A América Latina pode enfrentar impactos desiguais caso se concretize um episódio de El Niño de forte intensidade no segundo semestre de 2026. Especialistas alertam para um cenário de risco crescente envolvendo inflação, redução do crescimento econômico e efeitos em cadeia sobre agricultura, energia, água e infraestrutura.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, há 61% de probabilidade de ocorrência de El Niño no trimestre de maio a julho, acima da estimativa anterior. Ainda assim, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que, com os dados disponíveis até agora, não é possível confirmar se o cenário evoluirá para um evento forte.
“É mais responsável falar de um risco crescente, não de uma certeza”, afirmou Bárbara Tapia Cortés, meteorologista e coordenadora técnica de serviços da OMM, destacando que o acompanhamento das condições oceânicas e atmosféricas deve continuar.
O El Niño é classificado, em geral, como fraco, moderado ou forte conforme a magnitude das anomalias de temperatura na região Niño 3.4 do Pacífico equatorial central. Mesmo sem confirmação de um episódio extremo, a comunidade científica enfatiza que medidas preventivas podem reduzir danos humanos, econômicos e ambientais.
O impacto potencial vai além de perdas agrícolas: choques de oferta tendem a elevar preços de alimentos e energia, com repercussões sobre a inflação e o custo de vida. Em paralelo, eventos como secas, enchentes e incêndios afetam qualidade da água, segurança alimentar e condições sanitárias, aumentando a vulnerabilidade de populações rurais e urbanas.
Se o El Niño de 2026 se assemelhar em intensidade ao observado em 2016, um dos efeitos mais prováveis seria a desaceleração do crescimento econômico. Em países andinos, estudos anteriores estimam que o PIB poderia cair entre 0,6 e 1,7 ponto percentual, dependendo do grau de severidade e da capacidade de resposta dos governos.
Além do crescimento menor, há risco de pressões fiscais: desastres climáticos exigem gastos emergenciais, enquanto a arrecadação pode enfraquecer com a desaceleração econômica. O resultado pode ser a combinação de mais despesas e menos receita em um momento de maior necessidade de investimento em prevenção, assistência e reconstrução.
A inflação pode subir principalmente pela via dos preços dos alimentos, já que o El Niño tende a afetar agricultura, pecuária, pesca e logística. A energia também é um canal relevante: em cenários de menor geração hidrelétrica, aumenta o uso de termelétricas, geralmente mais caras, elevando custos de geração e tarifas.
Especialistas também apontam que dificuldades logísticas — inclusive por limitações operacionais em rotas estratégicas — podem encarecer transportes e insumos, ampliando o efeito sobre os preços finais.
Os efeitos não são uniformes e variam por sub-região. Historicamente, há padrões mais prováveis, embora a intensidade e o timing possam mudar a cada episódio.
Região Risco mais frequente associado ao El Niño Possíveis efeitos Costa do Equador e do Peru Chuvas intensas Inundações, deslizamentos, danos à infraestrutura, impactos na pesca e na agricultura Corredor Seco da América Central e partes do norte da América do Sul Déficit de chuva e calor Seca agrícola, estresse hídrico, ondas de calor, queda de produtividade Amazônia, norte do Brasil e Pantanal Seca e altas temperaturas Incêndios, baixos níveis dos rios, impactos na água e no transporte fluvial Sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e nordeste da Argentina Chuvas acima da média Enchentes, excesso de umidade, prejuízos logísticos e agrícolas Sudeste e Centro-Oeste do Brasil Calor e irregularidade das chuvas Atrasos no plantio, maior risco de estresse hídrico e térmico
O Brasil aparece entre os mais vulneráveis devido à dimensão territorial e ao peso do agronegócio. O norte e parte do Nordeste tendem a enfrentar maior risco de seca e calor, enquanto o Sul pode ter excesso de chuva, inundações e impactos operacionais no campo.
