Leiria: 200 leitões morrem por falta de energia elétrica após tempestade Kristin; criadores denunciam falha na rede da E-Redes
Pecuária em Leiria perde ~200 leitões após um mês sem energia, prejudicando aquecimento.

Pecuária em Leiria perde cerca de 200 leitões após quase um mês sem energia elétrica
Leiria (Portugal) — Uma exploração pecuária na localidade de Bidoeira de Cima, no concelho de Leiria, registou a morte de cerca de 200 leitões após permanecer quase um mês sem acesso à rede elétrica, condição que comprometeu o aquecimento e a iluminação necessários para a sobrevivência dos animais recém-nascidos durante a noite.
Segundo o produtor Joaquim Sousa, o impacto foi progressivo e devastador. Ao longo de várias semanas, o número de mortes aumentou diariamente, sobretudo entre os animais mais jovens, mais vulneráveis ao frio e a acidentes dentro das maternidades. “É frustrante”, relatou o criador, ao descrever episódios recorrentes de leitões encontrados mortos durante a manhã.
A interrupção de energia teve início após a passagem da depressão Kristin, que deixou a exploração sem luz. A propriedade fica localizada numa zona encaixada num vale e rodeada por eucaliptais, o que dificultou a reposição do serviço e aumentou a sensação de isolamento.
Frio, falta de aquecimento e maior risco de esmagamento
Na suinicultura, o fornecimento de energia elétrica não é apenas operacional: é um fator crítico de bem-estar animal e biossegurança. Joaquim Sousa explicou que os leitões, principalmente nos primeiros 15 dias de vida, dependem de fontes de calor para manter a temperatura corporal e reduzir o risco de infeções e complicações digestivas.
Sem aquecimento durante a noite, muitos animais sucumbiram ao frio. Além disso, a falta de luz alterou o comportamento natural dos leitões nas maternidades, aumentando o risco de acidentes. Em condições normais, os recém-nascidos procuram um espaço aquecido, frequentemente chamado de “ninho”, equipado com lâmpadas. No escuro e sem calor, aproximam-se das mães para se proteger, o que eleva a probabilidade de serem esmagados quando as porcas se movimentam.
O produtor também relatou sinais clínicos preocupantes nos animais sobreviventes, como fraqueza, baixa mobilidade e diarreia, sintomas que podem indicar stress térmico e maior predisposição a doenças — fatores que impactam diretamente a taxa de sobrevivência e o desempenho sanitário do plantel.
Gerador reduziu danos, mas custos e insegurança limitaram uso contínuo
Para tentar reduzir as perdas, Joaquim e o irmão, Manuel, adquiriram um gerador nos primeiros dias após o apagão. O equipamento funcionava durante o dia, mas era retirado à noite por receio de furtos, uma vez que a exploração fica afastada de zonas residenciais.
Apesar de ter sido uma alternativa emergencial, a solução trouxe um novo problema: o custo elevado de operação. O produtor estima que as despesas com combustível tenham ultrapassado valores expressivos ao longo do período, somando-se ao investimento inicial no equipamento.
Manuel descreveu o desgaste emocional e físico de conviver com o ruído contínuo do gerador durante semanas, além da pressão de manter o funcionamento mínimo da exploração num cenário de instabilidade.
Reposição da energia ocorre após um mês, mas prejuízos já estavam consolidados
A energia elétrica foi restabelecida na tarde do dia em que os produtores relataram a situação, encerrando um período descrito pela família como “um mês duro”. No entanto, os prejuízos acumulados — em mortalidade, perda de investimento em alimentação e cuidados sanitários — já estavam consolidados.
O caso ganhou ainda mais relevância por ocorrer num período estratégico para a produção. A exploração estava a preparar-se para um aumento de procura de leitão associado à época da Páscoa, quando tradicionalmente cresce o consumo. Com mais porcas prenhas e maior volume de partos programados, a falta de energia tornou-se um risco operacional elevado.
“Andamos meses a preparar uma porca para, em pouco tempo, perder tudo”, lamentou Joaquim, apontando para perdas que incluem não apenas os animais, mas também recursos aplicados em alimentação, manejo e prevenção sanitária, como vacinas.
Impactos na saúde animal e na cadeia de abastecimento
Especialistas do setor reconhecem que eventos prolongados de falta de energia em explorações pecuárias têm efeitos em cascata. Entre os principais impactos, destacam-se:
Aumento da mortalidade neonatal por hipotermia e acidentes;
Maior incidência de distúrbios gastrointestinais em leitões fragilizados;
Queda no ganho de peso e pior desempenho zootécnico nos sobreviventes;
Custos adicionais com energia alternativa, combustível e mão de obra;
Instabilidade no abastecimento, sobretudo em períodos de maior procura.
No caso de Leiria, a exploração familiar tem décadas de atividade e abastece estabelecimentos de restauração em diferentes regiões, o que torna o episódio relevante também para a cadeia local de fornecimento de carne suína.
Resumo do caso
Ponto-chave Informação Local Bidoeira de Cima, Leiria Duração sem energia Quase um mês Perdas estimadas Cerca de 200 leitões Principais causas Frio noturno, ausência de aquecimento e falta de iluminação nas maternidades Medida emergencial Uso de gerador durante o dia, com limitações à noite
Um alerta para infraestrutura essencial em explorações com seres vivos
Para os produtores, o episódio reforça a diferença entre uma interrupção de energia em atividades industriais e numa exploração com animais. “Aqui estamos a trabalhar com seres vivos”, afirmou Joaquim, destacando que atrasos na reposição de energia podem ter consequências diretas na sobrevivência dos animais e no cumprimento de ciclos produtivos.
Apesar do regresso da eletricidade, o caso evidencia como a dependência de energia em sistemas de produção animal exige planos de contingência mais robustos, com proteção de equipamentos, alternativas seguras para funcionamento noturno e resposta rápida em situações de emergência climática.
O episódio ocorreu num contexto de instabilidade meteorológica e deixou marcas numa exploração familiar que opera há várias décadas, com impactos imediatos na saúde animal, no bem-estar do plantel e na sustentabilidade económica da atividade.




