
Cochabamba e La Paz vivem dias de paralisação e incerteza em meio à escalada de bloqueios de estradas e protestos que já deixaram quatro mortos — três por falta de acesso a atendimento médico e um durante uma operação policial. Com 54 pontos de bloqueio registrados no país, concentrados sobretudo no entorno de La Paz, a crise afeta diretamente o abastecimento, o funcionamento de serviços públicos e a rotina de hospitais, ampliando o risco sanitário e social.
Em Cochabamba, a terceira maior cidade boliviana, os estudantes brasileiros de medicina Jaquelyne Queiroz e Jorge David Medeiros relatam impactos imediatos. Morando no país desde julho de 2021, eles também administram um pequeno café brasileiro, que precisou fechar: funcionários não conseguiram chegar e fornecedores interromperam entregas. Segundo o casal, as vendas do mês despencaram 90%.
O aspecto mais grave, porém, está no colapso do acesso à saúde. Relatos de profissionais que atuam no interior indicam que bloqueios têm impedido transferências urgentes. Em um dos casos descritos por colegas de Jaquelyne e Jorge, uma criança que precisava ser removida com urgência não conseguiu atravessar um ponto interditado: a ambulância foi apedrejada, a equipe recuou e a paciente morreu em uma unidade básica sem recursos para atendimento avançado.
Na capital, o cenário inclui filas por combustível, fechamento de repartições e grandes empresas, escolas operando em modo virtual e trabalhadores do transporte usando respiradores para se proteger do gás lacrimogêneo. Quando alimentos chegam, os preços sobem para quatro ou cinco vezes o valor habitual, elevando a insegurança alimentar e dificultando a manutenção de dietas e tratamentos.
“A gente só espera que não tenha uma guerra civil amanhã.” — relato de brasileiros que vivem em Cochabamba diante do avanço da tensão social.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a crise atual não é resultado exclusivo do governo do presidente Rodrigo Paz, eleito há seis meses e primeiro mandatário de direita em duas décadas. Para analistas, o país enfrenta o desfecho de um processo de má gestão de reservas internacionais, dependência excessiva do gás natural e desequilíbrios fiscais acumulados ao longo de anos.
Por quase duas décadas, a Bolívia foi governada pelo Movimento para o Socialismo (MAS), liderado por Evo Morales e, posteriormente, por Luis Arce. Durante o boom de commodities, com destaque para o gás, o governo sustentou amplos subsídios, reduziu a pobreza e ampliou a inclusão política de povos indígenas e trabalhadores rurais. Com a queda na produção de gás, porém, as reservas foram se esgotando e os déficits fiscais cresceram, deixando a economia fragilizada.
Esgotamento de reservas internacionais e aumento de pressões cambiais;
Escassez de dólares associada à falta de diversificação exportadora;
Déficits fiscais persistentes e endividamento crescente;
Subsídios elevados, especialmente em combustíveis, com alto custo ao Estado.
O pesquisador social Roberto Laserna, diretor de um think tank boliviano, afirma que gestões anteriores recorreram de forma prolongada às reservas e ampliaram a dependência de financiamento, ignorando alertas sobre a sustentabilidade das contas públicas. Já o economista Fernando Romero, ex-presidente de associação de economistas de Tarija, ressalta que a escassez de dólares não é recente e se agravou à medida que a produção de gás diminuiu e as pressões sobre as reservas se tornaram insustentáveis.

Para o público e para o setor produtivo, a atenção se volta a possíveis desdobramentos sobre investigações financeiras, sanções e o aperfeiçoamento de mecanismos de controle, com efeitos diretos na forma como recursos ilícitos são detectados e interrompidos.

Ao assumir, Rodrigo Paz adotou medidas de austeridade, incluindo a retirada do subsídio ao combustível, que consumia bilhões de dólares por ano. No campo diplomático, aproximou-se de governos conservadores. Ainda assim, analistas apontam que as manifestações misturam descontentamento real com instrumentalização política em um ambiente de polarização e feridas sociais abertas.
A jornalista boliviana Fabiola Chambi, especialista em conflitos sociais, descreve uma crise “múltipla, profunda e prolongada”, que vai além da economia. Segundo ela, há questões estruturais e identitárias em disputa, em uma sociedade altamente polarizada desde 2019.
