
O agronegócio brasileiro registrou, no ano passado, um salto expressivo no número de pedidos de recuperação judicial, evidenciando a pressão sobre a saúde financeira de produtores e empresas. De acordo com levantamento da Serasa Experian, foram 1.990 solicitações ao longo do período, o que representa alta de 56,4% na comparação anual e configura o maior volume de toda a série histórica iniciada em 2021.
O estudo considera produtores rurais que atuam como pessoa física ou pessoa jurídica, além de empresas do agronegócio. Na prática, o aumento reforça a tendência de maior procura por mecanismos de proteção judicial contra credores, em meio a um ambiente de crédito menos favorável e custos operacionais ainda elevados.
A escalada é ainda mais evidente quando se observa o ritmo recente. O volume registrado no ano passado foi quase quatro vezes maior do que o de 2023, quando houve 534 casos. O dado sugere uma deterioração acelerada das condições de caixa em parte relevante do setor, que depende de financiamento, planejamento de safra e previsibilidade de preços para equilibrar receitas e despesas.
“O ambiente de crédito mais restritivo, combinado à manutenção dos custos de produção em patamar elevado e a uma alta alavancagem, continuou impactando o fluxo de caixa das operações rurais.”
— Marcelo Pimenta, líder de agronegócio da Serasa Experian
Entre os perfis analisados, os produtores rurais pessoa física concentraram o maior número de pedidos no ano passado: foram 853 solicitações, com crescimento de 50,7% em relação ao ano anterior. Embora esse grupo lidere em volume absoluto, o levantamento aponta que o avanço mais intenso ocorreu entre os produtores pessoa jurídica, com alta de 84,1% de um ano para o outro.
Em termos práticos, o movimento indica que diferentes estruturas de produção — do produtor individual a operações formalizadas — enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros, sobretudo em um contexto em que a rolagem de dívidas se torna mais cara e seletiva.
Indicador Resultado Total de pedidos no agronegócio 1.990 (alta de 56,4%) Comparação com 2023 534 casos (quase quatro vezes menos) Produtor rural pessoa física 853 pedidos (alta de 50,7%) Produtor rural pessoa jurídica alta de 84,1% (maior crescimento relativo) Empresas do agronegócio 384 pedidos (alta de 29,3%)
O fenômeno não se restringe aos produtores. Entre as empresas que atuam no agronegócio, o total de solicitações cresceu 29,3%, somando 384 pedidos no ano passado. O resultado reforça que a pressão financeira alcança cadeias mais amplas, que podem incluir fornecedores, armazenagem, logística e serviços relacionados ao campo.
Na análise por unidades da federação, Mato Grosso concentrou o maior volume de pedidos, com 332 registros. Na sequência aparecem Goiás (296), Paraná (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196).
Mato Grosso: 332
Goiás: 296
Paraná: 248
Mato Grosso do Sul: 216
Minas Gerais: 196
Apesar do quadro desafiador, especialistas apontam que a renegociação de dívidas e o planejamento financeiro podem ser caminhos mais eficientes antes de recorrer à Justiça. Segundo Pimenta, a recuperação judicial deve ser considerada o último recurso, após tentativas de repactuação com credores e reestruturação das obrigações para adequar prazos e condições ao fluxo de caixa.
Em um cenário de crédito mais restritivo, manter controle rigoroso de custos, rever estratégias de financiamento e fortalecer a gestão de riscos passa a ser decisivo para a sustentabilidade econômica das operações rurais. A aceleração das recuperações judiciais, por sua vez, funciona como termômetro da fragilidade financeira e pode influenciar a percepção do mercado sobre o setor, pressionando ainda mais as condições de financiamento.
Em destaque: O ano passado marcou o maior número de pedidos de recuperação judicial do agronegócio desde o início da série histórica, em 2021.
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