Agrishow 2026: 197 mil visitantes e R$11,4 bilhões em negócios; queda de 22% com juros altos e incertezas no agronegócio
Agrishow de Ribeirão Preto movimenta R$11,4 bilhões e atrai 197 mil visitantes; queda de 22%.

Agrishow registra queda nas intenções de negócios, mas mantém público e atrai compradores mais qualificados
Feira em Ribeirão Preto (SP) movimentou R$ 11,4 bilhões em negociações e repetiu o público de 197 mil visitantes, segundo a organização. Juros altos, câmbio e queda nas commodities explicam recuo.
A Agrishow, uma das principais vitrines de tecnologia agrícola e máquinas para o agronegócio no Brasil, encerrou sua edição mais recente em Ribeirão Preto (SP) com R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios. O resultado representa uma queda relevante em relação ao ano anterior, quando o evento havia registrado montantes superiores, refletindo um cenário de maior apetite por investimentos.
Apesar de expositores relatarem a sensação de corredores mais vazios em alguns momentos, a organização informou que o público registrado foi de 197 mil visitantes, número igual ao do ano passado. A avaliação de parte das empresas, porém, é que os visitantes desta edição apresentaram um perfil mais objetivo e focado em fechar compras, com negociações em estágio avançado.
Por que a Agrishow caiu em negócios
Em entrevista coletiva, dirigentes ligados à feira e ao setor de máquinas agrícolas atribuíram o recuo nas intenções de negócios principalmente às condições macroeconômicas que vêm limitando crédito e investimentos no campo. Entre os fatores apontados estão:
Juros elevados, que encarecem o financiamento de máquinas e equipamentos;
Commodities em patamar menos favorável, com impacto na renda do produtor;
Variação cambial, que altera custos e expectativas do mercado;
Inadimplência e maior seletividade na concessão de crédito;
Incertezas internacionais, com reflexos na decisão de compra e na cautela do produtor.
De acordo com representantes do setor, a retração observada na feira acompanha o desempenho do mercado no início do ano, especialmente no segmento de máquinas agrícolas. Houve indicação de queda próxima a 20% no primeiro trimestre na comparação anual, mostrando que o recuo na Agrishow não foi um evento isolado, mas parte de um movimento mais amplo.
Visitantes: menos volume percebido, mais intenção de compra
Uma leitura recorrente entre expositores foi a de que, mesmo com a percepção de menor circulação em estandes, houve maior proporção de visitantes com interesse direto em investir. Em várias empresas, a estratégia foi aproveitar as condições comerciais do evento para concluir negociações já encaminhadas.
Avaliações de expositores indicam que o público esteve mais qualificado, com objetivos claros e foco em fechar negócios iniciados antes da feira.
Essa mudança no perfil pode explicar por que alguns segmentos conseguiram atingir metas, mesmo em um ambiente geral de cautela. Em especial, a cafeicultura apareceu como um dos motores para empresas com produtos voltados à renovação e mecanização de lavouras.
Empresas que se destacaram: café impulsiona vendas e retomadas
Entre os casos citados no balanço do evento, uma fabricante de trituradores voltou à feira após anos e relatou desempenho acima do esperado: foram 31 máquinas vendidas, além de outras negociações em estágio avançado. Segundo a empresa, o resultado superou em múltiplos a meta inicial e acelerou planos para ampliar presença na próxima edição.
Outra avaliação de expositor foi a de que, mesmo com metas atingidas, a pressão sobre margens foi maior. O ambiente competitivo, somado ao orçamento mais apertado no campo, fez parte das empresas trabalharem com condições especiais para viabilizar a decisão de compra.
Também houve relatos de lançamentos direcionados à agricultura familiar e de aumento de contatos comerciais com visitantes de diferentes regiões do país, reforçando a importância do evento como ponto de encontro para negócios e prospecção.
Comparação com outras feiras e sinalização do mercado
O desempenho da Agrishow ocorre em um contexto em que outras grandes feiras do agronegócio também registraram desaceleração nas negociações. O movimento reforça a interpretação de que o setor atravessa um período de transição, no qual o produtor mantém interesse por tecnologia, mas toma decisões de investimento com maior prudência.
Ainda assim, instituições financeiras presentes no evento reportaram volume expressivo de propostas, distribuídas entre máquinas, armazenagem, irrigação, tecnologia e custeio. A leitura do mercado é que existe demanda, mas o ritmo de contratação depende de condições de crédito e de taxa de juros competitiva.
Linha de crédito anunciada e expectativa do setor
Durante o evento, foi citado um programa de financiamento anunciado pelo governo, com recursos bilionários voltados ao setor. No entanto, dirigentes da feira destacaram que a operacionalização ainda não havia começado durante a Agrishow, o que pode ter reduzido a capacidade de fechamento imediato de negócios por parte de produtores que dependem de crédito.
A expectativa do setor é que, com a entrada em vigor dessa linha e a definição de taxas, parte da demanda represada possa se converter em compras no pós-feira. Expositores afirmam que a Agrishow, além de gerar intenções de negócios dentro do evento, costuma ter efeitos prolongados nas semanas seguintes, com contratos fechados após novas rodadas de negociação.
Indicadores do setor: tratores e colheitadeiras em retração
Dados setoriais mencionados durante o balanço apontam que, no acumulado do primeiro trimestre, houve queda nas vendas de tratores e um recuo ainda mais forte nas colheitadeiras. O desempenho reforça o diagnóstico de que o produtor está mais seletivo, priorizando investimentos essenciais e buscando melhores condições para compras de maior valor.
Destaque: mesmo com retração no volume total, empresas relataram aumento de qualidade nos leads e maior taxa de conversão em nichos específicos, como o café.
Resumo dos principais números
Indicador Resultado Intenções de negócios R$ 11,4 bilhões Variação em relação ao ano anterior Queda superior a 20% Público 197 mil visitantes Próxima edição (datas) 26 a 30 de maio
O que esperar para 2027
A organização já confirmou a realização da próxima edição e reforçou a importância da feira para a indústria de máquinas e para produtores interessados em modernização. A avaliação geral é que a Agrishow segue como termômetro do setor: quando o crédito aperta e a renda do produtor cai, a intenção de compra diminui; quando as condições melhoram, a feira volta a acelerar investimentos.
Para o mercado, o foco agora está em como juros, câmbio e preços das commodities vão se comportar nos próximos meses. Com maior previsibilidade, empresas esperam um ambiente mais favorável para que produtores retomem projetos de mecanização, armazenagem e irrigação — áreas consideradas estratégicas para produtividade e competitividade no agronegócio.




