
O solo na Europa está sendo consumido mais rápido do que a natureza consegue regenerar, e esse processo já aparece como um fator decisivo para o retrocesso em metas ambientais diretamente ligadas à saúde pública. Dados recentes divulgados pelo Eurostat indicam que, entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os relacionados à água e à vida terrestre são os únicos em que a União Europeia apresenta queda clara de desempenho.
O diagnóstico aponta um denominador comum: o modelo atual de uso, ocupação e gestão do solo, com pressões crescentes sobre ecossistemas terrestres e hídricos em diversos países do bloco. Portugal, segundo o relatório, não foge desse padrão e enfrenta desafios estruturais que afetam o ordenamento territorial, a conservação ambiental e a segurança hídrica.
Um dos pontos centrais do levantamento é a impermeabilização do solo, considerada a forma mais intensa de ocupação territorial. Na prática, trata-se de um processo descrito como quase irreversível, ao cobrir o solo com camadas artificiais parcial ou totalmente impermeáveis, como asfalto e concreto. Esse tipo de transformação reduz a capacidade do terreno de absorver água, impacta a recarga de aquíferos, aumenta o risco de enchentes e contribui para a perda de habitats.
Entre 2018 e 2021, a ocupação líquida de terras em cidades e áreas pendulares cresceu cerca de 32% em comparação ao período anterior, principalmente às custas de terras aráveis e pastagens. O relatório também registra que, em 2021, a área de solo selado atingiu 252,1 metros quadrados por habitante na União Europeia.
Segundo o Eurostat, a tendência preocupa por três motivos principais:
Segurança alimentar, pela redução de áreas produtivas;
Biodiversidade, devido à fragmentação e perda de ambientes naturais;
Reservas de carbono, com impactos diretos no combate às mudanças climáticas.
O documento afirma que o ritmo atual coloca o bloco fora da trajetória para atingir a meta de ocupação líquida nula de terras até 2050.
Outro indicador relevante envolve o setor de uso do solo e florestas, que deveria atuar como aliado essencial na remoção de gases de efeito estufa. Em vez disso, o Eurostat aponta que as remoções líquidas de carbono caíram 39,7% na União Europeia entre 2009 e 2024.
Com essa redução, o bloco se distancia do objetivo de remover pelo menos 310 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano até 2030, meta considerada estratégica para conter o aquecimento global.
O relatório também associa parte do problema ao impacto da agricultura intensiva, que contribui para a degradação do solo e para o declínio de espécies que dependem de paisagens rurais equilibradas.
Entre os destaques:
As populações de aves comuns em áreas agrícolas caíram 41,2% desde 1990;
As borboletas de pastagem registraram queda de 47,4% entre 1991 e 2024;
Apenas 27% das espécies avaliadas e 15% dos habitats avaliados apresentam bom estado de conservação.

A valorização da origem de produtos e serviços vem ganhando força no Brasil. Nos últimos cinco anos, o número de Indicações Geográficas (IGs) reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mais do que dobrou, passando de pouco mais de 70 certificações em 2020 para mais de 150 atualmente

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No solo, o Eurostat estima que cerca de 5,1% das terras aráveis europeias não artificializadas enfrentam risco de erosão hídrica severa. O impacto econômico permanece relevante: a perda de produtividade agrícola é estimada em aproximadamente 1,3 bilhão de euros por ano.
As pressões sobre o solo repercutem diretamente na água, ampliando o desafio relacionado a abastecimento e saneamento. Entre 2018 e 2023, a concentração de fosfatos em rios europeus aumentou 19,1%, o que favorece a eutrofização — fenômeno que pode degradar ecossistemas aquáticos, reduzir oxigênio dissolvido e afetar a qualidade da água.
O relatório também registra aumento na proporção de rios com níveis de pesticidas acima dos limites de segurança, evidenciando um cenário de poluição persistente e, nos últimos anos, crescente.
