
O agronegócio brasileiro acompanha com atenção a escalada do conflito no Oriente Médio, região estratégica para o comércio exterior do país. O setor avalia riscos tanto para o escoamento de exportações (com destaque para carnes, milho e soja) quanto para a importação de insumos essenciais, especialmente fertilizantes nitrogenados.
No centro das preocupações estão possíveis restrições logísticas em rotas-chave, como o Estreito de Ormuz, e o aumento de custos decorrente de mudanças de rota, maior tempo de viagem e encarecimento de fretes e seguros. O cenário também tende a afetar indiretamente a cadeia de abastecimento e, por consequência, a dinâmica de preços de alimentos e energia.
O Oriente Médio é um destino relevante para produtos agropecuários brasileiros. O Brasil é líder na produção de carne halal, abatida conforme preceitos islâmicos, e parte do fluxo comercial depende de corredores marítimos sensíveis às tensões geopolíticas.
As exportações brasileiras de carne bovina para países árabes encerraram 2025 com alta de 1,91% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 1,79 bilhão, segundo dados setoriais. Apesar do crescimento, o setor avalia que eventuais interrupções de rota podem elevar custos e exigir readequação logística.
Mesmo em cenários de instabilidade, contratos não são automaticamente suspensos. Na prática, exportadores podem buscar alternativas, como rotas pelo Mediterrâneo, porém essas opções tendem a ser mais caras e mais complexas.
Entidades do setor informam que monitoram o ambiente operacional e, até o momento, não há confirmação generalizada de impactos imediatos em todas as empresas. Ainda assim, a avaliação predominante é de que a incerteza pode afetar decisões de embarque, seguros e precificação.
Exportadores de carne de frango já consideram mudanças no trajeto para manter os embarques ao Oriente Médio. Uma alternativa em avaliação é a rota pelo Cabo da Boa Esperança, ao sul da África, além de opções via Turquia e outros portos regionais. O ajuste tende a resultar em aumento de custos e demora na entrega.
O Oriente Médio responde por parcela significativa dos embarques brasileiros do setor de proteína animal. Entre os compradores, os Emirados Árabes Unidos se destacam como principal importador de frango do Brasil, com 480 mil toneladas adquiridas em 2025.
Um dos pontos mais sensíveis para a produção agrícola é o mercado de fertilizantes, especialmente a ureia. Em 2025, o Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil, movimentando US$ 66,8 milhões, configurando-se como o principal produto vendido pelo país persa ao mercado nacional.
Analistas apontam que o risco não se limita ao produto diretamente importado do Irã. O país também é fornecedor importante de gás natural utilizado na produção de fertilizantes por nações que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria. Caso haja interrupção no fluxo de gás, pode ocorrer queda na disponibilidade de matéria-prima e, por consequência, pressão sobre preços.
No mercado internacional, já se observa aumento de cotações. Em determinados polos, os preços da ureia se aproximaram de US$ 540 por tonelada, acima de níveis recentes que estavam próximos de US$ 490, indicando alta superior a 10%. A leitura do mercado é de que fornecedores aguardam maior clareza sobre a formação de preços antes de retomar ofertas regulares.
Ponto de atenção: países do Oriente Médio concentram fatias relevantes das exportações globais de fertilizantes: cerca de 40% da ureia, 28% da amônia e 29% do DAP. Em momentos de crise, a retirada de ofertas pode elevar volatilidade e ampliar o risco de repasse de custos no campo.
A alta de tensão no Oriente Médio também influencia os mercados de energia. Com a valorização do petróleo no mercado internacional, cresce a expectativa de melhora relativa na competitividade do etanol, já que o biocombustível tende a ganhar atratividade quando o combustível fóssil fica mais caro.
Contratos de referência do petróleo registraram avanço em sessões recentes, com o barril acima de US$ 70 em determinados momentos, reforçando a sensibilidade do setor agrícola a choques geopolíticos que afetam energia, logística e custos de produção.
Exportadores de frutas relatam preocupação com a suspensão temporária de operações marítimas rumo ao Golfo Pérsico por parte de algumas companhias, o que pode comprometer o envio de cargas à região. Quando há interrupções, parte da produção pode ser redirecionada a outros mercados, elevando a concorrência e pressionando margens.
Outro receio envolve a disponibilidade de contêineres nos próximos meses, em um cenário que lembra desequilíbrios logísticos observados em crises globais, com impactos sobre prazos, custos e planejamento de exportações.
O milho brasileiro também entra no radar. Em 2025, o Irã se consolidou como o maior importador do milho do Brasil, com 9 milhões de toneladas, o equivalente a 23% do total exportado pelo país. Mesmo assim, representantes do setor apontam que, além do risco comercial, a maior apreensão recai sobre a dependência de fertilizantes — sobretudo ureia — para a produtividade da cultura.
No caso da soja e do farelo de soja, há programação de carregamentos expressivos com destino ao Irã, o que amplia a incerteza sobre a continuidade de negócios e a definição de rotas. A avaliação do mercado é de que, com companhias evitando áreas sensíveis, cargas podem ser redirecionadas, sofrer atrasos ou ter seus custos recalculados.
Logística: mudanças de rotas marítimas, maior tempo de viagem e fretes mais caros.
Exportações: risco de atrasos em carnes, grãos e frutas; revisão de contratos e seguro de carga.
Fertilizantes: possível alta de ureia e nitrogenados por restrições de oferta e volatilidade.
Energia: petróleo mais caro pode influenciar custos no campo e melhorar a competitividade do etanol.
Abastecimento: risco de efeito indireto sobre preços de alimentos via custos de produção e transporte.
Segmento O que está em jogo Possíveis efeitos Carnes (halal, frango e bovina) Dependência de rotas marítimas e demanda do Oriente Médio Atrasos, rotas alternativas mais caras, maior custo de seguro Fertilizantes (ureia, amônia, DAP) Oferta global concentrada e sensível a gás natural e logística Alta de preços, menor disponibilidade e repasse ao custo de produção Milho Irã como grande comprador e forte uso de nitrogenados Risco comercial + pressão de custos com fertilizantes Soja e farelo Embarques programados e incerteza sobre rotas Redirecionamento de cargas, renegociação e atrasos Frutas Operações marítimas e disponibilidade de contêineres Suspensão temporária, sobrecarga em outros mercados e gargalos Etanol Relação de competitividade com a gasolina e o petróleo Potencial melhora de preço relativo em cenário de petróleo alto
Para o agro brasileiro, o momento combina volatilidade e ajustes operacionais. A tendência é que decisões de compra de insumos, contratação de frete, planejamento de embarques e formação de preços passem a incorporar prêmios de risco maiores. Caso as tensões persistam, o efeito pode se espalhar por diferentes cadeias — do campo ao transporte — com reflexos sobre custos e disponibilidade.
Contexto setorial: o acompanhamento de rotas, contratos e mercados de fertilizantes deve permanecer no centro das estratégias de mitigação, diante da dependência brasileira de importações para sustentar a produtividade agrícola.

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Resumo: Nos primeiros cinco meses deste ano, o agronegócio brasileiro apresentou desempenho heterogêneo entre blocos econômicos. A América do Norte somou US$ 5,7 bilhões em exportações, 20% abaixo do mesmo período de 2025, com a queda puxada pelos preços do café. Mesmo assim, carne bovina manteve demanda nos EUA e o México elevou 19% as compras de soja; houve também....

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