
Biogás transforma a suinocultura no Agreste Meridional de Pernambuco com biodigestores que reduzem custos e geram energia renovável
Um projeto piloto no Agreste Meridional de Pernambuco envolve 20 pequenos produtores de suínos que produzem biogás a partir das fezes, com investimento de R$ 327 mil financiado pelo Sebrae-PE e pela Adepe. Os biodigestores foram desenvolvidos, implantados e capacitados; o gás produzido (2 a 4 botijões por mês por biodigestor) serve para cozinhar, enquanto os resíduos se tornam biofertilizantes para palma e milho.
Projeto piloto leva biodigestores a 20 pequenos produtores de suínos em Pernambuco e transforma dejetos em biogás e biofertilizante
Um projeto piloto no Agreste Meridional de Pernambuco está ajudando 20 pequenos produtores de suínos a gerar biogás dentro das próprias propriedades a partir dos dejetos dos animais, ao mesmo tempo em que promove melhorias no manejo sanitário e na eficiência produtiva. A iniciativa recebeu investimento de R$ 327 mil, com recursos do Sebrae-PE e da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe).
Além de reduzir custos do dia a dia — como compra de gás de cozinha, lenha e adubo —, os biodigestores instalados no projeto também contribuem para diminuir impactos ambientais, como a contaminação do solo e da água por resíduos mal manejados. O programa atende produtores em São Bento do Una, Lajedo, Canhotinho e Tupanatinga.
Como funciona: dejetos viram energia e resíduo vira adubo
Os recursos do projeto foram aplicados no desenvolvimento, construção e implantação dos biodigestores, além de capacitações voltadas aos produtores. Na prática, o sistema transforma fezes e outros resíduos orgânicos em biogás, utilizado principalmente na cozinha, e gera um subproduto que pode ser reaproveitado como biofertilizante.
Segundo informações do Sebrae-PE, cada biodigestor pode produzir, em média, de dois a quatro botijões de gás por mês, variando de acordo com o número de animais e o volume de dejetos disponível. Os resíduos resultantes do processo têm sido aplicados principalmente na adubação de palma e milho, culturas que podem retornar ao sistema como ração para os suínos, fortalecendo uma lógica de ciclo produtivo na propriedade.
“O projeto também trouxe outra vantagem: os criadores começaram a tecnificar mais a produção, identificando problemas de saúde, melhorando a nutrição e adotando práticas que elevam a produtividade”, explica Lucas Araújo, especialista em Agronegócios do Sebrae-PE.
Metas: reduzir custos e acelerar o ciclo produtivo
Entre os objetivos da iniciativa está a redução de até 15% nos custos de produção. O projeto também trabalha com a meta de diminuir em 12% o tempo necessário para que os animais estejam disponíveis para abate, resultado esperado a partir de melhorias nas condições sanitárias, no manejo e no ambiente da criação. Para os produtores, o encurtamento do ciclo também significa menos despesas acumuladas ao longo do período de engorda.
Outro ponto destacado é a substituição de fontes tradicionais de energia. De acordo com Lucas Araújo, os participantes do projeto passaram a cozinhar integralmente com o gás gerado no biodigestor, reduzindo o uso de lenha. A perspectiva para os próximos passos é avançar para a conversão do biogás em energia elétrica.
Destaque: Além de economia direta, a adoção do biodigestor favorece a gestão de resíduos, melhora a ambiência dos animais e reduz riscos ambientais associados ao descarte inadequado de dejetos.
Relatos no campo: economia no gás e mais autonomia
Rafaela Brito: biogás na cozinha e ajustes para manter a produção
De família rural e formada como técnica em zootecnia, Rafaela Brito relata que o biodigestor trouxe benefícios imediatos no sítio onde vive, especialmente pelo uso do biogás para cozinhar. Segundo ela, a família reduziu a dependência do gás convencional e deixou de utilizar fogo a carvão, o que impacta diretamente o orçamento.
Rafaela também descreve um desafio operacional ligado ao perfil produtivo da propriedade: a criação é voltada para matrizes e venda de leitões por volta de 60 dias, o que pode reduzir a quantidade de dejetos disponíveis e, consequentemente, diminuir a produção de biogás em determinados períodos.
Para compensar a variação, a família utiliza macaxeira ou mandioca triturada como reforço orgânico para elevar a produção de gás. O resíduo final do biodigestor, por sua vez, tem sido reaproveitado como biofertilizante na adubação de palma e milho, que também entram na alimentação do rebanho.
Localizado em Lajedo, o sítio Alto do Cantinho tem 10 hectares e é dividido entre membros da família. Hoje, a propriedade mantém sete matrizes, dois reprodutores e 10 leitões desmamados, com planos de ampliar a criação com animais para engorda. Além do milho e mandioca, eles cultivam frutas como maracujá para consumo próprio.
Ivanice Gonçalves de Souza: menos lenha, menos gastos e mais estabilidade
Na zona rural de São Bento do Una, a criadora Ivanice Gonçalves de Souza afirma que, após o biodigestor entrar em operação, passou a economizar com a compra de gás e carvão, itens usados na cozinha, e também deixou de depender da lenha.
Em sua rotina, a compra de botijão representava um gasto recorrente, além do custo extra com carvão. Com o biogás, a família ganhou mais previsibilidade no orçamento e maior autonomia energética. Depois da implantação, Ivanice também recorreu a uma operação de microcrédito para comprar mais animais e fortalecer a produção de dejetos. No sítio, o biodigestor recebe não apenas os resíduos dos suínos, mas também de bovinos mantidos na propriedade.
Panorama da suinocultura no estado e desafios regionais
Pernambuco registrou um rebanho de 160.532 suínos em 2024, com São Bento do Una como principal município produtor, segundo dados oficiais. No Agreste Meridional, a suinocultura ainda é, em muitos casos, uma atividade complementar à bovinocultura de leite.
Entre os desafios apontados para o setor estão o aprimoramento técnico, a gestão adequada de resíduos e a necessidade de buscar novos mercados consumidores. Nesse contexto, o uso de biodigestores surge como alternativa capaz de combinar energia renovável, redução de custos e melhoria sanitária, reforçando a sustentabilidade na produção.
Principais resultados esperados do projeto
Frente Impacto esperado Energia Uso do biogás na cozinha e redução do consumo de lenha e gás convencional Custos Meta de reduzir em até 15% os custos de produção Produtividade Meta de reduzir em 12% o tempo até o abate com melhoria sanitária e manejo Meio ambiente Menor risco de contaminação do solo e da água por descarte inadequado de dejetos Biofertilizante Reaproveitamento do resíduo do biodigestor para adubar palma e milho
O que muda para o produtor
Mais autonomia para cozinhar sem depender de compra frequente de gás.
Redução de custos com energia e adubação, com reaproveitamento do biofertilizante.
Melhor manejo e maior atenção à saúde e nutrição dos animais.
Avanço em sustentabilidade com melhor tratamento de dejetos e menor impacto ambiental.
Com a combinação de tecnologia acessível, assistência e capacitação, o projeto “Fortalecimento da suinocultura sustentável: inovação e valor na produção do Agreste Meridional” busca consolidar um modelo em que a produção de suínos seja mais eficiente, econômica e ambientalmente responsável — com ganhos diretos para as famílias atendidas e potencial de expansão para outras regiões.
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