
A Aliança Agrícola do Cerrado quitou integralmente R$ 114 milhões devidos aos investidores dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) da 259ª emissão, conforme anunciou a Ecoagro, a securitizadora responsável pela operação. O pagamento foi possível após a execução de garantias prevista nos títulos, consequência do não pagamento dos juros em janeiro, um dia após a demissão de mais de 300 colaboradores.
Em meio a esta situação, a empresa suspendeu temporariamente suas operações no Brasil. Avaliando alternativas para reestruturação dos negócios, comunicou que produtores relataram a ausência de retorno pelos canais de comunicação, com unidades atualmente fechadas. Ao serem procurados, representantes da Aliança Agrícola do Cerrado não se manifestaram.
A trading controlada pelo grupo russo Sodrugestvo se encontra em meio a uma crise financeira e um complicado cenário jurídico com credores no Brasil. A Aliança Agrícola solicitou proteção judicial para suspender cobrança e execução de dívidas por 60 dias, com passivos em cerca de R$ 1,3 bilhão, incluindo desde bancos a produtores rurais.
Especialistas destacam a dissociação entre a proteção conferida a investidores do mercado de capitais e a situação de produtores agrícolas e fornecedores, que ainda não sabem sobre prazos e pagamentos. O sócio-fundador da Ecoagro, Moacir Ferreira Teixeira, ressaltou que a inadimplência dos juros acarretou no vencimento antecipado dos CRAs, levando a execução das garantias que incluíam soja física, contratos de compra e venda, e recursos mantidos em conta vinculada. Essa ação garantiu o pagamento integral aos investidores via B3.
Um ex-gerente, que preferiu manter anonimato, relatou que a suspensão das operações foi precedida de uma deterioração financeira, devido à restrição de crédito. A empresa acionou demissão em massa, mantendo apenas uma equipe reduzida para tentar reestruturação. A pressão principal veio da área de exportação, que seguia deficitária, sendo posteriormente extinta. O esmagamento de soja no mercado interno mostrava-se rentável, mas não conseguiu sustentar financeiramente a empresa.
Mesmo após encerrar a área deficitária, as dificuldades para capital de giro aumentaram. A ausência de capital de terceiros tornou inviável a manutenção dos custos operacionais, levando à suspensão abrupta das atividades.
Produtores agrícolas, temendo represálias, mantêm silêncio sobre a situação. Um produtor do interior de São Paulo, que também desejou a anonimidade, relatou dificuldades para acessar informações e produtos armazenados. “Há contratos em aberto e pagamentos atrasados. É instável a situação pois eles possuem dívidas enormes inclusive de armazenamento”, afirmou ele.
Para a advogada Magna Damazio, especializada em direito bancário, os produtores são o elo mais vulnerável da cadeia e devem buscar ação urgente. A possibilidade de uma recuperação judicial se impõe, mas sem execução formal, a empresa não é obrigada a se manifestar. Ela alerta que, embora a ausência de resposta não deva ser tratada como normalidade, os agricultores devem procurar assistência legal especializada.
Magna destaca que, pelo fato da Aliança Agrícola integrar um grupo estrangeiro, a responsabilidade pode ser complexa de ser atribuída caso encerrem operações definitivamente. A especialista observa a necessidade de ação em um contexto de inadimplência e juros elevados que pressionam todo o setor agrícola.

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