
O Brasil segue em desvantagem entre os grandes produtores agrícolas quando o assunto é seguro rural. Especialistas e representantes do mercado apontam que a combinação de baixa cobertura, apoio público limitado e instabilidade orçamentária torna o sistema mais frágil justamente em um cenário de crescente risco climático.
De acordo com análises do FGV Agro, a cobertura do seguro rural no país permanece restrita, enquanto nações com políticas mais consolidadas conseguem proteger fatias muito maiores da área cultivada. A avaliação é que, no Brasil, o produtor tende a depender mais do próprio caixa para atravessar perdas causadas por eventos extremos, o que aumenta a vulnerabilidade financeira em anos de adversidade.
Uma pesquisadora do FGV Agro destaca que, entre os grandes países produtores, o Brasil está em posição de maior fragilidade no seguro rural, com menor apoio e menor cobertura. O estudo aponta que, embora todos os sistemas internacionais analisados apresentem desafios, o desenho institucional, a cultura e a estrutura de governo variam muito — e isso faz com que soluções de um país não possam ser “copiadas” integralmente por outro.
Ainda assim, a especialista avalia que o Brasil poderia se inspirar em modelos bem-sucedidos, especialmente aqueles que combinam participação do setor público e privado.
Entre os exemplos mencionados, o modelo espanhol aparece como uma referência possível por adotar um sistema de subvenção misto, com recursos públicos e privados. Na Espanha, o nível de cobertura do seguro rural varia entre 60% e 90%, dependendo da cadeia produtiva.
No Brasil, por outro lado, a área segurada na safra de grãos 2024/25 ficou em 3,3% da extensão plantada, segundo dados consolidados do setor.
Já os Estados Unidos são citados como o sistema mais robusto, com forte subsídio ao prêmio e cobertura próxima de 90% nas principais culturas. A pesquisadora pondera, no entanto, que a distância estrutural entre os países torna a comparação direta mais difícil.
Na Ásia, a Índia é lembrada como um caso de seguro rural que funciona com escala: no modelo indiano, o agricultor paga uma parcela reduzida do prêmio (entre 1,5% e 5%), enquanto o Estado cobre a maior parte do custo, chegando a até 90%. A cobertura, nesse caso, alcança até 40% da área cultivada do país.
País Nível de cobertura (referência) Destaque do modelo Brasil 3,3% da área plantada (safra 2024/25 de grãos) Baixa cobertura e instabilidade no orçamento de subvenção Espanha 60% a 90% (varia por cadeia) Subvenção mista com recursos públicos e privados Estados Unidos Próximo de 90% nas principais culturas Subsídio forte ao prêmio e sistema consolidado Índia Até 40% da área cultivada Agricultor paga 1,5% a 5% do prêmio; Estado pode cobrir até 90%
Além das diferenças internacionais, a pesquisadora observa um desafio estrutural no Brasil: quem mais contrata seguro tende a estar em áreas de maior risco. Já produtores em regiões de menor risco climático acabam evitando a contratação, o que dificulta a formação de uma base ampla e equilibrada para o mercado.
Mesmo assim, a percepção está mudando. Segundo a especialista, produtores que antes não se preocupavam com seguro rural passaram a considerar o tema com mais atenção. A razão envolve tanto a crise econômica quanto a intensificação dos fenômenos climáticos, que tornam a previsibilidade de safra mais incerta. A expectativa sobre os impactos de eventos como o El Niño também aumenta a busca por mecanismos de proteção financeira.
“Produtores que não se preocupavam com seguro estão se preocupando”, aponta a pesquisadora, citando a combinação de pressão econômica e incerteza climática.
Representantes do setor de seguros explicam que o governo federal atualmente subvenciona parte do valor das apólices por meio do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). As regras em vigor preveem subvenção de até 20% para apólices de soja e 40% para outras culturas.

O BNDES recusou R$ 96,4 milhões em pedidos de financiamento de produtores rurais com indícios de desmatamento ilegal em Minas Gerais nos últimos três anos, representando 0,7% do total de solicitações entre fevereiro de 2023 e abril de 2026. Em MG, foram identificados 217 alertas ativos de desmatamento, 0,5% das solicitações no período. A medida, em parceria com MapBiomas, visa monitorar propriedades e impedir financiamentos a quem pratique desmatamento ilegal.

O problema, segundo o mercado, está menos na existência do programa e mais na falta de previsibilidade e continuidade. O maior montante destinado e executado para subvenção foi registrado em 2021, quando o PSR alcançou R$ 1,15 bilhão. Desde então, os valores recuaram e, em 2025, atingiram o menor nível desde 2019: R$ 565,3 milhões, conforme dados oficiais do Ministério da Agricultura.
Em 2024, o orçamento inicial do PSR era de R$ 1,06 bilhão, mas houve redução de 47%, reforçando a sensação de instabilidade que afeta o planejamento das seguradoras e a decisão de contratação por parte dos produtores.
Nesse contexto, a Câmara dos Deputados aprovou em maio um projeto de lei que reformula o seguro rural e prevê condições mais vantajosas para operações de crédito rural amparadas por apólices. Entre as medidas associadas ao crédito, o texto prevê:
taxas de juros menores em operações amparadas pelo seguro;
prazos diferenciados para produtores segurados;
prioridade na concessão de financiamentos.
O projeto também mantém os recursos destinados ao seguro dentro do orçamento do Ministério da Agricultura e prevê restrições ao bloqueio ou contingenciamento de verbas destinadas a despesas obrigatórias, incluindo os subsídios ao seguro rural. Como houve alterações durante a tramitação, a proposta retornou ao Senado para nova análise.
Para o setor segurador, a iniciativa pode reduzir a volatilidade do PSR e abrir espaço para um salto de maturidade. Há expectativa positiva também em torno de mecanismos complementares, como o fundo de catástrofe em discussão, visto como peça importante para ampliar capacidade de resposta em anos de perdas generalizadas.
Mesmo com possíveis mudanças regulatórias, o mercado avalia que seria necessário aumentar substancialmente o volume de recursos federais para ampliar a cobertura do seguro rural. A estimativa apresentada por lideranças do setor aponta que seriam necessários, em média, R$ 3 bilhões em subvenção federal para estruturar o mercado e elevar o alcance do seguro.
Essa ampliação teria como objetivo não apenas aumentar o número de apólices, mas também expandir a cobertura para além do eixo Sul-Sudeste, onde historicamente a presença do seguro rural tende a ser mais concentrada.
Segundo o setor, o reforço de recursos ajudaria as seguradoras a investir em eficiência operacional e tecnologia, com destaque para soluções de vistorias remotas e aprimoramento das perícias, o que pode reduzir custos e acelerar respostas ao produtor em caso de sinistro.
Apesar do otimismo com o avanço do projeto de lei, a avaliação é de que o cenário ainda é complexo. O mercado descreve 2025 como um ano especialmente difícil para o seguro rural, e indica que 2026 segue com desafios relevantes, em meio a incertezas fiscais e ao aumento dos riscos associados ao clima.
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