
Biomassa de eucalipto em Mato Grosso impulsiona usinas de etanol de milho, enquanto MP-MT define proibição de floresta nativa até 2035
O texto aborda a escalada do uso de biomassa para atender usinas térmicas ligadas às agroindústrias, impulsionada pelos investimentos em usinas de etanol de milho em Mato Grosso. A demanda aquém da oferta de biomassa já levou ao uso até de florestas nativas, mas há um movimento público-privado para restringir isso: o Ministério Público de Mato Grosso conseguiu que o governo estadual se comprometa a proibir o uso de floresta nativa para energia até 2035, o que deve acelerar o plantio de eucaliptos, que demoram seis a sete anos para maturar.
Corrida pelo eucalipto ganha força em Mato Grosso após disparada do etanol de milho e pressão para frear uso de floresta nativa
A crescente demanda por biomassa para abastecer usinas térmicas ligadas às agroindústrias voltou ao centro do debate em Mato Grosso. Embora o uso de biomassa como fonte de energia não seja novidade no setor, a onda de investimentos em usinas de etanol de milho nos últimos anos gerou um vácuo de oferta que, em parte, passou a ser preenchido até por vegetação nativa — um movimento que expôs contradições e acelerou a busca por alternativas sustentáveis.
A lógica do mercado criou um contrassenso: enquanto o etanol de milho é promovido como biocombustível capaz de reduzir a dependência de combustíveis fósseis, parte da energia usada em seu processamento pode vir da queima de biomassa oriunda de florestas nativas. A escassez de matéria-prima plantada suficiente, especialmente de eucalipto, ajudou a formar esse cenário.
Oferta insuficiente: conta não fecha para abastecer as usinas
Estimativas do setor indicam que, se todas as usinas de etanol de milho do estado utilizassem exclusivamente biomassa de eucalipto, seria necessário manter mais de 400 mil hectares da árvore plantados. No entanto, a área cultivada não chega a 200 mil hectares, ampliando a pressão sobre fontes alternativas de biomassa e elevando o risco de avanço sobre áreas de vegetação nativa.
Essa lacuna tende a influenciar o mercado por vários anos. A projeção é que a procura por biomassa continue elevada por um ciclo prolongado, inclusive para atender usinas já em instalação, independentemente da abertura de novas unidades. Como o eucalipto leva seis a sete anos para atingir maturidade para colheita, decisões de plantio precisam ser tomadas com antecedência.
Compromisso para 2035 deve acelerar plantios já agora
Para conter a pressão sobre a vegetação, o Ministério Público de Mato Grosso articulou um compromisso para que o governo estadual estabeleça a proibição do uso de biomassa de floresta nativa no atendimento da demanda de energia das agroindústrias a partir de 2035.
Embora faltem anos para a implementação total da regra, o efeito prático tende a ser imediato: o setor já se movimenta para ampliar a base de oferta de biomassa plantada, principalmente com florestas de eucalipto. O motivo é simples: esperar a regra entrar em vigor pode significar chegar tarde, já que o ciclo da cultura exige planejamento de longo prazo.
Demanda em alta impulsiona preços e margens do cavaco
Com a demanda aquecida, o cavaco de madeira de eucalipto virou um ativo valorizado no estado. Desde 2019, o preço do metro cúbico saltou de R$ 30 para R$ 140, fortalecendo a atratividade do plantio para produtores e empresas com capacidade de esperar o retorno do investimento.
A mudança de patamar também mexeu com a comparação entre culturas tradicionais e a floresta plantada. A partir de 2024, o eucalipto passou a entregar margem significativamente superior à de grãos, segundo executivos do setor. Em termos de receita estimada por área, o eucalipto pode chegar a cerca de R$ 92 mil por hectare, enquanto a soja gira em torno de R$ 35 mil por hectare.
