Crédito no setor sucroalcooleiro: recuperação extrajudicial da Raízen eleva risco, custo de capital e juros em meio à inflação e à guerra no Oriente Médio
Crédito no setor sucroalcooleiro permanece caro por choques externos e recuperação extrajudicial da Raízen.

Crédito mais caro e guerra no Oriente Médio elevam pressão sobre usinas e reacendem debate sobre etanol
O cenário de crédito de curto e médio prazo no setor sucroalcooleiro brasileiro entrou em uma fase de maior cautela, impulsionada por dois vetores: a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, com reflexos sobre inflação e juros, e o aumento da atenção de investidores após o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado em março, para renegociar R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras.
A combinação desses fatores tende a manter elevado o custo de capital e a reforçar a seletividade de crédito, justamente em um momento em que insumos estratégicos — como fertilizantes nitrogenados e diesel — podem sofrer pressão de preços devido à instabilidade na região do Irã e do Golfo Pérsico.
Setor sob lupa após recuperação extrajudicial
O movimento da Raízen, uma joint venture entre Cosan e Shell, ampliou o escrutínio sobre a saúde financeira das empresas do setor. Para analistas e financiadores, a preocupação se concentra na capacidade de pagamento e na alavancagem, com atenção redobrada a companhias que operam com margens mais apertadas.
“A recuperação extrajudicial traz aumento do risco de confiança; investidores e financiadores passam a olhar o setor com mais cautela e analisar como está a alavancagem da indústria. Isso se combina a um cenário maior que tem recuperações de empresas de outros setores e dúvidas sobre a queda da taxa de juros no Brasil.”
— José Guilherme Nogueira, presidente da Orplana
Na avaliação de agentes do mercado, a pressão deve ser maior sobre empresas com relação entre dívida líquida e geração de caixa acima de três vezes. O temor é que reestruturações financeiras resultem em maior exigência de garantias, prazos mais curtos e cautela extra em contratos de longo prazo.
Recuperações judiciais avançam e agro concentra participação
O ambiente mais restritivo para crédito também se conecta a um aumento de processos de recuperação no país. Dados recentes da Serasa Experian indicam que 2,5 mil empresas chegaram a processos de recuperação judicial em 2025, com agricultura e serviços concentrando a maior parte dos CNPJs em recuperação.
No recorte do agronegócio — que abrange pessoas jurídicas segmentadas por atividades como agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura — o setor representou 30,1% dos CNPJs que buscaram recuperação judicial no ano passado, segundo a mesma fonte, com avanço em relação ao levantamento anterior.
De acordo com a Serasa Experian, o agronegócio foi impactado por uma sequência de fatores: choques nos preços de commodities, insumos dolarizados (como fertilizantes e defensivos), exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo entre safra e entressafra, o que amplificou a volatilidade de caixa e receita. Em cenários adversos, a compressão de margens tende a elevar a necessidade de renegociação de passivos ao longo da cadeia, do produtor à indústria, logística e comercialização.
Juros, inflação e o peso da incerteza geopolítica
No Brasil, a trajetória de juros segue no centro das decisões de investimento. Em março, o Banco Central realizou a primeira redução da taxa básica desde maio de 2024, com corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,75% ao ano. No entanto, a continuidade do conflito no Oriente Médio adicionou novas dúvidas ao cenário de inflação, energia e alimentos, incentivando revisões de projeções.
No início de abril, a expectativa de inflação para o ano estava em 4,36%, acima da projeção registrada no começo de março, de 3,91%. Esse ajuste pode influenciar o ritmo de queda da Selic, com possibilidade de um ciclo de redução menor do que o esperado anteriormente até o fim de 2026.
Na prática, o custo do dinheiro mais alto altera prioridades. Projetos de expansão, renovação de canaviais, modernização industrial e logística passam por uma régua mais rígida, e empresas com balanços pressionados encontram maior dificuldade para rolar dívidas ou captar recursos novos.
