Biodiesel no Brasil: soja domina a produção, enquanto milho, canola e macaúba ganham espaço
Soja domina biodiesel no Brasil; diversificação com canola, macaúba, milho, etanol e biogás cresce.

Soja lidera biodiesel no Brasil, enquanto etanol avança com milho e novas rotas como sorgo, canola e macaúba
A produção de biodiesel e etanol no Brasil entra em um novo ciclo de expansão, impulsionada pela força da soja, pela ampliação da capacidade industrial e pela consolidação de novas matérias-primas. No biodiesel, a soja segue como a base do setor, enquanto alternativas como canola, macaúba e gorduras animais ganham espaço como rotas complementares. Já no etanol, a cana-de-açúcar mantém protagonismo histórico, mas o etanol de milho cresce e amplia a presença do combustível em regiões de maior produção do cereal.
Parte relevante do óleo de soja destinado ao biodiesel abastece grupos industriais que vêm ampliando seus planos de investimento. Um dos exemplos é o Grupo Potencial, que produz cerca de 1 bilhão de litros de biodiesel por ano em uma fábrica na Lapa, na região metropolitana de Curitiba. A companhia anunciou um plano de investimento de R$ 6 bilhões até 2030 para transformar a planta em um complexo de agroenergia, incorporando também etanol e biogás. Nesse arranjo, a soja deve contribuir com 1,7 bilhão de litros de biodiesel e 500 milhões de litros de óleo degomado por ano.
Soja sustenta o biodiesel e deve continuar dominante
Especialistas apontam que o domínio da soja no biodiesel brasileiro está ancorado em fatores agronômicos e industriais difíceis de replicar no curto prazo. Para César de Castro, pesquisador da Embrapa Soja, não existe outra cultura capaz de substituir o protagonismo atual do grão. Segundo ele, pesam a mecanização ampla, o uso consolidado na alimentação animal e um histórico de mais de cinco décadas de pesquisa e desenvolvimento que elevou a eficiência da cadeia.
Na prática, o farelo segue como produto central do processamento, e o óleo se torna um diferencial econômico. Como resume o pesquisador, “A soja gera o farelo e o óleo é como um bônus”.
Os números reforçam a posição dominante: no ano passado, a soja respondeu por 73,3% de todo o biodiesel produzido no Brasil, totalizando um mercado de 9,8 bilhões de litros, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A expectativa é de avanço nos próximos anos, acompanhando a expansão da capacidade industrial autorizada.
De acordo com Fernando Moura, diretor da ANP, já existe capacidade produtiva autorizada de 15,5 milhões de metros cúbicos por ano, o que representa 36% acima da produção atual. O dado indica que o setor tem margem instalada para crescer, desde que oferta de matéria-prima, logística e condições de mercado sustentem a ampliação da produção.
Alternativas ao biodiesel de soja avançam como complemento
Apesar do peso da soja, o movimento de diversificação de matérias-primas segue no radar. Para Bruno Laviola, chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, é estratégico estimular alternativas, sobretudo em janelas agrícolas e áreas onde a mecanização é limitada. Entre as opções, a canola aparece como rota viável para a segunda safra, enquanto a macaúba, palmeira nativa, é apontada como promissora em áreas não mecanizáveis.
A atratividade dessas culturas está ligada ao teor de óleo. A canola possui entre 38% e 42% de óleo no grão, contra 18% a 22% na soja. Já a macaúba pode alcançar 60% no fruto, segundo pesquisas da Embrapa.
Ainda assim, a escala da soja segue determinante. Na última safra, a cultura ocupou 48,4 milhões de hectares, o que garante grande volume de matéria-prima para a indústria. Para Laviola, o cenário ideal combina a força do grão com a criação de rotas alternativas: é importante ampliar opções sem desorganizar a base do sistema.
Comparativo de teor de óleo em matérias-primas
Matéria-prima Teor de óleo (aprox.) Aplicação/Contexto Soja 18% a 22% Base do biodiesel no Brasil, alta escala e cadeia consolidada Canola 38% a 42% Opção para segunda safra e diversificação de oferta Macaúba Até 60% Potencial em áreas não mecanizáveis; rota em desenvolvimento
Gorduras animais são a segunda maior fonte do biodiesel
Enquanto algumas culturas ainda avançam em pesquisa e desenvolvimento, a pecuária já ocupa espaço relevante na matriz do biodiesel. As gorduras bovina e suína formam a segunda maior fonte do combustível, com 8,3% de participação. Em 2025, as duas, somadas, geraram 827,5 milhões de litros.
