
Resumo: O Brasil deve colher menos trigo em 2026 após nova redução de área, em um cenário de juros elevados, dificuldade de crédito, menor acesso ao seguro agrícola e aumento de custos com diesel e fertilizantes. A queda ocorre ao mesmo tempo em que a oferta global do cereal recua por causa da seca nos Estados Unidos, o que tende a aumentar a dependência de importações.
Depois de atingir um recorde de produção em 2022, quando colheu 11 milhões de toneladas de trigo, o Brasil não consolidou uma trajetória de crescimento sustentável na oferta interna. Em 2026, o país volta a reduzir a área plantada e deve colher menos, o que aumenta a necessidade de compra do cereal no mercado internacional.
As estimativas oficiais indicam recuo importante: a área semeada pode diminuir e a produção nacional ficar bem abaixo da de 2025. Na prática, isso reforça um movimento observado nos últimos anos: menor incentivo ao plantio em momentos de instabilidade de preços e de custos mais altos, principalmente no Sul, onde se concentra a maior parte da produção.
Os números variam conforme a fonte, mas apontam para o mesmo sentido. A Conab estima que o país deve plantar 2,14 milhões de hectares em 2026, uma redução de 12,5% em relação a 2025. Para a companhia, a produção pode recuar para 6,4 milhões de toneladas, o que representa queda de 19%.
Já o IBGE projeta uma área maior, de 2,4 milhões de hectares, e estima uma safra de 7,3 milhões de toneladas. Mesmo com diferenças metodológicas, os dados convergem para um cenário de oferta menor, em um momento de pressão sobre custos e de incertezas sobre clima e renda do produtor.
Fonte Área estimada (milhões ha) Produção estimada (milhões t) Tendência em relação a 2025 Conab 2,14 6,4 Queda acentuada IBGE 2,4 7,3 Queda
Os dois principais estados produtores, Paraná e Rio Grande do Sul, concentram a atenção do mercado. No Paraná, o plantio de 2026 está em andamento, mas a sinalização é de retração. A estimativa do Deral é de 746 mil hectares semeados. Se o clima ajudar, a produção pode chegar a 2,44 milhões de toneladas, embora haja possibilidade de revisão para baixo conforme a evolução das lavouras e das decisões finais dos produtores.
No Rio Grande do Sul, o IBGE aponta semeadura de 1,1 milhão de hectares e produção prevista de 3,3 milhões de toneladas. O estado, tradicionalmente líder, também enfrenta um ambiente de maior risco financeiro, que limita o apetite por uma cultura de alto custo e retorno incerto.
O trigo é uma lavoura que exige investimento elevado e costuma sofrer com volatilidade de preços. Nem sempre a cotação final garante margem atrativa, especialmente quando o custo do pacote tecnológico sobe e o acesso ao financiamento fica mais difícil.
Em 2026, o conjunto de fatores desfavoráveis se intensificou. Segundo a leitura do mercado, os produtores do Sul estão mais cautelosos por causa de:
Escassez de crédito e maior seletividade na concessão de financiamento;
Endividamento elevado em parte do setor produtivo;
Juros altos, que encarecem o custeio e reduzem a margem;
Baixa disponibilidade de seguro agrícola, limitando a capacidade de proteção contra perdas;
Aumento de custos com diesel e fertilizantes em meio a tensões geopolíticas;
Risco climático mais elevado, com preocupação sobre a intensidade do El Niño.

A Embrapa Soja (PR) e a Caramuru Alimentos lançam a cultivar de soja BRS 579, indicada para produtores do centro-norte de Mato Grosso (região edafoclimática REC 402) com ciclo médio a tardio, GM 7.9, permitindo escalonamento da colheita e semeadura no início da safra.

Em um contexto assim, muitos produtores tendem a recalcular risco e retorno, reduzindo área ou migrando para alternativas consideradas mais previsíveis do ponto de vista financeiro.
Com crédito mais caro e menos proteção via seguro, a decisão de plantar trigo passa a depender ainda mais de expectativa de preço e de clima favorável.
O cenário brasileiro ocorre em paralelo a uma mudança relevante no mercado internacional. A produção mundial de trigo na safra 2026/27 (período de julho a junho) deve cair para 819 milhões de toneladas, redução de 25 milhões em comparação ao recorde de 844 milhões registrado em 2025/26, conforme projeções do Usda.
Um dos principais fatores por trás dessa revisão é a forte seca nos Estados Unidos, que impacta a produtividade e limita a oferta. Ao mesmo tempo, outros grandes produtores também registram quedas, reduzindo a folga do mercado global.
China deve ampliar a produção e assumir a liderança, com 141 milhões de toneladas;
União Europeia pode produzir 9 milhões de toneladas a menos, totalizando 136 milhões;
Estados Unidos têm queda estimada de 12 milhões de toneladas;
Rússia, maior exportadora, deve colher 86 milhões de toneladas, 4 milhões a menos;
Também aparecem com redução: Austrália, Canadá, Ucrânia e Argentina.
Com menos trigo disponível, a tendência é de maior disputa por oferta entre países importadores, o que pode influenciar preços e custos ao longo do ciclo.
Com produção interna menor e consumo elevado, o Brasil deve aumentar as compras externas. Na safra 2026/27, o país pode se tornar o quinto maior importador mundial, somando 7,4 milhões de toneladas, segundo estimativas do Usda.
O ranking global de importação segue liderado por Indonésia e Egito, ambos com 12,5 milhões de toneladas, seguidos por Argélia e Bangladesh. Ao mesmo tempo, os estoques mundiais devem cair em cerca de 4 milhões de toneladas, chegando a 275 milhões, reduzindo o colchão de segurança do mercado.
O Brasil iniciou 2026 com estoques iniciais de 1,64 milhão de toneladas. Com um consumo próximo de 12 milhões de toneladas e uma safra menor, a necessidade de importação aumenta. A Conab projeta compras externas ao redor de 7 milhões de toneladas, o que colocaria o país diante do maior volume importado desde 2013.
Se confirmadas as estimativas mais conservadoras, a safra brasileira de 2026 pode ser a menor desde 2020, reforçando a dependência de trigo importado para abastecer a cadeia de farinhas e derivados.
O quadro aponta para um ano de tensão entre oferta e demanda no Brasil, com impacto potencial sobre custos industriais e formação de preços. No campo, o plantio mais enxuto reflete uma combinação de fatores que vão além do clima: o produtor pesa crédito, seguro, custos e volatilidade antes de decidir ampliar a área.
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