
A intensificação da corrida mundial por minerais críticos — insumos essenciais para tecnologias de energia limpa, baterias e cadeias industriais estratégicas — tem reposicionado o Brasil no tabuleiro geopolítico e econômico. Em um cenário de rivalidade crescente entre Estados Unidos e China, especialistas apontam que o País pode desempenhar um papel relevante ao oferecer uma combinação de reserva mineral robusta, projetos em desenvolvimento e uma percepção de jurisdição relativamente estável.
Segundo análise do sócio-diretor da consultoria A&M Infra, Rafael Marchi, o Brasil tem se mostrado uma alternativa atrativa por não estar completamente alinhado a nenhum dos polos de poder. Essa postura, avalia o consultor, favorece a inserção do País em estratégias de diversificação de fornecedores, especialmente em cadeias sensíveis como as de terras raras, lítio, cobre e níquel.
O movimento global de consolidação no setor de mineração vem sendo fortemente influenciado por fatores geopolíticos e por barreiras crescentes em importantes regiões produtoras. Marchi destaca que, em países como Canadá, Austrália e Estados Unidos, os prazos de desenvolvimento de projetos estão se alongando, o licenciamento ambiental tende a ser mais difícil e a pressão social sobre a atividade mineradora tem aumentado.
“Há uma corrida global por minerais críticos, e o tempo de desenvolvimento dos projetos está aumentando num cenário de oposição à mineração.”
Nesse contexto, jurisdições onde os processos avançam com maior previsibilidade ganham vantagem competitiva. Para o consultor, o Brasil se beneficia por manter mecanismos que, apesar de desafios internos, ainda permitem que projetos sigam adiante. Isso reforça a imagem do País como destino de investimentos em mineração e como potencial fornecedor em um mercado cada vez mais pressionado por segurança de suprimentos.
Além de condições geológicas e perspectivas de demanda, o financiamento tem se consolidado como um fator determinante para destravar projetos. De acordo com especialistas do setor, o Brasil apresenta condições favoráveis para estruturar capital, embora muitas empresas enfrentem dificuldades para oferecer garantias em operações de crédito e investimento.
Em 2025, o BNDES e a Finep lançaram uma chamada pública para estimular negócios voltados à transformação de minerais críticos, alinhando a produção mineral a uma agenda de agregação de valor e fortalecimento industrial. O retorno do mercado surpreendeu: as propostas recebidas somaram R$ 85,2 bilhões em investimentos potenciais, volume descrito como muito acima do orçamento inicialmente previsto.
Na sequência, foram selecionados 56 planos de negócios, que avançaram para a fase de elaboração do Plano de Suporte Conjunto, totalizando R$ 45,8 bilhões em valor agregado de projetos apresentados.
Indicador Resultado Propostas recebidas R$ 85,2 bilhões em investimentos potenciais Planos selecionados 56 Valor total após avanço de fase R$ 45,8 bilhões
Outro sinal de fortalecimento do ecossistema de capital para o setor é a estruturação de um Fundo de Investimento em Participações com potencial de alcançar até R$ 2 bilhões em capital total. O BNDES e a Vale atuam como investidores âncora, estratégia que pode atrair recursos adicionais e reduzir a percepção de risco em projetos com alto grau de incerteza geológica e necessidade de capital intensivo.

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O fundo tem como foco empresas de pesquisa mineral e desenvolvimento de minas no Brasil, com prioridade para minerais críticos — incluindo terras raras, altamente disputadas por seu uso em componentes estratégicos, como ímãs permanentes e tecnologias avançadas.
Com a combinação de demanda global, interesse geopolítico e instrumentos de financiamento, especialistas observam que o Brasil registra um número crescente de projetos em desenvolvimento. Nesse ambiente, ativos de menor porte podem se tornar alvos preferenciais de aquisições, especialmente por empresas que buscam acelerar presença em cadeias produtivas estratégicas e reduzir dependência de fornecedores concentrados.
A expectativa é de aumento do interesse por mineradoras e projetos ligados a terras raras em estados como Goiás e Minas Gerais. Também há atenção voltada ao lítio no Vale do Jequitinhonha, além de ativos de cobre e níquel considerados estratégicos para a indústria de baterias e para a transição energética.
Terras raras: foco em novos projetos e potencial estratégico global
Lítio: associado a baterias e eletrificação, com atenção ao Vale do Jequitinhonha
Cobre: essencial para eletrificação e infraestrutura energética
Níquel: relevante para baterias e ligas industriais
O avanço do Brasil na agenda de minerais críticos está ligado não apenas à extração, mas também à capacidade de criar uma cadeia de valor mais completa, com pesquisa, processamento e transformação. Ao mesmo tempo, o País precisa equilibrar previsibilidade regulatória, exigências socioambientais e atratividade de investimento, em um mercado onde o tempo de desenvolvimento de projetos se tornou um fator-chave de competitividade.
Para analistas, a forma como o Brasil organizará seus instrumentos de política pública e financiamento, além de garantir condições de execução de projetos, pode determinar o quanto o País conseguirá capturar oportunidades em um setor cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, segurança de suprimento e transição energética.
Em resumo: com licenciamento mais difícil em grandes polos mineradores, crescimento de instrumentos de financiamento e portfólio de projetos em expansão, o Brasil pode consolidar relevância na disputa global por minerais críticos — especialmente em terras raras, lítio, cobre e níquel — em um cenário de competição estratégica entre EUA e China.
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