Um ponto que aprofunda a instabilidade é a contradição política: parte dos manifestantes votou no próprio presidente que agora pressionam a renunciar. Desiludidos com o ciclo anterior e temerosos de extremos, muitos eleitores teriam migrado para Paz no segundo turno — e agora expressam frustração com os rumos do governo.
O ex-presidente Evo Morales surge como figura central na turbulência. Enfrentando múltiplos processos judiciais e abrigado em sua base de apoio na região de Chapare, ele é acusado pelo governo de incitar e financiar os protestos. Analistas dizem que as evidências precisam ser tratadas com cautela, mas reconhecem seu papel como catalisador.
Laserna avalia que Morales perdeu parte do apoio urbano e da classe média, mas ainda mantém capacidade de mobilização com bases leais. Chambi aponta que a movimentação é deliberada: Morales teria estabelecido um prazo público para convocação de novas eleições, o que caracterizaria mobilização política aberta, e não apenas apoio difuso às manifestações.
Rodrigo Paz governa sem partido próprio e sem uma coalizão legislativa estável. Desde o início, seu vice-presidente se posicionou como opositor interno, enfraquecendo a articulação política. Diante dos bloqueios, o presidente optou por diálogo e evitou decretar estado de emergência e ampliar o uso da força. As negociações, porém, fracassaram repetidamente, com ausência de organizações-chave em mesas de conversa.
Na tentativa de reduzir a pressão, o governo anunciou corte de 50% no próprio salário e no de ministros, concedeu anistia de multas fiscais para trabalhadores informais e prometeu ajustes no gabinete para incorporar setores sociais. As concessões não foram suficientes para deter o avanço do conflito. Para Romero, o problema ultrapassa medidas pontuais e envolve frustrações institucionais e a percepção de que o governo não se conecta às lutas de parte da população.
Com o impasse se aprofundando, países da América do Sul sinalizaram apoio institucional e anunciaram iniciativas para mitigar o desabastecimento, incluindo ajuda humanitária e abertura de corredores para abastecimento da capital. No entanto, a tensão interna segue alta. Organizações civis começaram a se mobilizar para tentar desobstruir estradas por conta própria, o que pode levar a confrontos diretos entre grupos favoráveis e contrários aos protestos, sem mediação efetiva do Estado.
Laserna alerta que, em setores urbanos, cresce a ideia de organizar grupos para repelir ataques, o que aumenta o risco de violência. Para quem vive no país, a sensação é de deterioração rápida do cotidiano. Em poucas semanas, a crise deixou de ser apenas econômica e passou a afetar de forma aguda o acesso à saúde, a segurança, a educação e o abastecimento — com consequências que podem se tornar ainda mais graves se os bloqueios persistirem.
Tema Impacto observado Saúde Transferências interrompidas, mortes por falta de atendimento, hospitais sob pressão e acesso a insumos dificultado Abastecimento Escassez e alta de preços de alimentos, filas por combustível e cadeias logísticas paralisadas Economia Esgotamento de reservas, pressão cambial e dificuldades associadas à queda do gás e déficits acumulados Política Governo com base frágil, protestos polarizados e disputa de poder envolvendo atores do ciclo anterior
Para Jaquelyne e Jorge, que planejam retornar ao Brasil ao fim da faculdade, a Bolívia que conheceram em 2021 — associada a qualidade de vida e rotina estável — deu lugar a um país em alerta constante, com aulas e práticas hospitalares canceladas e o medo de que a violência avance. O desfecho depende da capacidade de reconstruir diálogo político e restabelecer, com urgência, condições mínimas de circulação e atendimento de saúde.
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A guerra no Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz provocaram um choque na oferta de petróleo, levando governos ao redor do mundo a buscar rapidamente alternativas para compensar a queda de fornecimento. Em março, a AIE coordenou uma liberação maciça de reservas de emergência, totalizando cerca de 400 milhões de barris, para evitar interrupções no abastecimento e estabilizar os preços. Antes do conflito, o mercado global já mantinha estoques estratégicos consideráveis, com China, Estados Unidos e Japão entre os maiores detentores.