Girassol amplia florestas: de uso em áreas marginais à aposta estratégica
Um exemplo desse movimento é a Girassol, que iniciou o plantio de eucalipto há cerca de 18 anos como forma de aproveitar áreas menos aptas à produção de grãos. A partir de 2019, com a instalação das primeiras usinas de etanol de milho no estado, a empresa identificou o potencial comercial do eucalipto e acelerou a expansão das áreas florestais.
Atualmente, a companhia comercializa 1 milhão de metros cúbicos de cavaco para uma grande compradora do setor de etanol e mantém 10,5 mil hectares de eucalipto, com previsão de colheita até 2031. A expectativa é que esse volume represente uma receita total estimada em R$ 1 bilhão no período.
Apesar do avanço, o eucalipto ainda ocupa uma fatia menor do faturamento anual total da empresa. Em um faturamento aproximado de R$ 1,1 bilhão ao ano, a floresta responde por cerca de R$ 100 milhões. Ainda assim, a importância estratégica cresce à medida que o mercado de biomassa se consolida e a demanda por energia nas cadeias agroindustriais aumenta.
Investimento é alto e exige fôlego: retorno só após vários anos
A expansão do eucalipto exige capital e paciência. A estimativa é que o investimento nas novas áreas fique entre R$ 18 mil e R$ 20 mil por hectare, considerando desde o plantio até o último ano de tratos culturais. No total, o desembolso pode chegar a R$ 80 milhões.
O principal desafio, segundo relatos do setor, é ter recursos disponíveis e sustentar o ciclo de espera até o corte, que pode levar cerca de sete anos. Em um ambiente de juros elevados, o financiamento se torna menos atraente, o que leva empresas a dependerem mais de capital próprio e da geração de caixa de outras culturas agrícolas.
Crédito ainda é limitado, apesar de ajustes dos bancos
Mesmo com a expansão do mercado, as opções de financiamento para floresta plantada ainda são consideradas restritas. Instituições financeiras têm ajustado linhas para atender a demanda do eucalipto, mas a oferta segue aquém do necessário para uma expansão acelerada em escala estadual.
Na prática, isso reforça a vantagem competitiva de grupos que já possuem operações consolidadas em soja, milho e algodão, capazes de usar a renda dessas atividades para bancar parte do investimento florestal. Ao mesmo tempo, limita a entrada de produtores menores, que dependem mais do crédito para realizar o plantio.
O que está em jogo: energia, sustentabilidade e planejamento de longo prazo
O cenário em Mato Grosso indica que a transição para biomassa de origem plantada deve ganhar velocidade. A combinação de pressão regulatória, alta de preços e crescimento do etanol de milho tende a manter o tema no radar de empresas, produtores, órgãos de controle e da sociedade.
Se a meta é reduzir a dependência de combustíveis fósseis, o caminho passa por garantir que a energia usada na cadeia produtiva também seja obtida de forma sustentável. Nesse contexto, a ampliação de florestas plantadas de eucalipto surge como uma das alternativas mais imediatas, mas que exige capital, tempo e coordenação para evitar novos desequilíbrios de oferta.
Resumo dos principais pontos
Demanda por biomassa cresceu com a expansão do etanol de milho em Mato Grosso.
Há um déficit de oferta de eucalipto plantado em relação ao que as usinas exigiriam.
Compromisso prevê proibição do uso de floresta nativa para energia das agroindústrias em 2035.
Preço do cavaco subiu fortemente desde 2019, elevando a atratividade do eucalipto.
O investimento é alto e o retorno é de longo prazo, com ciclo de 6 a 7 anos até a colheita.
Indicadores do mercado (seleção)
Indicador Referência Área de eucalipto necessária para suprir usinas (se 100% eucalipto) Mais de 400 mil hectares Área de eucalipto existente Menos de 200 mil hectares Preço do cavaco (2019 → atual) R$ 30 → R$ 140 por metro cúbico Ciclo até maturidade do eucalipto 6 a 7 anos
```



