
Setor vive período de ajuste após ciclo de investimentos; estratégia prioriza desenvolvimento de cultivares e novas tecnologias, sem expansão de infraestrutura.
O mercado brasileiro de sementes de soja atravessa um período de acomodação após um ciclo recente de otimismo e investimentos, que ampliou a capacidade de produção e resultou em excesso de oferta. A avaliação é de Balbi, executivo da Seedcorp HO, que aponta o momento como desafiador, porém passageiro, em meio a um cenário de ajustes na cadeia.
Segundo ele, há cerca de três anos o setor, impulsionado pelo bom humor do agronegócio, direcionou recursos para estrutura e unidades de beneficiamento de sementes. A consequência, no entanto, foi uma oferta acima da demanda. “Não deixa de ser um momento difícil, mas que vai passar”, sintetiza.
Para “atravessar a tormenta”, a Seedcorp HO aposta em um caminho centrado em pesquisa, inovação genética e desenvolvimento de novas cultivares. A empresa mantém investimentos anuais entre US$ 4 milhões e US$ 5 milhões em pesquisa, patamar considerado estável nos últimos três anos.
Destaque: Em um ambiente de capacidade ociosa e juros elevados, a estratégia prioriza genética e tecnologia, não a construção de novas unidades de beneficiamento.
A estratégia de crescimento da Seedcorp HO para os próximos anos não prevê investimentos em ativos fixos, como a construção de novas unidades de beneficiamento. O motivo, de acordo com Balbi, é a existência de capacidade ociosa no Brasil para a produção de sementes de soja, somada a um cenário de custo financeiro elevado.
“Em um momento de capacidade ociosa e de juros absurdamente caros, não faz sentido investir em ativos fixos”, afirma o executivo, ao explicar por que a companhia direciona esforços para o que considera ser o principal diferencial competitivo: pesquisa aplicada e melhoramento genético.
O mercado de sementes de soja movimenta mais de R$ 30 bilhões por ano no Brasil e é sustentado por dois pilares: biotecnologia e melhoramento genético. É dessa combinação que surgem as sementes comercializadas aos produtores rurais, em um setor em que performance agronômica, estabilidade e adaptação regional fazem diferença no resultado em campo.
Pilar O que entrega ao produtor Como a empresa atua Biotecnologia Tecnologias embarcadas, como eventos e plataformas que ampliam proteção e manejo Licencia plataformas e as incorpora às sementes levadas ao mercado Melhoramento genético Cultivares com maior adaptação, produtividade e estabilidade Desenvolve cultivares por meio de programa próprio
Balbi atribui a perda de participação de mercado vivida pela Seedcorp HO a um período de transição tecnológica, marcado pela migração para a Intacta 2 Xtend (I2X), tecnologia desenvolvida pela Bayer. De acordo com o executivo, essa mudança exigiu uma renovação das cultivares, e o ritmo dessa atualização ficou abaixo do esperado inicialmente.
“Nós passamos por um momento de renovação de portfólio devido à tecnologia, saindo a Intacta e indo para a I2X. Tínhamos produtos muito robustos de Intacta. Essa renovação de portfólio foi mais devagar do que imaginávamos”, explica.
Agora, segundo ele, o portfólio começa a atingir um estágio de maturidade, o que sustenta a expectativa de retomada. A companhia espera crescimento nas vendas das cultivares atuais e vê a chegada de novas tecnologias como um motor adicional para recuperar espaço no setor.
Objetivo no curto prazo: recuperar o desempenho perdido no ciclo anterior.
Estratégia central: acelerar inovação genética e incorporar novas tecnologias licenciadas.
Abordagem financeira: evitar expansão de infraestrutura em cenário de juros altos.
Mesmo com aumento de custos e com o patamar de preços da soja no radar do produtor, Balbi afirma não enxergar um movimento relevante de crescimento no uso de sementes salvas ou sementes piratas na próxima safra. A avaliação considera, inclusive, a complexidade logística e operacional de produzir e armazenar sementes fora do circuito certificado.
Conforme dados da CropLife Brasil, a semente pirata representa 11% do mercado no país. Ainda assim, o executivo destaca que “colher semente” demanda planejamento antecipado, escolhas técnicas e infraestrutura adequada, o que limita a adesão generalizada, especialmente em regiões com desafios específicos de clima e calendário agrícola.
Ele ressalta que o produtor que pretende reservar parte da produção como semente precisa decidir com antecedência onde irá colher, onde fará a secagem e qual material será priorizado, buscando, por exemplo, condições para colher grãos mais secos. Essas exigências ganham peso em áreas como o Cerrado, onde a dinâmica de produção pode envolver safrinha e janelas mais apertadas.
Até mesmo no Rio Grande do Sul, estado com histórico de uso mais elevado de sementes salvas, Balbi projeta aumento do uso de sementes certificadas na próxima temporada, sugerindo que a busca por produtividade, segurança e desempenho agronômico tende a prevalecer.
Em foco: Para o setor, o custo e a complexidade de produzir semente própria, somados à necessidade de previsibilidade, reduzem a probabilidade de uma migração ampla para alternativas não certificadas.
A confirmação do El Niño, caracterizado por mudanças no regime de chuvas, não altera a estratégia da Seedcorp HO no horizonte de longo prazo. Balbi afirma que os acionistas têm histórico de atuação em ciclos positivos e negativos do agronegócio, mantendo a visão estratégica mesmo diante de maior volatilidade climática.
Para o executivo, o setor já está habituado a alternar anos com condições melhores ou piores, e isso não muda o foco de investimentos em inovação. Ele também observa que, embora perdas pontuais em estados como Rio Grande do Sul e Mato Grosso possam afetar determinadas áreas em determinados ciclos, a produção brasileira de soja segue uma trajetória de crescimento.
Esse avanço, segundo Balbi, é sustentado pela diversidade climática e geográfica do país e por ganhos constantes em genética e tecnologia, fatores que ajudam a diluir impactos regionais e a impulsionar a competitividade do Brasil no cenário global.
Panorama: Com o mercado ajustando oferta e demanda, a tendência apontada pelo setor é de foco em eficiência e inovação, combinando melhoramento genético e biotecnologia para aumentar o desempenho das lavouras e sustentar a expansão da soja no Brasil.

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