O uso de gorduras animais é descrito como uma alternativa de custo atrativo, com baixa pegada de carbono e potencial de crescimento, especialmente por aproveitar subprodutos já existentes na cadeia de proteína animal.
Etanol cresce e amplia capacidade com novos projetos
Diferentemente do biodiesel — cuja produção em larga escala se consolidou a partir de 2007 —, o etanol já faz parte do cenário energético brasileiro há cerca de cinco décadas. Nos últimos dez anos, a produção aumentou 20%, alcançando quase 36 milhões de metros cúbicos em 2025, segundo a ANP.
A expansão tende a continuar. Estão previstos 45 projetos de ampliação ou implantação de novas unidades industriais de etanol com início de operação em 2026. A movimentação deve elevar em 12% a capacidade produtiva anual do etanol anidro — que foi de 13,2 milhões de m³ no ano anterior — e em 7,8% a do etanol hidratado, que somou 22,7 milhões de m³ no mesmo período.
Cana segue forte, mas milho já representa quase 30% do etanol
Embora a cana-de-açúcar continue como referência histórica, a produção a partir do milho se multiplica e ganhou relevância na matriz nacional. Em 2025, o milho respondeu por quase 30% de todo o etanol produzido no país.
Dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) indicam que o Brasil conta com 27 biorrefinarias dedicadas ao processamento do grão para combustível, além de outras 16 com autorizações de construção vigentes.
Para Guilherme Nogueira, CEO da Orplana, cana e milho são rotas complementares, especialmente no Centro-Oeste, onde o cereal é produzido em maior escala. Ele ressalta, porém, a necessidade de equilíbrio: “É essencial que haja isonomia regulatória e concorrencial entre as rotas produtivas”, evitando vantagens artificiais para um modelo em detrimento de outro. Na visão do setor, as duas matérias-primas sustentam o programa brasileiro de biocombustíveis.
Industrialização do milho: valor agregado e arrecadação
No campo, produtores enxergam a industrialização como tendência irreversível. Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja-MT e produtor rural em Nova Mutum (MT), afirma que transformar o grão em etanol agrega valor e fortalece cadeias associadas, como a de proteína. Ele destaca que, para cada tonelada colhida, a cadeia gera R$ 300 em impostos, reforçando o impacto econômico regional da industrialização.
Em paralelo, cresce o número de agricultores que negociam diretamente suas produções com as indústrias, que buscam garantir estoques do cereal. Entre as empresas do setor está a Inpasa, que atua no Brasil desde 2018 e possui sete unidades industriais. Em uma das plantas, em Sinop, no norte do Mato Grosso, a produção chega a 1 bilhão de litros de etanol por ano.
Sorgo entra no radar e já participa da produção de etanol
A diversificação também avança no etanol. A Inpasa passou a utilizar sorgo granífero, que já representa 5% do total de etanol produzido pela companhia, a partir de unidades na Bahia e no Mato Grosso do Sul. Estudos da Embrapa apontam que a cultura é tolerante à irregularidade do clima e se adapta bem a solos arenosos, o que amplia possibilidades em regiões de maior risco climático.
Em termos de rendimento, uma tonelada de sorgo pode produzir até 410 litros de etanol, resultado próximo aos 440 litros obtidos com o milho. Para Gustavo Mariano, vice-presidente de trading da Inpasa, a adoção do sorgo reforça a capacidade brasileira de ampliar rotas agrícolas e energéticas com competitividade.
Pontos-chave para o setor de biocombustíveis
Soja permanece como principal matéria-prima do biodiesel e deve manter liderança no curto e médio prazo.
Capacidade industrial autorizada para biodiesel indica espaço para expansão da produção.
Canola e macaúba surgem como alternativas promissoras, especialmente em contextos específicos de cultivo.
Gorduras animais consolidam-se como segunda maior fonte do biodiesel, com boa relação custo-carbono.
Etanol de milho amplia participação e complementa a cana, com expansão de biorrefinarias e novos projetos.
Sorgo entra como rota adicional, com bom rendimento e adaptação a condições climáticas desafiadoras.
Com a expansão planejada por indústrias e a evolução das rotas produtivas, a matriz brasileira de biocombustíveis tende a se tornar mais robusta. A combinação entre escala, diversificação agrícola e capacidade instalada deve definir o ritmo de crescimento do biodiesel e do etanol nos próximos anos.
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