O agronegócio brasileiro enfrenta um dos seus momentos mais surpreendentes e controversos com a falência decretada do Grupo Pupin, até então uma referência na produção agrícola, especialmente algodão, no Mato Grosso. A situação da empresa, liderada pelo empresário José Pupin, conhecido no setor como o “Rei do Algodão”, tornou-se um símbolo da crise de gestão, conflitos judiciais e fraudes que podem redefinir regras e expectativas sobre grandes grupos agropecuários no Brasil.
Recuperação judicial iniciada em 2017
O Grupo Pupin entrou em recuperação judicial em outubro de 2017, como tentativa de reestruturar suas dívidas bilionárias. Mas ao longo de oito anos, o processo se arrastou, marcado por impasses legais, falta de transparência e sucessivos pedidos de credores por falência.
A recuperação, em números, envolvia um passivo inicialmente estimado em cerca de R$1 bilhão e que, conforme o passar do tempo, dobrou ou até ultrapassou R$2 bilhões, com fortes dificuldades operacionais para gerar receita suficiente para honrar compromissos.
Credores aprovam conversão da recuperação em falência
No final de 2025, após análises detalhadas da situação financeira, os credores do Grupo Pupin aprovaram por unanimidade a conversão da recuperação judicial em falência, reconhecendo a inviabilidade técnica e econômica da continuidade das operações.
Relatórios apresentados ao processo mostraram que o grupo não tinha mais condições mínimas de sustentar seus planos de recuperação, enfrentando a pressão de juros e correções que ultrapassavam R$350 milhões por ano, o que tornaria qualquer chance de ressurgimento praticamente impossível.

Pendências fiscais e questionamentos jurídicos
Paralelamente ao impasse financeiro, órgãos públicos e o Ministério Público estaduais reforçaram a pressão contra a manutenção da recuperação. A Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso (PGE) entrou com pedido de falência ao argumentar que a empresa não cumpriu acordos fiscais, deixou de pagar tributos e sequer apresentou Certidão Negativa de Débitos, requisito essencial para manutenção da recuperação judicial.
Além das questões fiscais, o processo foi marcado por acusações de falta de transparência, descumprimento de prazos e resistência no fornecimento de informações contábeis detalhadas à administração judicial, dificultando a avaliação real da situação econômica da empresa.
Investigações e disputas relacionadas ao processo
Mais grave ainda foi o envolvimento do caso com a Operação Sisamnes, da Polícia Federal, que investiga suposto esquema de venda de decisões judiciais e conluio entre consultorias e membros do Judiciário em processos de recuperação e falência de empresas do agronegócio. O nome do grupo e de empresas ligadas à sua reestruturação apareceram nas investigações.
O Grupo Pupin chegou a denunciar que parte das decisões e contratos que o afetaram foi resultado de fraudes operadas por consultorias que, segundo os próprios empresários, teriam se beneficiado às custas da gestão dos ativos do grupo.
Decretação da falência e liquidação dos bens
O desfecho da saga do Grupo Pupin foi selado com a aprovação da falência pelos credores e o trânsito do processo na 1ª Vara Cível de Campo Verde (MT), onde a questão agora segue os trâmites para liquidação judicial dos bens da empresa.
Para muitos analistas do setor, o caso marca não apenas o fim de um dos maiores produtores de algodão do país, mas também serve de alerta para outras grandes empresas do setor sobre os riscos da má gestão financeira, litígios judiciais embaraçosos e a importância da transparência operacional.
Impactos no Agronegócio
O colapso do Grupo Pupin traz implicações profundas para o agronegócio brasileiro. Credores e fornecedores agora enfrentam um longo processo de habilitação de créditos na massa falida, enquanto empregados e produtores parceiros lidam com a interrupção de contratos e incertezas sobre pagamentos pendentes. No mercado, a saída de um dos maiores produtores de algodão de Mato Grosso altera dinâmicas de fornecimento e negociação na cadeia produtiva. Ao mesmo tempo, o caso reacende o debate sobre governança corporativa, transparência financeira e a eficácia dos instrumentos de recuperação judicial no setor agropecuário, tradicionalmente exposto a riscos climáticos, oscilações de mercado e alta dependência de crédito.
Autor: Lucas Lopes | A Granja










