Agrishow 2026: Queda nas vendas de máquinas agrícolas, crédito mais restrito e importações em alta
Agrishow 2026 mantém otimismo, apesar de projeções de queda de vendas e crédito mais restrito.

Agrishow 2026: Queda nas vendas de máquinas agrícolas
Ribeirão Preto (SP) — Mesmo com projeções de retração nas vendas de máquinas agrícolas em 2026 e um ambiente econômico mais restritivo, a Agrishow deve manter um clima de otimismo entre fabricantes e visitantes. A 31ª edição da feira, considerada a maior vitrine de tecnologia agrícola da América Latina, está marcada para 27 de abril a 1º de maio e segue vista como um ponto-chave para negócios, lançamentos e termômetro do setor.
Os números, porém, indicam um cenário de desaceleração. A estimativa apresentada pela Anfavea aponta que a comercialização de máquinas agrícolas pode chegar a 46,7 mil unidades em 2026, o que representaria queda de 6,2% frente a 2025. Já a Abimaq projeta que o encolhimento deve impactar também o desempenho financeiro do setor, com recuo de 8% no faturamento.
Juros altos e crédito difícil travam investimentos no campo
Segundo representantes do setor, o fator mais sensível para a indústria é a combinação entre perda de rentabilidade do produtor rural e dificuldade de acesso ao crédito. A taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano, é apontada como um dos principais entraves para a renovação de frota e novos investimentos.
Além dos custos financeiros, o crédito rural tem sido impactado por um aumento de exigências e maior cautela dos bancos. A avaliação do setor é que a inadimplência em torno de 7% contribui para regras mais rígidas, reduzindo a capacidade de compra de equipamentos por parte de produtores de diferentes perfis.
Pressões externas elevam custos de insumos e apertam margens
O ambiente internacional também adiciona incertezas. Tensões geopolíticas, incluindo o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, têm pressionado o custo de insumos estratégicos para a produção agrícola, especialmente fertilizantes e diesel. Na prática, isso se traduz em margens mais apertadas no campo, o que tende a postergar decisões de compra de maquinário.
“Não tem como a Agrishow ser ruim. O que pode acontecer é a feira espelhar um pouco do momento que estamos vivendo.”
Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq
Agrishow deve concentrar vendas, lançamentos e condições especiais
Apesar do contexto mais duro, a expectativa é de que a feira siga relevante para o resultado anual das empresas. A Agrishow costuma concentrar esforços comerciais, com condições especiais de financiamento e estratégias voltadas para fechar negócios durante o evento. Além disso, a programação é tradicionalmente marcada pela apresentação de novidades tecnológicas, aspecto que tende a atrair produtores em busca de eficiência e redução de custos operacionais.
Na edição anterior, a Agrishow registrou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios, um crescimento de 7% em relação ao ano anterior. Para 2026, os organizadores optaram por não antecipar estimativas oficiais, reforçando cautela diante de um mercado em transição.
Setor pode chegar ao quinto ano consecutivo de queda
Se as projeções se confirmarem, 2026 marcará o quinto ano seguido de retração nas vendas de máquinas agrícolas. O período de desaceleração é associado à combinação de fatores econômicos e setoriais, como a redução dos investimentos no campo e a oscilação de preços de commodities relevantes, especialmente soja e milho.
Como esses produtos são cotados em dólar, a queda da moeda americana tende a reduzir a rentabilidade do produtor, diminuindo a disposição para assumir financiamentos e realizar compras de maior valor. Nesse cenário, decisões de investimento em maquinário frequentemente são adiadas, com impacto direto sobre a indústria.
Resumo dos fatores que pressionam o mercado
Juros elevados, encarecendo crédito e financiamentos.
Maior restrição bancária e aumento de exigências para empréstimos.
Queda na rentabilidade com commodities em baixa e dólar menor.
Custos de insumos pressionados por instabilidade internacional.
Faturamento cresceu em 2025, mas ritmo perdeu força no segundo semestre
Embora o ciclo recente seja de queda em volume, o setor ainda registrou sinais pontuais de melhora em receita. De acordo com a Abimaq, o faturamento de 2025 fechou com alta de 7% em comparação com 2024, impulsionado por um primeiro semestre bastante forte, quando o crescimento chegou a 20% na comparação anual.
O segundo semestre, porém, mostrou perda de fôlego. A virada de humor no mercado coincidiu com um aumento de tensões comerciais — incluindo tarifas elevadas sobre produtos brasileiros — e com a queda do dólar, fator que voltou a pressionar a renda do produtor e, por consequência, a demanda por equipamentos.
Vendas caem no início de 2026 e reforçam tendência de retração
O começo de 2026 também trouxe sinais negativos. No primeiro bimestre, as vendas de máquinas agrícolas recuaram 17%, de acordo com dados do setor. A leitura é que a queda expressiva reflete uma base de comparação elevada, já que o início do ano anterior havia sido especialmente positivo. Ainda assim, a expectativa consolidada aponta para um fechamento de ano com retração, alinhado à projeção de redução de faturamento.
Importações ganham espaço e ampliam concorrência com a indústria nacional
Outro ponto de atenção para fabricantes brasileiros é o avanço da concorrência externa. As importações de máquinas agrícolas, especialmente de países como China e Índia, cresceram de forma significativa em 2025. Para representantes do setor, isso agrava o cenário competitivo em um momento em que a indústria nacional enfrenta custos de produção mais altos.
Segundo avaliações do mercado, equipamentos importados podem chegar ao Brasil com preços até 27% menores, o que tende a reduzir a competitividade dos fabricantes locais e aumentar a pressão por medidas de estímulo e proteção à cadeia produtiva doméstica.
Recuperação depende de crédito e melhora na rentabilidade do produtor
Para a Anfavea, a retomada do mercado passa principalmente por duas frentes: melhores condições de financiamento e recomposição da rentabilidade no campo. Sem mudanças nesses pilares, a tendência é de continuidade de um ritmo mais lento de investimentos, tanto por parte dos produtores quanto das empresas.
O setor também discute propostas para fortalecer a indústria nacional diante do aumento das importações, argumentando que a perda de participação pode gerar impactos em empregos e na cadeia de fornecedores. No curto prazo, entretanto, a avaliação predominante é de que o crédito seguirá como o principal limitador, já que a melhora rápida nos preços das commodities não é considerada provável e a taxa de juros tende a permanecer em patamar elevado.
Panorama em números
Indicador Dado Projeção de vendas de máquinas agrícolas em 2026 46,7 mil unidades Variação estimada vs. 2025 Queda de 6,2% Impacto estimado no faturamento (Abimaq) Recuo de 8% Taxa básica de juros citada pelo setor 14,75% ao ano Intenções de negócios na Agrishow 2025 R$ 14,6 bilhões Crescimento da Agrishow 2025 vs. 2024 Alta de 7% Queda nas vendas no 1º bimestre de 2026 -17% Diferença de preço atribuída a importados Até 27% mais baratos
Conclusão: mesmo com queda projetada nas vendas e um cenário de crédito mais restrito, a Agrishow segue como um dos principais catalisadores de negócios e inovação do agronegócio, funcionando como um termômetro do mercado e concentrando estratégias de venda em um momento decisivo para a indústria.
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