
A combinação entre queda nos preços das commodities agrícolas, piora na relação de troca e alta recente dos fertilizantes tem levado produtores rurais a adiar decisões de compra, aumentando o risco de concentração de pedidos e possíveis gargalos logísticos nos próximos meses. O cenário, observado durante a Expodireto Cotrijal, no Rio Grande do Sul, pode afetar diretamente o planejamento da safra e a estratégia de manejo nutricional das lavouras.
Executivos do setor avaliam que, em anos de margem mais apertada, a tendência inicial do produtor é reduzir tecnologia. No entanto, a recomendação predominante é outra: reforçar a gestão “da porteira para dentro”, com foco simultâneo em controle de custos, produtividade e rentabilidade.
A relação de troca — indicador que mede quantas sacas de grãos são necessárias para comprar uma tonelada de fertilizante — se deteriorou nos últimos meses, pressionando o caixa do produtor e dificultando o timing de compra.
Cultura Relação de troca (atual) Comparação mencionada Soja 26 sacas por tonelada Antes: 24 sacas Milho 61 sacas por tonelada Comparativo citado: 43 sacas
De acordo com representantes da indústria, parte do atraso nas compras está ligada à expectativa de produtores por uma combinação mais favorável entre o preço do insumo e o valor de venda do grão. A estratégia, porém, pode ter efeito colateral: adiar demais pode concentrar a comercialização e elevar o risco de “estresse logístico” em janelas críticas de entrega.
O cenário pode se tornar ainda mais desafiador. Nas últimas semanas, a escalada de tensões no Oriente Médio elevou os preços de fertilizantes e de matérias-primas-chave, piorando a relação de troca. A avaliação no setor é que, se houver estabilização do conflito, parte da pressão pode se dissipar; caso contrário, a tendência é de manutenção da complexidade — ou até de agravamento.
Entre os insumos que registraram alta expressiva está o enxofre, componente relevante para a fabricação de fertilizantes fosfatados e com produção associada a países do Oriente Médio. O salto de preço foi acentuado, saindo de patamares bem mais baixos no início de 2025 para níveis muito superiores neste ano, antes mesmo do início da guerra, com nova aceleração após o conflito.
O produtor enfrenta mais dificuldade para prever o melhor momento de compra, porque os preços das matérias-primas nem sempre acompanham o mercado de grãos.
A leitura de que o ritmo está mais lento é compartilhada por diferentes empresas do setor. No caso do trigo, as compras para a safra 2026 estariam em torno de 40%, abaixo do padrão esperado para o período, geralmente entre 50% e 60%. Para a soja, as aquisições estariam em cerca de 35%, também abaixo da média histórica nesta época do ano.
Um ponto destacado por fontes do setor é o “descolamento” entre a dinâmica de preços dos grãos e a formação de custos de fertilizantes. Em ciclos anteriores, a lógica era mais direta: quando commodities subiam, fertilizantes acompanhavam; quando caíam, os insumos recuavam. Agora, a precificação de matérias-primas pode ser influenciada por outros segmentos industriais, tornando o planejamento mais incerto.
Além do enxofre, a oferta global também sofre pressões por fatores estruturais. Entre eles, a restrição das exportações de fosfatados pela China, que contribui para apertar o mercado e sustentar preços em níveis mais altos.
Empresas afirmam estar trabalhando para reduzir vulnerabilidades e mitigar risco de abastecimento, diversificando origens e fornecedores. Ainda assim, a combinação de demanda represada e cadeia internacional pressionada mantém o alerta aceso.
Em destaque: o setor teme que a postergação das compras, somada à alta de preços, gere picos de pedidos e maior disputa por produto e frete, especialmente em momentos próximos ao plantio.
Levantamentos de consultoria indicam aumento generalizado desde o começo da guerra, com avanço mais forte na ureia e reajustes também em fosfatados e potássicos. A alta, em diferentes intensidades, reforça a pressão sobre o custo por hectare e exige mais planejamento financeiro do produtor.
Ureia: alta expressiva no período, com forte impacto no custo de adubação nitrogenada.
MAP (fosfato monoamônico): reajuste relevante, influenciando principalmente sistemas com maior demanda de fósforo.
Cloreto de potássio (KCl): aumento mais moderado, mas ainda dentro de um contexto de preços elevados.
Para especialistas em gerenciamento de risco, a relação de troca deteriorada pode induzir parte dos produtores a reduzir investimento em fertilizantes, após “fazer muita conta” e buscar adequação do pacote tecnológico ao cenário de margens menores. Em choques anteriores, como no início da guerra da Ucrânia, o Brasil já registrou retração em volumes entregues no mercado doméstico.
Representantes de produtores indicam que a tendência, diante do encarecimento, é de queda na demanda em 2026, especialmente onde houver maior possibilidade de ajuste técnico. Uma das estratégias citadas é a reanálise detalhada do solo para identificar se há “poupança” de fósforo acumulada em áreas que historicamente receberam boa construção de fertilidade.
Ao mesmo tempo, entidades recomendam cautela para evitar compras antecipadas sem necessidade, reforçando que decisões devem ser baseadas em diagnóstico agronômico e planejamento financeiro, e não apenas na volatilidade do mercado.
A expectativa de analistas é que o ritmo mais lento de compras se mantenha ao longo do ano, influenciado principalmente pela piora na relação de troca. Por outro lado, como o plantio da soja ocorre no segundo semestre, parte do mercado avalia que ainda há tempo para normalização — especialmente se o cenário geopolítico não se prolongar.
Enquanto isso, a recomendação que ganha força no setor é combinar gestão de custos com proteção de produtividade, evitando cortes que comprometam o potencial produtivo e a rentabilidade da safra. Em um ambiente de incerteza, planejamento, compra escalonada e decisões guiadas por análise técnica tendem a ser diferenciais.

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