
A decisão da China de limitar as exportações de fertilizantes acendeu um alerta no Brasil, um dos países mais dependentes do mercado internacional para abastecer o agronegócio. O movimento ocorre em um momento de escassez global e de forte instabilidade logística, com reflexos diretos sobre custos de produção agrícola, disponibilidade de insumos e, no médio prazo, sobre preços dos alimentos e inflação.
No ano passado, a China se tornou o principal fornecedor de adubos ao Brasil, ultrapassando a Rússia, tradicional líder. Agora, ao restringir vendas externas para proteger o mercado interno, o país asiático amplia a pressão sobre um mercado global já tensionado por conflitos e gargalos de transporte em regiões estratégicas.
Dados do comércio exterior mostram que o Brasil buscou 12 milhões de toneladas de fertilizantes na China, volume 38% maior do que no ano anterior. No mesmo período, a Rússia enviou 11,1 milhões de toneladas ao mercado brasileiro.
Apesar da mudança no ranking de fornecedores, a vulnerabilidade do país permanece: o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de adubos no ano passado, com desembolso de US$ 15,5 bilhões. O consumo total chegou a 49,1 milhões de toneladas, enquanto a produção nacional ficou em apenas 7,2 milhões de toneladas, evidenciando um déficit estrutural de oferta doméstica.
Indicador Volume/Valor Observação Importações de fertilizantes (ano) 45,5 milhões de toneladas Alta dependência externa Gasto com importações (ano) US$ 15,5 bilhões Pressão sobre custos Consumo total (ano) 49,1 milhões de toneladas Demanda crescente Produção nacional (ano) 7,2 milhões de toneladas Oferta limitada
Enquanto o debate global costuma se concentrar em riscos ligados à energia e ao petróleo, especialistas alertam que fertilizantes são igualmente estratégicos para a estabilidade econômica e social. Estimativas indicam que ao menos 49% da produção mundial de alimentos depende do uso de adubos. Sem disponibilidade adequada, o resultado tende a ser redução de plantio, queda de produtividade e aumento de preços ao consumidor.
Alerta: países costumam manter reservas estratégicas de petróleo, mas não possuem estoques equivalentes de fertilizantes, o que aumenta a exposição em períodos de choque de oferta.
Com a China restringindo exportações, o Brasil encontra dificuldades para recompor volumes em outros polos. Além disso, a disputa por cargas cresce porque grandes consumidores e regiões produtoras também enfrentam desafios.
Índia: intensificou a produção em unidades que dependem de gás importado.
Europa: já operava com ritmo menor em parte das fábricas devido à oferta mais restrita de gás.
Estados Unidos: elevaram barreiras comerciais e buscam novas origens para importar, em plena fase crítica de demanda agrícola.
Nos Estados Unidos, o período de plantio torna a necessidade de fertilizantes ainda mais urgente. Embora parte da demanda já tenha sido contratada, a dúvida recai sobre o cumprimento das entregas diante de estrangulamentos logísticos associados a conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre rotas e transporte.
No Brasil, produtores enfrentam um calendário decisivo: colheita de soja, plantio do milho safrinha e planejamento da próxima safra de soja. O problema é que, com a combinação de menor oferta e disputa internacional, não há clareza sobre preços nem sobre a quantidade de produto disponível.
Esse quadro tende a atingir primeiro o campo, com aumento do custo de produção e possível ajuste de investimento em tecnologia agrícola. Em seguida, os impactos podem chegar às cidades, com repercussão nos preços dos alimentos e pressão sobre índices de inflação.
Uma cesta de produtos monitorada por organismo internacional de referência já indicava reversão de tendência, com preços voltando a subir mesmo antes do agravamento do conflito envolvendo países do Oriente Médio. O encarecimento de insumos agrícolas reforça o risco de um ciclo de alta mais persistente.
O Oriente Médio é um ponto sensível para o mercado global de fertilizantes. Pelo menos 10% da ureia comercializada no mundo é produzida na região, e cerca de 30% dos fertilizantes transitam por rotas associadas a essa área. A instabilidade local, portanto, tem capacidade de se espalhar rapidamente pelos preços internacionais.
Um exemplo é a ureia: após ser negociada a US$ 450 por tonelada em fevereiro, passou a atingir US$ 690 em alguns dos principais portos do mundo, refletindo o aumento do risco e as dificuldades de oferta e transporte.
Além da dependência externa, o Brasil começou o ano com atraso nas compras — um fator que amplia a vulnerabilidade em momentos de disparada de preços. No primeiro bimestre do ano passado, países do Oriente Médio forneceram 624 mil toneladas ao mercado brasileiro, o equivalente a 12% do total importado no período.
Já em janeiro e fevereiro deste ano, as compras na região somaram 462 mil toneladas, ou 8,8% do total importado. O volume é o menor para o primeiro bimestre em 11 anos e representa queda de 34% frente à média dos últimos cinco anos para o mesmo intervalo.
Se o cenário de guerra e instabilidade se prolongar, a desorganização do fornecimento global pode se tornar ainda mais crítica. Para o Brasil, isso significa um duplo desafio: pagar mais caro e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldade de compra diante da concorrência internacional por volumes limitados.
Em um mercado sem estoques estratégicos e com oferta concentrada, qualquer restrição adicional — seja por decisão de grandes exportadores, seja por bloqueios logísticos — tende a elevar a volatilidade e dificultar o planejamento da safra, com efeitos que podem se estender até o consumidor final.

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Resumo: Nos primeiros cinco meses deste ano, o agronegócio brasileiro apresentou desempenho heterogêneo entre blocos econômicos. A América do Norte somou US$ 5,7 bilhões em exportações, 20% abaixo do mesmo período de 2025, com a queda puxada pelos preços do café. Mesmo assim, carne bovina manteve demanda nos EUA e o México elevou 19% as compras de soja; houve também....

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