
A influência do El Niño sobre a safra 2026/27 deverá ir muito além das alterações no regime de chuvas. Em um cenário de custos elevados, margens mais apertadas e maior exposição ao risco climático, especialistas defendem que o produtor precisará adaptar sua estratégia de manejo para reduzir perdas e aumentar a capacidade de resposta das lavouras diante das adversidades.
A preocupação ganha força em um momento em que o ambiente econômico exige decisões cada vez mais precisas. O relatório Visão Agro 2026, do Itaú BBA, aponta que o agronegócio brasileiro inicia o novo ciclo convivendo com juros elevados, maior seletividade no crédito, preços pressionados para diversas commodities e custos de produção ainda elevados. Ao mesmo tempo, o estudo destaca o El Niño como um dos principais fatores de risco para culturas como soja, milho, trigo, café e citros, reforçando que o comportamento climático continuará exercendo forte influência sobre a produtividade das lavouras.
Segundo o coordenador de Excelência Técnica da Vitalforce, Felipe Crepaldi, embora seja impossível controlar o clima, é possível aumentar a capacidade da lavoura de responder aos seus efeitos. “A forma como a planta reage ao estresse é construída muito antes dos primeiros sintomas aparecerem. Solo, raízes, microbiologia, cobertura vegetal e monitoramento fazem parte dessa preparação”, afirmou.
A seguir, Crepaldi destacou cinco pontos que merecem atenção especial no planejamento da safra.
1. O preparo da lavoura começa antes do plantio
A estrutura física do solo influencia diretamente a infiltração e o armazenamento de água, enquanto a atividade biológica contribui para a disponibilidade de nutrientes e para o desenvolvimento das raízes. Em anos de maior instabilidade climática, essas características passam a exercer papel ainda mais relevante.
2. A palhada também precisa entrar no planejamento
Depois da colheita, a atenção do produtor costuma se voltar rapidamente para a implantação da próxima cultura. Entretanto, os resíduos vegetais deixados sobre o solo podem concentrar parte importante dos desafios sanitários da safra seguinte.
Segundo Crepaldi, estudos de campo conduzidos pela equipe técnica do prof. Erich Reis , do Núcleo de BioSoluções de Bandeirantes – PR, Biocentro da Vitalforce, indicam que aproximadamente 93% das doenças presentes na área permanecem associadas ao solo e à palhada, tornando essa etapa uma oportunidade importante para reduzir riscos antes mesmo do novo plantio.
“Grande parte dos produtores olha para a próxima safra sem avaliar o que ficou da anterior. A palhada pode funcionar como reservatório de patógenos. Por isso, antes de definir qualquer estratégia de manejo, é importante conhecer a realidade daquela área.”
Esse conceito norteia a iniciativa Blitz do Patógeno da Vitalforce, que incentiva a coleta de amostras de palhada para análise laboratorial, permitindo identificar os principais patógenos presentes na área antes da definição das estratégias de manejo. O objetivo é tornar as decisões mais técnicas e reduzir intervenções baseadas somente na observação visual da lavoura.
3. O manejo deve considerar as diferenças entre as regiões
Embora o El Niño seja um único fenômeno climático, seus efeitos sobre as lavouras brasileiras serão bastante distintos. No Norte, Nordeste, Centro-Oeste e em parte do Sudeste, a tendência é de temperaturas mais elevadas, redução das chuvas em períodos importantes do desenvolvimento das culturas e maior pressão de pragas como o percevejo da soja e a cigarrinha-do-milho.
Já na região Sul, o excesso de chuvas deverá favorecer o encharcamento do solo e aumentar a incidência de doenças associadas à elevada umidade.
4. Raízes saudáveis aumentam a capacidade de resposta das plantas
Quando ocorre um período de estresse hídrico, a capacidade da planta de acessar água e nutrientes passa a depender diretamente do desenvolvimento do sistema radicular. Raízes mais profundas conseguem explorar um volume maior de solo, aumentando a disponibilidade de água durante períodos de estiagem e favorecendo maior estabilidade fisiológica.
Da mesma forma, em ambientes sujeitos ao excesso de umidade, solos bem estruturados favorecem a drenagem e reduzem o tempo de permanência da água junto às raízes.
5. Monitorar a lavoura deixa de ser rotina e passa a ser gestão de risco
Em anos de maior instabilidade climática, alterações relativamente pequenas no ambiente podem acelerar a multiplicação de pragas ou favorecer o desenvolvimento de doenças. Por isso, é necessário intensificar o monitoramento desde as fases iniciais da cultura. A identificação precoce permite decisões mais assertivas e reduz o risco de perdas econômicas decorrentes da evolução dos problemas ao longo do ciclo.
O aumento da complexidade da agricultura faz com que decisões baseadas somente na experiência ou na observação visual sejam cada vez menos suficientes.
Análises de solo, avaliação das condições físicas da área, identificação de patógenos presentes na palhada e acompanhamento das condições climáticas ajudam a direcionar estratégias mais eficientes e racionalizam o uso de tecnologias ao longo da safra.
"O clima continuará sendo uma variável impossível de controlar. O que está ao alcance do produtor é preparar o sistema produtivo para responder melhor aos desafios que surgirão ao longo da safra. Em um ano de maior risco, essa preparação poderá fazer toda a diferença", conclui Crepaldi.
Toda vez que um fenômeno climático extremo ameaça o país, a discussão segue um roteiro conhecido. Especialistas projetam os efeitos sobre a produção agrícola, analistas revisam estimativas para a safra e produtores tentam calcular o tamanho do prejuízo. Desta vez não é diferente. A possibilidade cada vez maior de um Super El Niño já mobiliza o agronegócio e reacende preocupações sobre a temporada 2026/27.
Com a previsão de chegada do El Niño neste segundo semestre, o Brasil poderá enfrentar um cenário de maior instabilidade climática, marcado por fortes chuvas na região Sul e secas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Embora o fenômeno represente riscos para o agronegócio, afetando diretamente commodities como soja e milho, a agricultura tropical brasileira desenvolveu ao longo de décadas, inovações e manejos próprios para garantir a produção mesmo em condições adversas.

Resumo: El Niño intenso para o segundo semestre, com duração estimada até o início de 2027. Espera-se maior concentração de chuvas no Sul e na Amazônia, mas redução no Centro-Oeste, Nordeste e parte do Sul, o que deve afetar a navegação fluvial devido à menor disponibilidade de água nos rios. A draga de leitos, um processo caro e com planejamento tardio, será necessária para manter a logística, aumentando a dependência do transporte rodoviário, nem sempre adequado para o volume de demandas.

Resumo: O agronegócio brasileiro enfrenta uma confluência de fatores que pressionam margens e planejamento. A guerra no Irã aumenta custos de energia, logística e fertilizantes, e o setor encara também a volatilidade de insumos, especialmente o enxofre. Paralelamente, o El Niño, segundo a Organização Meteorológica Mundial, tem 80% de chance de se desenvolver entre junho e agosto e mais de 90% de probabilidade de permanecer ativo até novembro, impactando o período de plantio da safra 2026/2027. No Sul, deve aumentar o volume de chuvas, enquanto o Centro-Oeste enfrenta maior incerteza climática, elevando a volatilidade no cultivo.

Resumo: Nesta quinta-feira (28), Mato Grosso registra tempo estável e seco em quase todas as regiões. As manhãs são amenas, com temperaturas entre 18°C e 22°C, mas o calor se eleva à tarde, com máximas variando de cerca de 29°C a 35°C conforme a região.