
Um novo levantamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), traça um retrato atualizado do ecossistema de agtechs no país. Baseado em dados de 170 startups, o estudo mostra como a transformação digital no agronegócio vem ganhando escala, atraindo investimentos e ampliando parcerias — fatores que, na prática, contribuem para tornar a produção mais eficiente, competitiva e sustentável.
Os dados indicam que o setor ainda é enxuto e relativamente jovem, mas já apresenta sinais de amadurecimento. Aproximadamente 39,4% das agtechs têm até três anos de existência, enquanto 32,9% já ultrapassaram cinco anos de atuação. Esse recorte sugere que, ao mesmo tempo em que novas empresas continuam surgindo, uma parcela relevante já atravessou fases críticas de validação e crescimento.
Outro indicador de maturidade é a capacidade de adaptação: 51,4% das startups afirmam ter passado por pivotagem, ajustando estratégia, modelo de negócio ou foco de produto ao longo do caminho. Para Claudia Schulz, CEO da ABStartups, esse comportamento é decisivo em ambientes complexos como o agronegócio, onde as demandas variam por região, cultura agrícola, escala produtiva e nível de tecnificação.
“A capacidade de adaptação é uma característica importante desse ecossistema. Startups que conseguem pivotar com rapidez tendem a encontrar soluções mais aderentes às demandas reais do campo.”
O estudo também reforça que o acesso a capital é um motor importante para a consolidação das agtechs. Quase metade das empresas analisadas (47,6%) já recebeu algum tipo de investimento. Entre as principais fontes, destacam-se o fomento público (25,5%) e os investidores-anjo (23,6%), modalidades frequentemente associadas ao estágio inicial de inovação e ao desenvolvimento de soluções com alto potencial de aplicação no campo.
Um dos achados mais relevantes é o caráter regional dos aportes: 54,8% dos investimentos vieram do próprio estado de origem das startups. A leitura é que redes locais de financiamento, conexão e mentoria podem ser decisivas para reduzir barreiras e ampliar a capacidade de execução, especialmente fora dos grandes centros.
“O fortalecimento de redes locais de investimento é essencial para destravar o potencial das agtechs, especialmente fora dos grandes centros.”
Indicador Resultado Startups que já receberam investimento 47,6% Fomento público como fonte de recursos 25,5% Investidores-anjo como fonte de recursos 23,6% Aportes vindos do próprio estado de origem 54,8%
A distribuição geográfica mostra uma concentração expressiva no Sudeste, região que reúne 52,9% das agtechs mapeadas. Em seguida aparece o Sul, com 25,9%. Entre os estados, São Paulo lidera com 38,8% das startups do setor, enquanto Rio Grande do Sul e Minas Gerais aparecem empatados na sequência, ambos com 12,4%.
Para a liderança da ABStartups, os números refletem a força de polos já estruturados — com maior presença de universidades, centros de pesquisa, hubs e fundos —, mas também sinalizam uma janela de oportunidade para expansão em outras áreas do país, acompanhando a própria diversidade produtiva do agronegócio brasileiro.
“O agro brasileiro sempre foi altamente competitivo, mas agora vemos um avanço mais estruturado da tecnologia aplicada ao campo. A tendência é que essa inovação se espalhe cada vez mais para outras regiões, acompanhando a própria dinâmica do agronegócio.”
Sudeste: 52,9% das agtechs
Sul: 25,9% das agtechs

A valorização da origem de produtos e serviços vem ganhando força no Brasil. Nos últimos cinco anos, o número de Indicações Geográficas (IGs) reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mais do que dobrou, passando de pouco mais de 70 certificações em 2020 para mais de 150 atualmente

São Paulo: 38,8% das startups
Rio Grande do Sul: 12,4% das startups
Minas Gerais: 12,4% das startups
O levantamento destaca ainda o papel estratégico das parcerias na evolução das agtechs. Cerca de 79% das startups mantêm dois ou mais parceiros, evidenciando a importância de redes de colaboração para ganhar tração, testar tecnologias em ambientes reais e acessar conhecimento especializado.
Entre as parcerias mais frequentes, aparecem os hubs de inovação (52,9%) e as instituições acadêmicas (50%). A combinação entre ciência, tecnologia e mercado tende a fortalecer a qualidade das soluções, além de acelerar a validação de produtos voltados a desafios concretos do setor, como produtividade, rastreabilidade, gestão, redução de desperdícios e práticas mais sustentáveis.
Em foco: A presença de universidades e hubs indica uma agenda cada vez mais integrada entre P&D, empreendedorismo e aplicação no campo — um ponto crítico para transformar inovação em resultado.
Na avaliação da ABStartups, o estudo reforça uma tendência central: o futuro do agronegócio brasileiro passa pela integração entre tecnologia e produção. Com o setor mantendo relevância para a economia e ampliando sua sofisticação tecnológica, as agtechs ganham protagonismo ao oferecer ferramentas e serviços que elevam a eficiência operacional e apoiam decisões mais precisas.
Para Claudia Schulz, a inovação também contribui para uma agenda de sustentabilidade e competitividade internacional, ao otimizar o uso de recursos, melhorar processos e ampliar a capacidade de gestão em diferentes escalas produtivas.
“O agro sempre foi uma potência no Brasil, e a inovação vem potencializar ainda mais essa posição. As agtechs têm um papel central em tornar o setor mais eficiente, sustentável e competitivo globalmente.”
Em um cenário de transformação digital acelerada, o Brasil reúne condições específicas para avançar na inovação no agro, combinando escala produtiva, diversidade regional e um ecossistema de startups que dá sinais de maior maturidade. A leitura do estudo é que, com investimentos mais distribuídos e redes de colaboração fortalecidas, a tendência é que novas soluções se espalhem para além dos polos tradicionais, ampliando o alcance da tecnologia no campo.
Panorama do estudo (em síntese):
Ecossistema em evolução — com startups jovens, alta taxa de adaptação por pivotagem, crescimento do acesso a capital e forte presença de parcerias com hubs e universidades.
Sobre a ABStartups: fundada em 2011, a Associação Brasileira de Startups atua para fortalecer o ambiente de inovação no país, conectando agentes do ecossistema e fomentando oportunidades para empreendedores.
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