
O fenômeno climático El Niño, por décadas considerado um aliado de parte do agronegócio brasileiro, passou a representar um fator de maior vulnerabilidade para a produção nacional de grãos. A mudança não está apenas na intensidade do evento, mas sobretudo na nova geografia agrícola do país, que hoje concentra grande parcela da produção em regiões mais sensíveis a atrasos de chuva, calor extremo e períodos prolongados de estiagem.
Esse cenário acende um alerta com reflexos que vão além do campo: oscilações na oferta de grãos podem influenciar preços de alimentos, custos de ração animal e a estabilidade de cadeias produtivas ligadas à segurança alimentar. Especialistas indicam que o Brasil, consolidado como um dos maiores produtores globais, está mais exposto aos efeitos adversos do El Niño do que estava há duas ou três décadas.
Durante muito tempo, o El Niño foi associado a um aumento de chuvas no Sul do Brasil, reduzindo o risco de estiagens e ajudando no desempenho de culturas como soja, milho e arroz. Essa percepção, no entanto, já não descreve integralmente a realidade.
Nas últimas décadas, a expansão da agricultura se intensificou no Centro-Oeste e, mais recentemente, no MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Nessas áreas, o El Niño costuma se associar a atraso no início das chuvas, veranicos mais longos e temperaturas acima da média, combinação que pode comprometer o plantio e fases críticas do ciclo das plantas, como o enchimento de grãos.
“O impacto do El Niño hoje depende mais de onde o país produz do que apenas do quanto o fenômeno se intensifica.”
O Brasil produzia cerca de 100 milhões de toneladas de grãos no início dos anos 2000. Atualmente, a safra supera 350 milhões de toneladas. Parte significativa desse avanço ocorreu justamente em regiões que podem sofrer mais com irregularidade de chuva e calor em anos de El Niño.
Quando áreas centrais do país enfrentam restrições hídricas e temperaturas elevadas, os impactos tendem a ser maiores do que os benefícios observados em parte do Sul. Isso se torna ainda mais relevante porque estados como Mato Grosso ocupam uma posição estratégica no abastecimento global de soja e milho.
Região Tendência em anos de El Niño Risco para lavouras Sul Aumento de precipitações em diversos períodos Pode reduzir risco de estiagem em algumas culturas Centro-Oeste Atraso das chuvas, veranicos e calor acima da média Perdas no plantio e em fases críticas do desenvolvimento MATOPIBA Maior irregularidade de chuva e temperaturas elevadas Redução de produtividade e instabilidade na safra
A influência do clima não explica sozinha o resultado de uma safra, já que fatores econômicos, tecnológicos, fitossanitários e logísticos também pesam. Ainda assim, chama atenção que os episódios mais intensos de El Niño nas últimas décadas tenham coincidido com quedas expressivas na produção brasileira de grãos.
Na safra 2014/15, a colheita foi de 209,5 milhões de toneladas; sob influência do forte El Niño de 2015/16, a produção recuou para 186,6 milhões de toneladas.

O governo deve divulgar o Plano Safra 2026/27 em 1º de julho, com proposta inicial de ampliar o total de recursos para financiamentos para cerca de R$ 570 bilhões, valorizando um aumento de 10% em relação ao ciclo atual, e com corte de até dois pontos percentuais nas taxas para médios e grandes produtores. Para a agricultura familiar, o objetivo é manter as taxas e elevar o montante para R$ 82 bilhões, totalizando até R$ 652 bilhões se todos os pedidos forem atendidos, cerca de 10% acima dos R$ 594,4 bilhões do ciclo em curso. As informações foram confirmadas pelos...

Em 2023/24, após um recorde de 322,8 milhões de toneladas na safra anterior, a produção caiu para 298,4 milhões de toneladas.
A leitura predominante é que, com a produção mais concentrada em áreas centrais e de expansão agrícola recente, o país passou a registrar maior sensibilidade a variações de chuva e temperatura típicas de anos de El Niño.
Projeções recentes indicam a possibilidade de início de um novo El Niño no fim de junho, com chance de persistência até o primeiro semestre de 2027. Ainda não é possível estimar com precisão intensidade e duração, mas o histórico recente reforça a recomendação de planejamento e cautela no manejo agrícola e na gestão de riscos.
Em destaque: a agricultura brasileira pode estar mais exposta aos efeitos adversos do El Niño hoje do que estava há 20 ou 30 anos, devido à mudança do centro de gravidade da produção de grãos.
Um componente frequentemente subestimado é a competitividade internacional. Em diversos episódios de El Niño, regiões produtoras dos Estados Unidos registram condições mais favoráveis para o cultivo de soja e milho, especialmente quando há maior disponibilidade hídrica em fases decisivas do ciclo agrícola.
Em um mercado agrícola globalizado, a assimetria importa: menor colheita no Brasil combinada a boa safra nos EUA pode alterar preços internacionais, fluxos comerciais e margens de produtores. Na prática, o El Niño deixa de ser apenas um fenômeno meteorológico e passa a ser um fator estratégico para o abastecimento e para o custo de alimentos.
A tendência é que o avanço tecnológico continue sendo o principal motor de crescimento da produção brasileira no longo prazo. No curto e médio prazos, porém, a experiência recente indica que ignorar os riscos associados ao El Niño pode ser um erro, especialmente em regiões onde o calendário de chuvas define o sucesso do plantio e da formação da produtividade.
Com o Brasil ocupando papel central na oferta mundial de grãos, compreender como a nova configuração produtiva reage a eventos climáticos se torna tão importante quanto acompanhar as oscilações dos mercados.
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