Safra de uva 2026 no RS: qualidade excepcional impulsiona o vinho brasileiro e intensifica a competição com o Mercosul-EU
FruticulturaA Granja·Publicado em 18/03/2026·6 mins de leituraGrátis

Safra de uva 2026 no RS: qualidade excepcional impulsiona o vinho brasileiro e intensifica a competição com o Mercosul-EU

Safra gaúcha de uva registra melhoria de qualidade, maior volume e perspectivas diante do Mercosul-EU.

Safra de uva 2026 no RS: qualidade excepcional impulsiona o vinho brasileiro e intensifica a competição com o Mercosul-EU

Safra de uvas no Rio Grande do Sul ganha qualidade com clima mais seco e maturação avançada

Condições de inverno e primavera favorecem brotação, elevam grau de açúcar e reduzem podridão dos cachos; setor se prepara para concorrência maior com vinhos europeus.

A safra de uvas no Rio Grande do Sul avança com perspectiva de alta qualidade e volume expressivo, impulsionada por um ciclo climático marcado por ausência de frio extremo, chuvas moderadas e escassez hídrica em momentos decisivos para a maturação. A combinação favoreceu a brotação, reduziu problemas sanitários e contribuiu para um melhor equilíbrio entre açúcar, acidez e compostos responsáveis por cor e estrutura do vinho.

De acordo com Mauro Celso Zanus, pesquisador de enologia da Embrapa Uva e Vinho, o inverno considerado “bom” no Sul ajudou a garantir uma brotação mais uniforme, enquanto a primavera transcorreu sem episódios que comprometessem o desenvolvimento das plantas. Para o pesquisador, o padrão de chuva observado — suficiente para sustentar o vinhedo, mas sem excesso prolongado — favoreceu tanto as variedades precoces quanto as intermediárias e tardias.

Um dos efeitos mais relevantes do ciclo é o excelente grau de maturação dos cachos, o que tende a diminuir a incidência de podridões. Em anos com clima mais seco na fase final do amadurecimento, o setor costuma observar ganhos diretos em qualidade: no caso do suco, melhora a concentração e a expressão de sabor; no vinho, a seca pode contribuir para maior intensidade, melhor estabilidade de cor e equilíbrio de acidez, além de favorecer a maturação de taninos.

Mais tempo no vinhedo virou qualidade

Na avaliação de Mauricio Bonafé, gerente agrícola da Vinícola Aurora, a safra começou com sinais positivos já na brotação, favorecida pela ausência de ondas de frio intenso capazes de prejudicar o início do ciclo. Segundo ele, as temperaturas mais amenas observadas na primavera e no verão provocaram um atraso na colheita — em torno de duas semanas para variedades precoces e cerca de dez dias para as tardias —, mas o tempo extra acabou convertido em qualidade.

Bonafé destaca que o atual período de escassez hídrica na Serra Gaúcha tem sido decisivo para elevar o padrão da matéria-prima. Com chuvas regulares em parte do ciclo e intervalos secos mais longos em seguida, as plantas conseguiram acumular mais grau brix, indicador associado ao teor de açúcar na uva e um dos parâmetros essenciais para vinhos, espumantes e sucos.

Pontos observados na safra, segundo fontes do setor:

  • Boa brotação e desenvolvimento inicial sem danos por frio extremo;

  • Chuva moderada ao longo do ciclo, sem excesso prolongado;

  • Intervalos secos na fase final, favorecendo maturação e sanidade dos cachos;

  • Maior acúmulo de açúcar e potencial de equilíbrio de acidez;

  • Melhor pigmentação e estrutura em uvas destinadas ao vinho.

Projeções: aumento de volume e colheita se estendendo

Com o ciclo climático alongado, a colheita segue mais esticada no calendário, mas a expectativa de qualidade sustenta projeções otimistas. A Vinícola Aurora, uma das maiores do país, projeta colher 85 milhões de quilos de uva, avanço de 19% em relação ao volume do ano anterior e o maior patamar desde 2021. A estimativa é que a colheita se encerre no fim do mês, acompanhando o ritmo mais lento de maturação registrado em parte das áreas produtoras.

