Quando Carlos Wagner publicou “O Brasil de Bombachas”, não entregou apenas um livro-reportagem: produziu um mapa humano da expansão cultural gaúcha pelo país, acompanhando personagens que deixaram o Sul para desbravar novas fronteiras agrícolas, abrir estradas, criar gado, plantar onde antes existia mato fechado e, sobretudo, levar consigo uma forma de viver. Seu trabalho, construído a partir de longas viagens, conversas à beira da estrada e da convivência com comunidades rurais, registra um fenômeno histórico profundo: o papel dos migrantes gaúchos na formação do agro brasileiro moderno.
A obra revela que essa migração não foi apenas econômica, foi identitária. O gaúcho que atravessou o Rio Grande do Sul rumo ao Centro-Oeste, Norte e Nordeste carregava não só o chimarrão, a bombacha, o respeito pelo cavalo e o gosto pelas festas de galpão, mas também uma visão de trabalho marcada pela família, pela disciplina campeira e pelo espírito pioneiro. É justamente no encontro entre a tradição e a fronteira agrícola que a narrativa de Wagner se desenvolve.

A epopeia que levou o Sul ao Brasil profundo
Embora cada personagem encontrado pelo autor tenha seu próprio enredo, existe um padrão revelador: o Brasil agrícola que hoje conhecemos foi, em grande parte, construído por gente que acreditou na ideia de fronteira. Wagner acompanha histórias de famílias que deixaram pequenas propriedades no Sul, sobretudo entre as décadas de 1960 e 1990, em busca de terras mais acessíveis e produtivas no Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e nos corredores que, décadas depois, formariam o Arco Norte. Esse deslocamento coincide com a expansão da pecuária, da mecanização, da agricultura de larga escala e com a consolidação das cadeias de soja e milho. Ele relata casais jovens que, com uma caminhonete antiga e algumas economias, iniciavam a vida em áreas recém-abertas, enfrentando estradas de barro, a falta de energia elétrica, a ausência de escolas e o isolamento profundo. Muitos erguiam o galpão antes da própria casa, priorizando a estrutura de produção antes do conforto. Em diversas passagens, Wagner deixa claro, por meio dos relatos desses migrantes, como esse movimento humano ajudou a consolidar os pólos agropecuários que hoje sustentam parte significativa do PIB rural brasileiro.
Cultura que viaja junto com o produtor
A capa, que mostra um viajante de bombachas à margem de uma estrada amazônica, sintetiza a metáfora central da obra: a cultura gaúcha não ficou circunscrita ao Pampa; ela acompanhou a expansão agrícola. Em regiões como Humaitá, Porto Velho e Vilhena, mesmo distantes do bioma original dessa tradição, os migrantes mantiveram hábitos como rodas de chimarrão, encontros ao som da
gaita, churrascos de chão que marcam a colheita e galpões improvisados que funcionam como centros comunitários.
Esses elementos não aparecem como folclore, mas como mecanismos de pertencimento, importantes para fixar famílias que enfrentavam distâncias enormes e desafios desconhecidos. No livro, Wagner mostra famílias que construíram uma vida nova com base no que trouxeram: o chimarrão como ritual diário, a bombacha como identidade e a música gaúcha como ponte entre passado e presente.

Casos reais que revelam a formação do Brasil rural moderno
A força do livro está nos episódios vividos no campo. Há relatos de produtores que abriram áreas na Amazônia,fazendo a própria derrubada, convivendo com o risco, a imprevisibilidade do clima e o desafio de dominar a terra antes de dominá-la economicamente. Wagner conta sobre gaiteiros e peões que se tornaram lideranças comunitárias em vilas agrícolas recém-formadas, organizando festas, leilões de gado e ações coletivas para construir escolas, postos de saúde e sedes de associações rurais. Narra famílias que transformaram pequenas clareiras em propriedades produtivas, depois integradas às cadeias de grãos e de carne. Em várias passagens aparecem também os encontros entre gaúchos e migrantes de outras regiões, resultando em trocas culturais e novos modos de organização comunitária. Tudo isso revela que a expansão do agro não é apenas uma linha econômica ascendente: é um processo social profundo, tecido por pessoas comuns que se tornaram protagonistas de uma revolução silenciosa.
Bombacha como símbolo do agro nacional
Ao longo do livro, Wagner constrói uma tese implícita: o gaúcho se tornou um símbolo do homem do campo brasileiro porque seu movimento migratório coincidiu com a modernização do agro. A bombacha reaparece como metáfora de resistência, adaptação e continuidade cultural. Em muitas regiões agrícolas, mesmo naquelas sem vínculo histórico com o Sul, descendentes desses migrantes ocupam posições de liderança em cooperativas, sindicatos rurais e associações agropecuárias, levando consigo valores de trabalho coletivo, disciplina, confiança comunitária e uma ética rural familiar. A tradição, portanto, não surge como algo preso ao passado, mas como algo que se redefine junto com a modernização das lavouras, com a chegada da assistência técnica e com a profissionalização da atividade agrícola.
O legado que moldou o agronegócio brasileiro
O livro de Wagner confirma, por meio de histórias reais, aquilo que a história oficial do agro brasileiro reconhece: boa parte da expansão da fronteira agrícola foi impulsionada por famílias sulistas; valores culturais gaúchos influenciaram a organização comunitária e a ética de trabalho em novas regiões produtivas; e o agro brasileiro carrega até hoje traços desse movimento migratório, do churrasco
comunitário ao cooperativismo, da lida campeira à celebração das colheitas. O Brasil agrícola moderno é, em muitos aspectos, um Brasil de bombachas.
Autor: Lucas Lopes | A Granja










