
A safra de inverno 2026 no Rio Grande do Sul tende a ser marcada por um cenário de incerteza no campo, pressionado por dificuldade de acesso ao crédito, endividamento rural elevado e pela previsão de um possível El Niño forte ou muito forte. A combinação desses fatores já influencia decisões de plantio em diferentes regiões do Estado, com recuo esperado em culturas tradicionais — especialmente o trigo — e avanço expressivo da canola, que segue ganhando espaço como alternativa de rentabilidade e diversificação.
As estimativas iniciais da Emater/RS-Ascar indicam que a produção conjunta de trigo, canola, cevada e aveia branca deve alcançar 3,733 milhões de toneladas, volume 22,15% menor do que o registrado em 2025. A área cultivada com as quatro culturas é projetada em 1,575 milhão de hectares, representando redução de 10,76% na comparação com o ciclo anterior.
Principal cultura de inverno do Estado, o trigo deve apresentar o recuo mais acentuado. A produção está estimada em 2,199 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 36,39% em relação à safra passada. A área cultivada deve diminuir para 814 mil hectares, com retração superior a 30%.
Segundo a Emater, o desinteresse crescente pela cultura reflete a soma de fatores que vêm se intensificando nos últimos anos: instabilidade climática recorrente, aumento de custos de produção e restrições de financiamento. Em um contexto de maior risco, produtores tendem a reduzir a exposição a culturas que exigem investimento elevado e podem ter a qualidade do grão comprometida por excesso de umidade durante colheita.
Na contramão da retração do trigo, a canola no Rio Grande do Sul deve ampliar sua presença no campo. A expectativa é de que a área cultivada ultrapasse 353 mil hectares, mais do que o dobro do observado em 2025. A produção projetada é de 571.975 toneladas, com crescimento acima de 100% em comparação ao ciclo anterior.
O avanço é associado à entrada e ao fortalecimento de empresas fomentadoras, que têm oferecido assistência técnica, incentivos para implantação e contratos com preços futuros, trazendo maior previsibilidade comercial para o produtor. Esse tipo de estrutura tem pesado na decisão de plantio, especialmente em um ano de crédito mais restrito e de maior cautela no investimento.
“Os produtores acreditam mais na canola, mesmo com previsão de chuva, do que no trigo.”
— Eduardo Marchezan, produtor rural em Alegrete (RS)
Em Alegrete, o produtor rural Eduardo Marchezan relata que a confiança na canola segue elevada entre agricultores, mesmo com projeções de chuva acima da média para os próximos meses. Ele afirma que sua propriedade esteve entre as pioneiras na diversificação de culturas de inverno na região, ao longo dos anos, com experiências em trigo, canola, girassol e painço. Ainda assim, nesta temporada, ele decidiu não plantar canola devido ao cenário climático previsto.
A decisão individual, no entanto, não mudou a tendência regional percebida por ele: aumento de área com canola e também com carinata. Para Marchezan, a presença mais robusta das empresas do setor oferece segurança comercial e contribui para sustentar a expansão mesmo em um ambiente de risco.
Além da canola, outra oleaginosa começa a ganhar terreno no Estado: a carinata, usada na produção de combustível sustentável para aviação. Para esta safra, a expectativa é que a cultura ocupe mais de 12 mil hectares, com maior presença nas regiões de Santa Rosa, Ijuí e Bagé. A carinata aparece como mais uma opção de diversificação para propriedades que buscam reduzir riscos e melhorar a rentabilidade em anos de maior instabilidade.
No campo climático, especialistas alertam para a possibilidade de um El Niño forte ou muito forte na primavera. De acordo com o coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro), Flávio Varone, os modelos meteorológicos apontam alta probabilidade de ocorrência do fenômeno, que tende a elevar as chuvas acima da média histórica e as temperaturas em todo o Rio Grande do Sul.
O excesso de umidade pode impactar tanto as culturas de inverno quanto as de verão. Entre os principais efeitos esperados estão:
Maior incidência de doenças favorecidas por alta umidade;
Dificuldade de operações no campo, como pulverizações e manejo;
Problemas na colheita por janelas curtas e solo encharcado;
Risco à qualidade dos grãos, com perdas por deterioração e umidade.
Para a próxima safra de verão, a preocupação inclui atrasos na semeadura e aumento de problemas fitossanitários, ampliando custos e exigindo planejamento mais rigoroso.
Abaixo, um resumo das projeções mencionadas para a safra de inverno 2026 no Rio Grande do Sul:
Indicador Projeção Variação vs. 2025 Produção total (trigo, canola, cevada e aveia branca) 3,733 milhões de toneladas -22,15% Área total das quatro culturas 1,575 milhão de hectares -10,76% Trigo (produção) 2,199 milhões de toneladas -36,39% Trigo (área) 814 mil hectares > -30% Canola (produção) 571.975 toneladas > +100% Canola (área) > 353 mil hectares mais que o dobro Carinata (área) > 12 mil hectares em expansão
Mesmo com o quadro de incertezas econômicas e climáticas, a expansão da canola evidencia um movimento de adaptação no campo: produtores buscam culturas com melhor suporte comercial e técnico, que reduzam a exposição a perdas e contribuam para sustentar a renda da propriedade. Enquanto o trigo enfrenta um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos, a canola se consolida como uma das principais apostas do inverno gaúcho, ao lado de novas opções de diversificação como a carinata.

A São Martinho apresentou forte desempenho no quarto trimestre da safra 2025/26, com lucro líquido de 172,8 milhões de reais, alta de 64,6% ante o mesmo período do ano anterior. A empresa concentrou as vendas de etanol para o fim da safra, tirando proveito da alta de preços na entressafra, o que elevou a lucratividade do período. Do total de etanol produzido na safra, 39,6% foi vendido no 4T a preços 4% superiores, resultando em uma receita de etanol de 1,4 bilhão de reais no trimestre, e a receita líquida do 4T atingiu 2,2 bilhões de reais, alta de 29,1%.

A Raízen está avaliando seu “tamanho ótimo” para reduzir o endividamento e voltar a ser a companhia mais eficiente do mercado. Em teleconferência sobre os resultados trimestrais, o CEO Nelson Gomes informou que os desinvestimentos para reduzir a capacidade de moagem de cana-de-açúcar devem continuar, com quase 20 milhões de toneladas já vendidas ou desmobilizadas nesse processo. O objetivo é ajustar o portfólio e avançar no plano de redução de dívida. Gomes destacou que a trajetória seguirá de forma ordenada e sem pressa, e que a velocidade pode variar conforme surgirem oportunidades de mercado. Em síntese, a empresa mantém o foco na eficiência operacional e na redução de dívida por meio de desinvestimentos estratégicos.