
As ondas de calor no Brasil estão mais frequentes, mais longas e mais intensas — e os impactos já são mensuráveis sobre a agricultura, especialmente nas regiões que concentram grande parte da produção nacional. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que o número médio de dias com ocorrência de ondas de calor no país saltou de 7 dias (entre 1961 e 1990) para 52 dias (entre 2011 e 2020).
O fenômeno tem atingido com maior força o Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, áreas que reúnem parcela significativa das lavouras brasileiras. Especialistas alertam que esse cenário indica uma mudança estrutural no padrão climático, elevando riscos de perdas e exigindo novas estratégias de adaptação no campo.
Em termos meteorológicos, uma onda de calor é caracterizada por um período prolongado de temperaturas anormalmente elevadas, que pode durar dias ou semanas e atingir grandes áreas. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) descreve a ocorrência como o “aquecimento acentuado do ar em uma região”.
No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) considera onda de calor quando as temperaturas máximas ficam ao menos 5 °C acima da média histórica por cinco dias consecutivos.
Para o professor Derblai Casaroli, doutor em Agronomia e docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), não existe um único critério universal. O que é extremo em um lugar pode ser normal em outro, o que leva diferentes países a adotarem métricas regionais.
Ele destaca que também são usados índices baseados em percentis, mais adequados diante das mudanças climáticas, como:
CTX90pct: identifica o evento quando as temperaturas máximas ultrapassam o percentil 90 dos registros históricos por pelo menos três dias consecutivos;
CTN90pct: segue lógica semelhante, considerando as temperaturas mínimas.
“O que é extremo em uma localidade pode ser normal em outra. Por isso, muitos países adotam critérios regionais.” — Derblai Casaroli
O calor extremo, principalmente quando combinado com déficit hídrico, funciona como um estressor fisiológico capaz de reduzir de forma relevante o potencial produtivo das culturas. Segundo Casaroli, o excesso de temperatura pode encurtar o período de enchimento de grãos, alterar processos celulares e comprometer o balanço energético das plantas.
Quando a falta de água se soma ao calor, os efeitos tendem a ser ainda mais severos: os impactos não apenas se acumulam, como podem ampliar perdas além do esperado se cada fator fosse analisado separadamente.
Estimativas apresentadas pelos pesquisadores indicam reduções de produtividade que podem chegar a:
Cultura Queda estimada sob calor extremo Observação agronômica Feijão 22% Alta sensibilidade em fases reprodutivas Arroz 42% Perdas acentuadas com estresse térmico e hídrico Trigo 34% Encurtamento do enchimento de grãos Mandioca 18% Redução de eficiência fisiológica em calor prolongado
O alerta é direto: o avanço dos extremos climáticos pode redefinir a forma como o país planeja o calendário agrícola, escolhe cultivares, organiza manejo e dimensiona investimentos em tecnologia no campo.
A análise integra a pesquisa “Ondas de calor e a agricultura irrigada”, conduzida por Casaroli em parceria com o engenheiro agrônomo José Alves Júnior, doutor em Irrigação e Drenagem. Para os autores, a intensificação das ondas de calor no Brasil indica um novo regime climático, no qual a irrigação ganha papel central não apenas para elevar produtividade, mas para reduzir vulnerabilidades.
“Estamos diante de um novo regime climático. A irrigação precisa ser vista como estratégia de adaptação, não apenas como ferramenta de incremento de produtividade.” — José Alves Júnior
Levantamentos citados no estudo indicam que áreas irrigadas podem obter ganhos de até 65% em comparação a sistemas de sequeiro sob episódios de calor extremo. O benefício ocorre porque o manejo hídrico adequado pode:
Reduzir a temperatura do dossel entre 1 °C e 3 °C;
Elevar a fotossíntese em até 20%;
Manter a umidade do solo em níveis que favorecem absorção de nutrientes e estabilidade fisiológica;
Proteger fases reprodutivas, geralmente as mais sensíveis às altas temperaturas.
Na prática, os pesquisadores defendem que a discussão sobre irrigação deve estar conectada a planejamento, eficiência, manejo e ao contexto regional, já que a resposta das culturas e o risco climático variam conforme o bioma e o histórico de temperatura.
O aumento das ondas de calor no Brasil cria um cenário de maior pressão sobre produtividade e custos de produção. Além de reduzir rendimento, o calor excessivo pode antecipar ciclos, comprometer a formação de grãos e ampliar a dependência de estratégias de mitigação, como irrigação e ajustes de manejo.
Para o setor agrícola, o recado é claro: eventos extremos deixaram de ser exceção e passam a exigir respostas estruturais. A combinação de calor intenso e falta de água tende a ser determinante para o desempenho das lavouras, com potencial de afetar oferta, preços e estabilidade do abastecimento.
Com o fenômeno mais recorrente nas principais regiões produtoras, especialistas apontam que a adaptação climática deve ser incorporada ao planejamento agrícola como prioridade, reduzindo perdas e ampliando a resiliência dos sistemas produtivos.
Fonte: informações compiladas a partir de dados do INPE, Inmet e contribuições de pesquisadores da UFG.

Resumo: El Niño intenso para o segundo semestre, com duração estimada até o início de 2027. Espera-se maior concentração de chuvas no Sul e na Amazônia, mas redução no Centro-Oeste, Nordeste e parte do Sul, o que deve afetar a navegação fluvial devido à menor disponibilidade de água nos rios. A draga de leitos, um processo caro e com planejamento tardio, será necessária para manter a logística, aumentando a dependência do transporte rodoviário, nem sempre adequado para o volume de demandas.

Resumo: O agronegócio brasileiro enfrenta uma confluência de fatores que pressionam margens e planejamento. A guerra no Irã aumenta custos de energia, logística e fertilizantes, e o setor encara também a volatilidade de insumos, especialmente o enxofre. Paralelamente, o El Niño, segundo a Organização Meteorológica Mundial, tem 80% de chance de se desenvolver entre junho e agosto e mais de 90% de probabilidade de permanecer ativo até novembro, impactando o período de plantio da safra 2026/2027. No Sul, deve aumentar o volume de chuvas, enquanto o Centro-Oeste enfrenta maior incerteza climática, elevando a volatilidade no cultivo.

Resumo: Nesta quinta-feira (28), Mato Grosso registra tempo estável e seco em quase todas as regiões. As manhãs são amenas, com temperaturas entre 18°C e 22°C, mas o calor se eleva à tarde, com máximas variando de cerca de 29°C a 35°C conforme a região.

A possibilidade de intensificação do El Niño no segundo semestre já mobiliza produtores, indústria e técnicos em Minas Gerais. A Cemaden aponta mais de 80% de probabilidade de um El Niño de intensidade moderada a forte, com aquecimento do oceano em torno de 1,5°C, o que pode impactar diretamente a safra 2026/27 e gerar impactos relevantes na economia do estado. Os modelos indicam aquecimento suficiente para sustentar a tendência entre setembro e outubro, mas ainda não há uma previsão de cenário extremo definitivo.
Sumário A América Latina pode enfrentar impactos desiguais se o El Niño de forte intensidade se confirmar no segundo semestre de 2026, com riscos de inflação e menor crescimento, principalmente devido aos impactos na agricultura e no setor energético.