
Mesmo com vantagem econômica ampla em relação à gasolina na maior parte do país, o etanol hidratado (usado diretamente nos veículos flex) registrou queda nas vendas em maio, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Os dados são da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e indicam que o mercado ainda mantém uma preferência relativa pelo combustível fóssil, apesar da paridade de preços favorecer o biocombustível.
Segundo a Unica, as usinas do Centro-Sul venderam 1,772 bilhão de litros de etanol hidratado no mercado interno em maio, volume 2,8% menor do que o registrado em maio do ano passado. Na comparação com abril, houve alta de 1,5%.
O desempenho chama atenção porque, no mesmo período, o etanol hidratado já vinha apresentando condições de preço consideradas favoráveis para abastecimento em grande parte dos municípios pesquisados, o que normalmente impulsiona o consumo do biocombustível em veículos flex.
Enquanto o hidratado recuou no comparativo anual, o etanol anidro — aquele misturado à gasolina — teve movimento oposto. As vendas no mercado doméstico em maio cresceram 1,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo a Unica.
Na comparação mensal, o avanço foi ainda mais significativo: as vendas de anidro subiram 11,7% em maio frente a abril. Para o setor, esse comportamento reforça que, apesar da conta econômica apontar vantagem do etanol em muitos locais, parte dos consumidores continua optando pela gasolina — seja por hábito, percepção de autonomia, logística de abastecimento ou variações regionais de oferta.
De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) citados pela Unica, na última semana de maio o preço médio do etanol nos postos ficou em 63,7% do valor da gasolina no Brasil. No Estado de São Paulo, a relação foi ainda menor, de 60,7%.
Para a maior parte da frota flex, a referência usada pelo consumidor é a chamada paridade técnica. Em geral, considera-se que o etanol compensa quando custa até 70% do preço da gasolina, já que seu rendimento energético costuma ser menor. Em veículos mais recentes, porém, esse rendimento pode chegar a 75%, ampliando o intervalo em que o biocombustível pode ser competitivo.
Paridade técnica: como o etanol tende a render menos por litro, a comparação com a gasolina não é apenas de preço. Em muitos casos, o ponto de equilíbrio fica perto de 70%, podendo chegar a 75% em modelos flex mais eficientes.
A competitividade do etanol não ficou restrita aos grandes centros consumidores. No levantamento da ANP realizado entre 24 e 30 de maio, os preços do biocombustível ficaram abaixo da paridade técnica em 66% dos municípios avaliados.
Além disso, o etanol hidratado foi considerado economicamente mais vantajoso em todos os municípios pesquisados em seis estados: São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. O resultado indica uma tendência de competitividade mais disseminada, influenciada por fatores como produção regional, logística e dinâmica de preços nas bombas.
Etanol hidratado: queda anual nas vendas, apesar de preços vantajosos.
Etanol anidro: alta nas vendas, sugerindo maior consumo de gasolina.
Paridade de preços: etanol abaixo do patamar considerado competitivo na maioria dos municípios.
Exportações: recuo acentuado no mês e no acumulado da safra.
Produção: crescimento puxado por cana e milho, com destaque para o etanol de milho.
No comércio exterior, o setor continuou enfrentando um cenário de baixa. As exportações de etanol pelas usinas do Centro-Sul somaram 16,9 milhões de litros em maio, representando um recuo de 80,8% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
No acumulado da safra 2026/27 (considerando abril e maio), as vendas externas totalizaram 64,67 milhões de litros, queda de 56% no comparativo anual. O desempenho fraco das exportações pode aumentar a pressão para direcionamento do produto ao mercado doméstico, dependendo do ritmo de consumo interno e das condições de estocagem.
Do lado da oferta, a produção segue em alta, sustentada pelo avanço tanto do etanol de cana quanto do etanol de milho. Na segunda quinzena de maio, o volume produzido atingiu 2,13 bilhões de litros, um crescimento de 4,56% frente ao mesmo período do ano anterior.
O etanol de milho representou 19,41% da produção na quinzena, com 413,20 milhões de litros. O número corresponde a um crescimento de 12,38% no comparativo anual, evidenciando a ampliação do papel do cereal na matriz de biocombustíveis no Centro-Sul.
Apesar do avanço na produção total de etanol, o processamento de cana-de-açúcar apresentou desaceleração na segunda quinzena de maio. As usinas do Centro-Sul moeram 41,55 milhões de toneladas, volume 13,08% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior.
De acordo com a Unica, essa foi a primeira quinzena da safra em que a moagem ficou abaixo do resultado anual comparável. Ainda assim, no acumulado desde o início da safra, em abril, o processamento de cana permanece 15,81% acima do observado no mesmo intervalo da temporada passada, totalizando 144,71 milhões de toneladas.
Até o fim da segunda quinzena de maio, havia 250 unidades em operação, com três usinas a menos do que um ano antes. Esse fator também pode influenciar a dinâmica regional de oferta, o ritmo industrial e a disponibilidade de matéria-prima.
A menor oferta de cana na quinzena impactou a produção de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), indicador-chave para medir o potencial de fabricação de açúcar e etanol. No período, o ATR total ficou 12,13% abaixo do registrado na mesma quinzena do ano anterior.
O resultado negativo, porém, foi parcialmente compensado por uma melhora na concentração de ATR na cana processada. O indicador subiu 1,09%, alcançando 125,87 quilos por tonelada.
Indicador Resultado Tendência Vendas internas de etanol hidratado (maio) 1,772 bilhão de litros Queda anual e alta mensal Vendas internas de etanol anidro (maio) Crescimento em relação ao ano anterior Alta anual e alta mensal Paridade etanol/gasolina (Brasil, fim de maio) 63,7% Vantajoso para boa parte dos flex Exportações (maio) 16,9 milhões de litros Forte queda Produção (2ª quinzena de maio) 2,13 bilhões de litros Alta Moagem de cana (2ª quinzena de maio) 41,55 milhões de toneladas Queda
A combinação de preço competitivo do etanol hidratado, queda de vendas no comparativo anual e produção em alta pode influenciar o comportamento do mercado nas próximas semanas. Caso a vantagem econômica se mantenha e o consumidor reaja aos preços, o consumo interno pode ganhar tração. Ao mesmo tempo, a continuidade de exportações fracas tende a manter mais produto disponível internamente, enquanto variações na moagem de cana e na eficiência industrial (ATR) podem alterar o equilíbrio entre oferta e demanda.
Para o motorista, a recomendação prática permanece: comparar preços localmente e considerar o rendimento do veículo, já que a paridade pode variar por região e por modelo, especialmente em automóveis flex mais novos, nos quais o etanol tende a entregar desempenho mais próximo ao da gasolina.
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