
O Brasil pode enfrentar um cenário de pressão sobre o abastecimento de fertilizantes caso a guerra no Oriente Médio se intensifique. O alerta é do professor de agronegócios globais do Insper, Marcos Jank, que aponta a elevada dependência externa como principal vulnerabilidade: o País importa cerca de 85% de todo o fertilizante que consome.
Segundo Jank, o tema ganha relevância não apenas para o agronegócio e para a economia, mas também para a segurança alimentar. O fornecimento regular e a previsibilidade de preços de insumos são fatores críticos para a produção agrícola, que sustenta cadeias de abastecimento de alimentos e impacta diretamente o custo de vida.
De acordo com o professor, o Brasil importa aproximadamente 45 milhões de toneladas de fertilizantes por ano. Entre os principais fornecedores estão Rússia, Canadá, Marrocos, Arábia Saudita e China. Essa composição revela uma dependência relevante de rotas comerciais longas e de regiões sujeitas a tensões geopolíticas.
Em um contexto de escalada militar no Oriente Médio, o risco, na avaliação de Jank, não se limita ao fornecimento direto de produtos. A instabilidade pode desencadear uma cadeia de efeitos que atinge energia, produção industrial e logística global — elementos decisivos para a indústria de fertilizantes.
“O maior impacto da guerra é o aumento do preço do petróleo, do gás natural e dos fertilizantes. Principalmente dos fertilizantes nitrogenados, setor no qual o Oriente Médio é superimportante.”
Jank destaca que o aumento do preço do petróleo e do gás natural costuma ser um dos primeiros reflexos de conflitos na região. Isso é decisivo para os fertilizantes nitrogenados, cuja produção depende intensamente de gás natural como matéria-prima e fonte de energia.
Embora a China tenha um papel ainda mais relevante no mercado global, o professor chama atenção para conexões indiretas: a China compra gás natural no Oriente Médio para sustentar sua indústria de nitrogenados. Assim, choques no fornecimento ou no preço do gás podem repercutir em toda a cadeia mundial, pressionando custos e disponibilidade para importadores como o Brasil.
Alta de preços de energia e insumos, com efeito imediato no custo de produção agrícola;
Risco logístico em rotas marítimas sensíveis e gargalos em cadeias globais;
Maior competição por oferta entre países importadores, em caso de restrições;
Pressão sobre planejamento de safra, sobretudo em culturas intensivas em fertilizantes.
O alerta sobre fertilizantes se insere em um conjunto mais amplo de temas que Marcos Jank afirma considerar estratégicos para o Brasil. Formado em Engenharia Agronômica pela ESALQ-USP, com mestrado em Política Agrícola na França e doutorado em Administração pela FEA-USP, o professor construiu trajetória que combina pesquisa acadêmica e atuação em organizações públicas e privadas.
Entre as experiências, ele já presidiu a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e também liderou iniciativas voltadas à integração internacional do agro. No setor privado, participa de conselhos e grupos consultivos ligados à agroindústria, sustentabilidade e inovação.
Ele também atuou no setor público e em organismos internacionais, com experiência ligada a comércio e integração, além de participação em conselhos voltados a relações internacionais e cooperação econômica.
“Na coluna, eu pretendo dar muito essa conotação internacional ao agronegócio. Além disso, pretendo trazer uma análise mais estrutural e densa sobre o agronegócio.”
Além de fertilizantes e geopolítica, Jank reforça que a bioenergia deve ser reconhecida como um componente importante da transição energética global. Para ele, combustíveis renováveis e limpos podem reduzir a dependência de combustíveis fósseis — um ponto que volta ao centro do debate sempre que crises internacionais elevam a volatilidade do petróleo e do gás.
Esse pano de fundo, segundo o professor, amplia a necessidade de o Brasil pensar o agro de forma estratégica: não apenas como produção, mas como segurança alimentar, competitividade, estabilidade de cadeias de suprimento e inserção internacional.
Fator Impacto potencial Preço do petróleo Elevação de custos energéticos e pressão inflacionária na cadeia Preço do gás natural Aumento do custo de produção de fertilizantes nitrogenados Oferta global de fertilizantes Risco de restrições, atrasos e maior disputa entre importadores Dependência brasileira 85% do consumo vem de importações, elevando vulnerabilidade
Em síntese, a intensificação da guerra no Oriente Médio pode pressionar energia e fertilizantes, especialmente os nitrogenados, e ampliar o risco de instabilidade para um país que depende majoritariamente de importações. Para especialistas, o cenário reforça a importância de planejamento, gestão de risco e visão estratégica sobre cadeias globais que sustentam a produção de alimentos.
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