setor.
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Resumo: A Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira (26), um projeto de lei que amplia os produtos ofertados pelo Programa de Venda em Balcão (ProVB) para ração animal e define critérios para a execução da política de estoques públicos de alimentos. O texto autoriza a Conab a adquirir produtos básicos por até 25% acima do preço mínimo vigente e a comprar sorgo, caroço de algodão e farelos de soja e milho para manter o estoque destinado ao ProVB (tradicionalmente limitado ao milho).