Ponto de atenção: com juros elevados e crédito mais seletivo, o setor tende a privilegiar eficiência operacional, gestão de caixa e redução de risco, adiando investimentos com retorno mais longo.
Pressão de custos: fertilizantes e diesel no radar
Além dos juros, os custos de produção podem sofrer nova rodada de pressão. Insumos fortemente ligados ao mercado internacional e ao petróleo, como diesel e parte dos fertilizantes, são sensíveis a tensões geopolíticas. Para as usinas, isso implica risco de aumento de desembolsos no curto prazo, com reflexos no capital de giro e no planejamento de safra.
Etanol em alta no mundo e janela para investidores
Apesar do aperto financeiro, o conflito no Oriente Médio também abre oportunidades ao setor. Para Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da consultoria Canaplan, a guerra pode valorizar o etanol no mercado global e estimular países importadores a revisarem estratégias energéticas.
O movimento é observado sobretudo na Ásia, onde governos já discutem aumento de mandatos de biocombustíveis e diversificação da matriz. A região é especialmente sensível a riscos na cadeia de petróleo e gás, já que uma parcela relevante do fluxo global passa por rotas estratégicas no Golfo, com forte destino asiático.
Com o etanol ganhando espaço, investidores internacionais podem intensificar a análise de ativos no Brasil. A leitura é que a conjuntura pode favorecer operações de fusões e aquisições, entrada de sócios estratégicos e negociações em moeda estrangeira — um movimento que lembra o ciclo de investimentos externos observado nos anos 2000, quando a participação internacional chegou a ser relevante no setor.
“Podemos ver essa tendência de novo. A crise atual tem feito alguns investidores de fora nos consultarem e reforçar o sobrevoo sobre o Brasil.”
— Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan
Além do etanol, há expectativa de que a conjuntura internacional também possa sustentar preços do açúcar, aumentando a receita potencial das usinas. Ainda assim, especialistas destacam que o benefício de preços mais firmes não elimina o desafio do crédito caro, especialmente para empresas alavancadas e com menor capacidade de absorver choques de custos.
O que muda no curto e médio prazo
Com o setor no centro da atenção de bancos e investidores, a tendência é de um ambiente mais exigente para financiamento, com foco em indicadores de endividamento, governança e previsibilidade de caixa. Ao mesmo tempo, a valorização do etanol no exterior pode criar um contraponto positivo para empresas mais eficientes e com melhor estrutura de capital.
Fator Impacto no setor sucroalcooleiro Guerra no Oriente Médio Eleva incerteza sobre energia, inflação e juros; pode valorizar etanol e açúcar Selic e custo de capital Financiamento segue caro; investimentos são reavaliados e priorizados Recuperação extrajudicial da Raízen Aumenta cautela de credores; reforça foco em alavancagem e seletividade Custos de insumos Diesel e fertilizantes podem pressionar margens e capital de giro Interesse internacional Pode estimular M&A e entrada de sócios, sobretudo em empresas com ativos atrativos
Principais tendências observadas
Mais rigor na concessão de crédito, com análise aprofundada de alavancagem e geração de caixa.
Maior sensibilidade a riscos externos, com inflação e juros reagindo a tensões no mercado de energia.
Possível janela para biocombustíveis, com maior interesse global por etanol e políticas de mistura.
Reorganização do setor, com espaço para parcerias, sócios estratégicos e movimentos de consolidação.
Em um ambiente de incertezas, o setor sucroalcooleiro se vê diante de um equilíbrio delicado: de um lado, juros ainda elevados e crédito mais seletivo; de outro, uma possível reprecificação positiva de biocombustíveis no mundo, capaz de atrair capital e fortalecer receitas. O desfecho dependerá do rumo do conflito, da trajetória de inflação e da velocidade com que o custo do dinheiro no Brasil poderá, de fato, ceder.
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