Um dos efeitos mais importantes do El Niño na agricultura é a alteração dos calendários agrícolas. A mudança no início das chuvas pode atrasar semeaduras; em outras áreas, o excesso de precipitação pode saturar o solo e impedir operações de plantio e colheita.
Além do rendimento, os impactos incluem:
custos de produção mais altos (insumos, irrigação, energia, replantio);
menor disponibilidade de água para irrigação em regiões secas;
danos à infraestrutura rural por enchentes, deslizamentos e erosão;
aumento de pragas e doenças sob condições de calor e umidade;
pressão sobre a segurança alimentar e a renda de famílias rurais.
Entre as culturas mais vulneráveis, aparecem milho e feijão na América Central, especialmente em áreas de agricultura familiar, e soja em diversas regiões da América do Sul quando há seca ou chuvas excessivas em fases críticas. Também podem ser afetados arroz, café, cacau, cana-de-açúcar, pastagens e a pecuária, conforme a ameaça predominante em cada área.

O artigo aponta um triplo choque para o agro brasileiro em 2026: crédito doméstico mais restrito, custos de produção mais altos impulsionados por energia e uma crescente volatilidade climática associada a El Niño.

O setor elétrico é particularmente sensível ao El Niño na América Latina, onde cerca de 50% da energia é gerada por hidrelétricas. A redução de chuvas e vazões em bacias estratégicas pode desencadear um efeito em cadeia:
queda da geração hidrelétrica e pressão sobre reservatórios;
maior acionamento de termelétricas (gás, carvão e outras fontes);
aumento de custos e maior exposição a mercados de energia;
mais emissões e maior vulnerabilidade do sistema;
picos de demanda por refrigeração em períodos de calor.
Países com alta dependência hidrelétrica podem ser mais afetados em episódios de seca. Especialistas citam o Paraguai, a Costa Rica e a Colômbia entre os mais expostos, seguidos por Brasil e Panamá, embora os efeitos variem entre sub-regiões.
Para elevar a resiliência, especialistas defendem uma combinação de ações no setor energético, como diversificar a matriz, fortalecer interconexões regionais, aprimorar a gestão preventiva de reservatórios e ampliar fontes renováveis com soluções de armazenamento.
Também ganha relevância a eficiência energética, com incentivos para reduzir consumo de energia e água, além de regras que favoreçam a autogeração em residências e empresas por fontes renováveis, reduzindo a pressão sobre o sistema central.
Mesmo sem confirmação de um El Niño extremo, especialistas reforçam que o momento de preparação é agora. As perdas em eventos anteriores, em muitos casos, não decorreram apenas do clima, mas da combinação entre extremos, falta de planejamento e respostas tardias.
Medidas prioritárias incluem:
atualizar cenários de risco para agricultura, energia, água e saúde;
reforçar monitoramento climático e previsões sazonais;
elaborar planos de contingência para secas, inundações e incêndios;
verificar represas e abastecimento de água e protocolos de operação;
proteger a produção agrícola com assistência técnica, sementes adaptadas, irrigação eficiente e seguros;
coordenar órgãos de meteorologia, defesa civil, agricultura, energia, saúde e comunicações.
Do lado do setor produtivo, as recomendações passam por revisar calendários de plantio, avaliar disponibilidade de água, diversificar culturas e variedades, reforçar drenagem onde há risco de chuvas intensas, assegurar água e alimento para a pecuária e checar continuidade operacional em cadeias logísticas e energéticas.
Em destaque: Sistemas de alerta precoce multirrisco buscam transformar informação climática em decisões práticas antes do dano ocorrer, integrando conhecimento do risco, monitoramento e previsão, comunicação de alertas e capacidade de resposta.
Com impactos possíveis em água, alimentos, energia, saúde, incêndios, transporte, pesca e meios de subsistência, a orientação dos especialistas é clara: antecipação reduz custos, protege a população e diminui perdas.
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Resumo: Nesta quarta-feira (25/03/2026), o tempo começou nublado no norte de Mato Grosso, com 20°C (sensação 21°C) e 99% de umidade.