Em paralelo aos bons sinais agronômicos, especialistas apontam desafios operacionais. Entre os principais, estão a escassez de mão de obra no período de colheita e dificuldades de logística relacionadas ao alto volume, fatores que podem pressionar prazos e custos no transporte e na recepção das uvas.

Fator Impacto esperado Ausência de frio extremo Brotação mais estável e menor risco de dano no início do ciclo Chuvas moderadas Desenvolvimento sustentado sem excesso que favoreça doenças Escassez hídrica em fases-chave Maior qualidade: maturação, sanidade e concentração Colheita mais tardia Tempo adicional pode elevar qualidade, mas exige planejamento Logística e mão de obra Risco de gargalos em safra volumosa

Qualidade do vinho brasileiro em evolução e novos projetos no setor

Zanus avalia que a qualidade do vinho brasileiro vem evoluindo de forma consistente nas últimas duas décadas, sustentada por maior uso de tecnologia, melhorias no manejo e maior acesso a insumos e equipamentos antes restritos. Ele observa também mudanças no comportamento do consumidor, mais aberto a estilos jovens, com coloração viva e perfil frutado.

Além do avanço técnico nas vinícolas, a Embrapa atua em frentes como indicação geográfica e melhoramento genético, buscando variedades mais resistentes e que demandem menos aplicações durante o processo produtivo. Segundo o pesquisador, produtores têm demonstrado abertura para testar novas uvas, enquanto consumidores mostram maior interesse em experimentar diferentes perfis aromáticos e estilos.

O ganho de qualidade, segundo o enólogo, torna-se ainda mais estratégico diante da expectativa de aumento da concorrência com vinhos europeus, em um cenário em que o acordo Mercosul–União Europeia tende a ampliar a presença desses produtos no mercado.

“A melhora do padrão do vinho nacional é importante porque a concorrência deve aumentar com a entrada de produtos europeus em maior escala”, avalia o pesquisador.

Fruticultura: modelo regenerativo avança no cultivo de maçãs

Em outra frente do agro no Sul, a Rasip Agro, unidade da RAR Agro & Indústria, vem implantando gradualmente um novo modelo de produção de maçãs baseado em fruticultura regenerativa. A proposta busca conservar o solo e preservar mais água no campo, fortalecendo a resiliência do pomar diante de variações climáticas.

O manejo inclui uso de bioenergéticos e semeadura de diferentes espécies de cobertura vegetal no inverno e no verão, com a meta de formar “pontes verdes”, mantendo cobertura permanente nas linhas e entrelinhas ao longo do ano. Além de proteger o solo e racionalizar a água, o sistema pode aumentar o sequestro de carbono.

Para o presidente da RAR, Sergio Martins Barbosa, o investimento na saúde da planta fortalece a base do sistema produtivo e cria condições para ganhos sustentáveis de produtividade, com foco em estabilidade e longevidade do pomar.

Mercado de insumos: ureia registra alta rápida e cenário segue volátil

O mercado de fertilizantes também entrou no radar do produtor. A ureia registrou alta de 40% em um intervalo de duas semanas no mercado interno, refletindo um ambiente de curto prazo mais apertado para a oferta, com influência de fatores como valorização do petróleo e do gás natural e maior aversão a risco. Analistas apontam que o cenário tende a permanecer ajustado e volátil.

Para a cadeia produtiva, o movimento reforça a importância de planejamento e gestão de custos, especialmente em culturas dependentes de adubação nitrogenada, em um momento em que margens podem ser pressionadas por oscilações rápidas de preços.

Em resumo: o ciclo climático no Rio Grande do Sul vem favorecendo a safra de uvas, com maturação avançada e padrão de qualidade elevado, enquanto desafios de mão de obra e logística exigem atenção. O setor aposta em tecnologia, novas variedades e estratégias de diferenciação para competir em um mercado que pode se tornar mais concorrido, ao mesmo tempo em que outras cadeias, como a maçã, avançam em modelos regenerativos e produtores monitoram a volatilidade de insumos.

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