O Eurostat destaca que o impacto do modelo de consumo europeu não se limita ao território da União Europeia. Em 2024, o bloco consumiu colheitas em uma área equivalente a 8,4% de todas as terras aráveis do mundo, apesar de representar 5,5% da população global.
Entre os principais países onde a produção agrícola atendeu ao consumo europeu estão Argentina, Brasil e Ucrânia. O relatório sugere que essa dependência pode impulsionar, de forma indireta, a pressão sobre áreas naturais, inclusive com risco de desmatamento em regiões da América do Sul.
Em Portugal, as dinâmicas de uso do solo trazem desafios que afetam metas de cidades sustentáveis e conservação da vida terrestre. O relatório europeu destaca o país como um dos que apresentam taxas mais elevadas de risco de erosão hídrica na Europa Mediterrânea.
Essa degradação é associada à combinação de chuvas intensas, encostas íngremes e períodos de baixa cobertura vegetal, com efeitos diretos sobre a produtividade agrícola, a vulnerabilidade a secas e a integridade de ecossistemas.
A escassez de água aparece como uma característica estrutural: cerca de 30% da população vive em áreas com estresse hídrico permanente, enquanto até 70% enfrenta pressão hídrica sazonal no verão.
Em 2024, aproximadamente 3,7% do território da União Europeia foi afetado por secas. O Eurostat observa que os impactos se atenuaram em 2023 e 2024 em comparação com 2022, ano marcado por recordes climáticos, incluindo verão mais quente, segundo ano mais quente e maior área atingida por secas de que há registro.
Apesar dos riscos ligados à degradação natural e à artificialização do solo, o relatório destaca um avanço relevante na gestão agrícola portuguesa: o país se tornou o segundo da União Europeia com maior proporção de área agrícola em agricultura biológica.
Em 2024, mais de 20% das terras agrícolas do país já operavam nesse regime, ficando atrás apenas da Estônia. A expansão da agricultura orgânica é citada como uma tendência positiva para reduzir pressão ambiental, promover práticas mais sustentáveis e apoiar a qualidade do solo a longo prazo.
O retrato ambiental português também apresenta contrastes em outras dimensões. Na qualidade do ar, Portugal aparece entre os poucos Estados-Membros que cumpriram um limite rigoroso de partículas finas PM2,5 em todas as estações de medição.
No campo climático, persistem assimetrias regionais: enquanto a Madeira se destaca por forte redução de emissões desde 1990, outras regiões registram crescimento relevante no mesmo período, segundo dados divulgados anteriormente pelo Eurostat.
Entre as fragilidades, o relatório aponta a taxa de reciclagem abaixo do necessário para cumprir metas futuras e a pobreza energética, com parcela significativa da população relatando dificuldade para manter a casa adequadamente aquecida — um fator com implicações diretas para saúde e bem-estar.
Tema Indicador Efeito associado Urbanização Aumento de ocupação líquida de terras (2018–2021) Perda de áreas agrícolas, biodiversidade e carbono Clima Queda de remoções líquidas de carbono (2009–2024) Maior dificuldade para cumprir metas climáticas Agricultura Declínio de aves e borboletas em áreas rurais Sinal de perda de qualidade ambiental em paisagens agrícolas Água Alta de fosfatos e pesticidas em rios Risco de eutrofização e piora de qualidade hídrica Portugal Risco elevado de erosão hídrica + estresse hídrico Perdas agrícolas, vulnerabilidade a secas e impactos ambientais Portugal Mais de 20% da área agrícola em regime orgânico (2024) Sinal positivo de transição para práticas mais sustentáveis
Em síntese, o relatório do Eurostat reforça que a proteção do solo se tornou um eixo central para a sustentabilidade, com efeitos diretos sobre qualidade da água, biodiversidade, clima e produção de alimentos. Para Portugal, o desafio passa por reduzir a degradação e lidar com a escassez hídrica, enquanto amplia estratégias que já mostram resultados, como a agricultura orgânica.
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