Minas Gerais: Café lidera recorde da renda bruta do agronegócio; MAPA projeta queda de VPB e juros altos em 2026
Renda agropecuária brasileira atinge recorde; cafeicultura impulsiona, com previsão de queda em 2026.

Agro mineiro bate recorde e café puxa renda, mas 2026 deve ser mais desafiador com juros altos e custos pressionados
Minas Gerais registrou novo pico de renda na agropecuária, impulsionado principalmente pela cafeicultura, que segue ampliando participação na economia rural do estado. Apesar do desempenho recente, autoridades e representantes do setor avaliam que 2026 tende a ser um ano mais complexo, com juros elevados, custo de produção pressionado e margens apertadas em cadeias como grãos e leite.
Renda do agro atinge nível histórico, com salto do café
No ano passado, a renda bruta da agropecuária alcançou R$ 168,1 bilhões, o maior valor da série histórica, com alta real de 13,5% em relação a 2024. O avanço, porém, foi sustentado quase integralmente pela forte valorização e desempenho do café: o valor gerado pelos cafezais subiu 46,9%, saindo de R$ 40 bilhões em 2024 para R$ 58,8 bilhões, também em recorde.
Para 2026, as projeções indicam uma leve acomodação: a receita bruta do setor em Minas deve recuar para R$ 165,9 bilhões. Ainda assim, o estado deve ampliar ligeiramente sua participação no Valor Bruto da Produção (VBP) nacional, passando de 11,8% em 2025 para 12,1%, já que o valor da produção brasileira pode cair de forma mais intensa, estimada em 3,62%.
“Antevejo um cenário desafiador para 2026”, avalia o secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, Thales Almeida Fernandes, ao citar que as altas taxas de juros encarecem o crédito e dificultam o acesso a capital de giro.
Juros e custos pesam, especialmente em grãos e leite
Além do custo do financiamento, a elevação de despesas de produção vem apertando margens, sobretudo em atividades ligadas aos grãos. A avaliação é que, mesmo com indicadores macro favoráveis, muitos produtores enfrentam dificuldades “da porteira para dentro”, com resultados pressionados por custos e mercado.
As previsões indicam aumento de 2,70% para o VBP das lavouras mineiras neste ano, passando de R$ 112,93 bilhões para R$ 115,83 bilhões (valores de fevereiro), marcando o terceiro ano seguido de recorde para a renda bruta agrícola — ainda sem considerar o componente da pecuária.
Maior impulso: cafeicultura, com alta prevista de 10,3% na receita.
Participação do café: deve subir de 34,9% para 39,07% da renda total.
Comparação histórica: há cerca de uma década, o café representava em torno de 21,6%.
Um levantamento técnico da área estadual estima que o PIB do agronegócio mineiro tenha ficado em torno de R$ 235 bilhões em 2024, crescimento nominal de R$ 20,5 bilhões. O resultado sugere variação de 9,6% no período, explicada principalmente por uma valorização média de 10,2% nos preços dos produtos do setor.
Para o presidente da Faemg, Antônio de Salvo, o crescimento foi expressivo mesmo diante de desafios externos, mas a tendência é de algum refluxo. Ele ressalta que o avanço do VBP não significa conforto generalizado no campo: soja, milho e pecuária leiteira estariam entre os segmentos mais pressionados por margens apertadas ou negativas, com impacto adicional dos juros.
Exportações crescem e agronegócio amplia peso nas vendas externas do estado
No comércio exterior, a avaliação é de que medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos tiveram efeito limitado para o agro mineiro. Considerando apenas a produção primária, as exportações da agropecuária subiram 29,8% e atingiram US$ 14,229 bilhões, superando, pela primeira vez, a indústria extrativa, que recuou para US$ 12,542 bilhões.
Mesmo a carne bovina ampliou receitas no exterior, com crescimento de 23,2% e faturamento de US$ 1,337 bilhão, em um cenário de forte demanda internacional, com destaque para o mercado asiático.
Já na visão consolidada de todo o agronegócio mineiro, as exportações avançaram 15,8%, passando de US$ 17,1 bilhões em 2024 para US$ 19,8 bilhões, o equivalente a 43,4% das exportações totais do estado.
