Etanol de milho impulsiona expansão da matriz energética brasileira; produção atinge 12 bilhões de litros, somando 41,6 bilhões no total
Etanol hidratado cresce no Brasil, atingindo 41,6 bilhões de litros com milho impulsionando demanda.

Etanol ganha espaço no Brasil e no mundo, com avanço do milho e novas demandas
O mercado brasileiro de etanol vive uma fase de expansão, sustentada pelo aumento do consumo interno, pela entrada de novas frentes de demanda e pela consolidação do etanol de milho como um dos motores do setor. Especialistas avaliam que, apesar de gargalos de logística e de comunicação com o consumidor, o biocombustível tende a ampliar sua relevância na matriz energética nos próximos anos.
As perspectivas foram detalhadas durante a 3ª Conferência Internacional Unem Datagro sobre etanol de milho, em que o presidente da Datagro, Plínio Nastari, apresentou projeções indicando crescimento contínuo do consumo de combustíveis do ciclo Otto (principalmente gasolina e etanol). Esse avanço abre espaço para maior substituição da gasolina por etanol, tanto por meio do etanol hidratado quanto pelo aumento do uso do etanol anidro misturado à gasolina.
Consumo em alta reforça demanda por etanol hidratado
Segundo as estimativas apresentadas, em 2025 houve aumento de 1,9 bilhão de litros em gasolina equivalente no consumo de combustíveis do ciclo Otto. Para 2026, a expectativa é de avanço de pelo menos 1,6 bilhão de litros em gasolina equivalente — o que, na prática, representa um acréscimo de cerca de 2,3 bilhões de litros em etanol hidratado.
No horizonte de dez anos, a projeção é de crescimento anual entre 2,5 e 3 bilhões de litros de etanol hidratado, sinalizando um mercado com tendência de fortalecimento sustentado.
Tendência-chave: o aumento do consumo de combustíveis leves cria um ambiente favorável para ampliar a participação do etanol, seja pelo uso direto do hidratado, seja pela elevação da mistura de anidro na gasolina.
Etanol já substitui quase metade da gasolina em 2025
O avanço do biocombustível se reflete na participação do etanol na matriz de combustíveis leves. Em 2025, o Brasil substituiu 45,6% da gasolina por etanol, com destaque para estados como:
Mato Grosso: 67,2%
São Paulo: 58,9%
Goiás: 57,7%
Outros mercados importantes, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, também registram índices relevantes. Já estados como Bahia e Maranhão seguem com participação próxima de 30%, mas são vistos como regiões com potencial de crescimento, especialmente diante da instalação de novas unidades produtoras.
Produção de etanol cresce e milho se consolida como vetor de expansão
No lado da oferta, o setor passa por uma mudança de perfil. Enquanto a produção de açúcar permanece praticamente estável nos últimos três anos, em torno de 43 milhões de toneladas, o etanol tem avançado de forma significativa, com crescimento de 33% em cinco anos.
As projeções indicam que o volume deve sair de cerca de 31,3 bilhões de litros na safra 2022/23 para 41,6 bilhões de litros em 2026/27. Um dos fatores centrais para esse salto é o etanol de milho, que já responde por mais de 12 bilhões de litros e vem compensando a estabilidade da produção baseada na cana-de-açúcar.
Indicador Dado Produção de açúcar (últimos anos) Estável em ~43 milhões de toneladas Crescimento do etanol (5 anos) +33% Etanol (safra 2022/23) ~31,3 bilhões de litros Etanol (projeção 2026/27) 41,6 bilhões de litros Etanol de milho > 12 bilhões de litros
Três pilares para crescer: mistura, distribuição e mercado marítimo
Para Gustavo Mariano, vice-presidente de trading da Inpasa, a expansão do etanol no curto e médio prazo se apoia em três frentes principais, que combinam regulação, ampliação de acesso e novas aplicações energéticas.
1) Aumento da mistura de etanol anidro na gasolina
O primeiro pilar é o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. A elevação de 27% para 30% já representa um avanço relevante, mas ainda há espaço para novos incrementos. Caso a mistura atinja 32%, a demanda pode crescer em cerca de 954 milhões de litros ainda este ano. Em um cenário de 35%, o impacto poderia ultrapassar 2,3 bilhões de litros.
2) Expansão da distribuição em regiões com menor penetração
O segundo vetor é ampliar a distribuição, especialmente em áreas onde o biocombustível ainda tem menor participação. No Nordeste, por exemplo, o consumo de anidro foi de 1,65 bilhão de litros em 2025. Segundo Mariano, se a participação do etanol chegar a 30% na região, a demanda adicional potencial poderia alcançar 3,75 bilhões de litros.
3) Mercado marítimo: nova fronteira para o etanol
O terceiro pilar é a abertura de um novo mercado: o setor marítimo. Mesmo antes de uma regulamentação mais ampla, já existem encomendas de navios capazes de usar etanol como combustível. As projeções apontam que esse segmento pode gerar demanda adicional de até 32 bilhões de litros até 2040, indicando um possível salto de escala para o biocombustível no longo prazo.
Desafios: logística e informação ao consumidor ainda limitam o potencial
Apesar do cenário positivo, o setor ainda enfrenta desafios relevantes. Um deles é a falta de informação do consumidor. De acordo com Mariano, cerca de 60% dos proprietários de veículos flex não sabem que podem usar etanol de forma vantajosa, o que reduz o consumo do hidratado e limita a velocidade de crescimento do mercado.
Outro ponto crítico é a logística. Levar o combustível das regiões produtoras até os grandes centros consumidores ainda exige investimentos em infraestrutura, armazenagem e distribuição. Para especialistas, sem avanços nessa etapa, parte do potencial de expansão pode ficar represada, mesmo com demanda em crescimento.
Políticas e mercado de carbono reforçam competitividade
Iniciativas como o RenovaBio e instrumentos ligados ao mercado de carbono surgem como oportunidades adicionais para fortalecer a competitividade do etanol brasileiro. No caso do etanol de milho, a discussão sobre carbono no solo e ganhos ambientais pode ampliar o interesse por investimentos e consolidar o biocombustível como peça estratégica de transição energética.
Em resumo: a combinação de crescimento do consumo, maior participação do etanol, avanço do etanol de milho e novas demandas — incluindo o mercado marítimo — aponta para um ciclo de expansão. O ritmo, porém, depende de melhorias em infraestrutura e comunicação para transformar potencial em consumo efetivo.
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