Café: volume menor, receita maior
O café seguiu como protagonista do desempenho externo. Embora o volume exportado tenha caído 10,57%, de 1,842 milhão para 1,647 milhão de sacas, a elevação de quase 61% nos preços médios resultou em alta de 43,9% nas receitas, de US$ 7,896 bilhões para US$ 11,359 bilhões.
Esse montante representou cerca de 57% de toda a exportação do agronegócio estadual, reforçando o peso do grão na balança comercial e na formação de renda rural.
Clima favorece grãos e pode aliviar custos para a pecuária
Se as condições climáticas seguirem favoráveis, a expectativa é de boa safra de grãos no ciclo 2025/2026, o que pode gerar efeitos positivos para cadeias dependentes de ração e insumos, como aves, suínos, parte da pecuária de corte e, principalmente, a pecuária leiteira.
A estimativa aponta colheita histórica de 18,827 milhões de toneladas no ciclo 2025/2026, cerca de 2,3% acima da safra anterior, que foi de aproximadamente 18,409 milhões de toneladas.
Safra recorde de café deve recolocar Minas perto de metade da produção brasileira
A produção mineira de café é estimada em 32,424 milhões de sacas neste ano, quase 26% acima do volume de 2025. Com isso, Minas deve responder por praticamente 49% da produção brasileira, prevista em 66,186 milhões de sacas, o maior volume da série histórica.
Além do tamanho da safra, Minas deve ser decisiva no crescimento nacional: a contribuição do estado no aumento da produção brasileira tende a ser dominante, representando a maior parte do avanço total.
Segundo Jacques Fagundes Miari, presidente do conselho de uma cooperativa regional, a expectativa é de normalização da produção, especialmente do café arábica, que vinha sendo afetado por sucessivos problemas climáticos, com alternância de geadas e períodos de temperaturas elevadas.
O arábica em Minas já havia alcançado seu maior volume em 2020, com 34,337 milhões de sacas, mas caiu para 25,171 milhões em 2025. Para este ano, a projeção é de 31,822 milhões de sacas, avanço de 26,4%. O conilon também cresce, mas ainda com participação menor no volume total.
Cooperativismo amplia originação e investimento em armazenagem
O cooperativismo também acompanha o ciclo de recuperação. No ano passado, uma das cooperativas do Sul de Minas aumentou o recebimento de café em 3%, para 1,837 milhão de sacas, contrariando a queda observada na produção total de arábicas. A expectativa é elevar o recebimento em 10% neste ano e ampliar as vendas para acima de 1,4 milhão de sacas, volume comercializado em 2025, quando o faturamento chegou a R$ 3,4 bilhões.
Com milhares de cooperados ativos, a estratégia inclui investimentos em infraestrutura de armazenagem e expansão operacional, além de fortalecimento de uma linha de cafés especiais, segmento com demanda crescente e maior valor agregado nas exportações.
Preços do arábica recuam com expectativa de safra maior, mas margens seguem positivas
Os preços do café atingiram níveis históricos no início do ano passado, conforme série acompanhada por centro de pesquisas ligado a universidade. O arábica tipo 6 chegou a R$ 2.769 por saca em meados de fevereiro, com alta de 24,3% em relação ao fim de 2024.
Com o mercado reagindo à sinalização de safra recorde, os preços recuaram para R$ 1.806 ao fim da terceira semana de fevereiro. Ainda assim, a avaliação é de que as cotações podem permanecer entre R$ 1,8 mil e R$ 1,9 mil no período, mantendo margens consideravelmente positivas para parte dos produtores.
Resumo dos principais indicadores
Tema Dado-chave Impacto Renda bruta do agro R$ 168,1 bilhões Recorde, puxado pelo café Café (valor gerado) R$ 58,8 bilhões (alta de 46,9%) Principal motor do crescimento Exportações do agro US$ 19,8 bilhões Agro ganha peso nas vendas externas Safra de café (MG) 32,424 milhões de sacas Quase metade da produção nacional Perspectiva 2026 R$ 165,9 bilhões (projeção) Ano desafiador com juros e custos




