
A participação feminina no agronegócio capixaba avança e se torna cada vez mais visível dentro das cooperativas agropecuárias do Espírito Santo. Dados do Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025, compilado pelo Sistema OCB/ES, mostram que cresceu o percentual de mulheres entre os produtores associados e também aumentou a presença delas em posições de gestão, em um movimento alinhado às transformações do mercado de trabalho e às demandas por inovação e profissionalização no campo.
De acordo com o levantamento, o cooperativismo do agronegócio no estado reúne mais de 46 mil cooperados e movimentou R$ 6,3 bilhões em 2024, respondendo por 37,1% de todo o faturamento do cooperativismo capixaba. Atualmente, o Espírito Santo conta com 25 cooperativas ligadas ao segmento agro (agricultura e pecuária).
O anuário aponta que a participação feminina entre os cooperados do setor subiu de 12,8% para 13,7% no período entre 2022 e 2024, um crescimento de 1,4% conforme reportado no relatório. O perfil etário evidencia maior concentração de mulheres em fase produtiva e de consolidação profissional no campo.
Faixa etária Participação entre as cooperadas 30 a 59 anos 67,3% Mais de 60 anos 25,1% Até 29 anos 7,6%
Além do aumento no número de cooperadas, o avanço também aparece nos níveis de gestão. Em 2024, a atuação de mulheres como diretoras e gerentes nas cooperativas do agro cresceu de 20,5% para 22,2%. Dentro desse grupo, 18,1% têm mais de 30 anos e 4,1% têm até 29 anos, indicando renovação gradual e maior diversidade geracional nos cargos estratégicos.
O fortalecimento do protagonismo feminino no campo se traduz em trajetórias que combinam tradição familiar, resiliência e adoção de técnicas voltadas à qualidade. No município de Castelo, na região serrana, a produtora rural Edineia Pires Sartori conduz, com o marido, uma propriedade de 12 hectares chamada Recanto Feliz, com parte da área destinada ao cultivo de café. Ela também atua em outra propriedade no mesmo município, em parceria com o irmão.
Com investimento em processos de pós-colheita, Edineia ajudou a elevar o padrão do café produzido. A família adquiriu um despolpador e passou a adotar uma rotina de separação do grão, uma melhoria implementada por ela e que teve impacto direto na qualidade final da bebida. O resultado apareceu em reconhecimento: ao lado do irmão, conquistou o 2º lugar na categoria “Arábica Lavado” no Prêmio Pio Corteletti 2023, iniciativa anual que valoriza cafés especiais no Espírito Santo e em Minas Gerais.
Foco na qualidade: a aposta em etapas pós-colheita e controle de processo aparece como diferencial competitivo para ampliar valor agregado e abrir espaço em concursos e mercados especializados.
Outra história que ilustra a mudança de cenário no agro capixaba vem de Santa Teresa. A cafeicultora Jarlete da Penha Sotelle é apontada como a única mulher atuando diretamente na produção de café no município e se destacou por “romper o padrão” ao apostar no conilon em uma região serrana, onde a cultura costuma ser associada a áreas mais quentes.
Mesmo diante de descrença inicial, Jarlete demonstrou que o conilon pode alcançar excelência em altitudes superiores a 800 metros, projetando Santa Teresa no mapa dos cafés especiais da variedade. O trabalho rendeu reconhecimento em premiações: ela foi campeã na categoria “Canéfora” de um concurso nacional da ABIC (safra 2022) e também chegou a ser finalista do Coffee of the Year, uma das principais disputas de cafés especiais do país, além de acumular destaque em premiações ligadas à sustentabilidade.
O crescimento da presença feminina também se reflete em grandes organizações do setor. A Nater Coop, considerada a maior cooperativa do segmento do agronegócio no estado, relata que a representatividade das mulheres vem se tornando mais evidente ao longo da última década, acompanhando o movimento observado no cooperativismo agropecuário.
Segundo dados da cooperativa, o número de mulheres no quadro de cooperados saiu de menos de 950 em 2015 para mais de 3.400 atualmente, uma evolução informada de 260%. O resultado, na avaliação da organização, é reflexo da combinação entre oportunidade, formação e participação ativa das cooperadas, seja na produção, seja em funções de liderança.
No campo da pecuária, a presença feminina também se consolida em áreas historicamente masculinas. A médica veterinária Juliana Maria Piassi, de 36 anos, atua como gerente de Assistência Técnica na Nater Coop e, há dois anos na função, é descrita como referência na cadeia leiteira regional.
Entre suas atribuições, estão a liderança da equipe técnica de pecuária leiteira e a condução de iniciativas voltadas ao desenvolvimento das propriedades e à troca de conhecimento entre cooperados, como o Clube da Bezerra e o Torneio de Silagem. Juliana também participa de projetos estratégicos, a exemplo do Programa de Assistência Técnica Leite Certo, acompanhando propriedades e orientando produtores para garantir boas práticas, produtividade e qualidade na produção.
Outra frente de atuação envolve a supervisão da qualidade do leite recebido na indústria de lácteos da cooperativa, com foco em conformidade com padrões de mercado. Ela também responde pela área de farmácia veterinária, apoiando produtores com orientações técnicas e soluções voltadas à saúde e ao bem-estar animal.
Gestão técnica: liderança de equipe e padronização de processos no campo.
Capacitação: eventos e iniciativas para difusão de boas práticas.
Qualidade: controle e conformidade do leite para atender exigências do mercado.
Bem-estar animal: suporte veterinário e orientação aos cooperados.
Na avaliação de Juliana, o crescimento da presença feminina em posições estratégicas ocorre porque as mulheres agregam conhecimento técnico, sensibilidade na gestão de pessoas, capacidade de organização e forte comprometimento com resultados. Para a cooperativa, a atuação dela reforça como a liderança feminina pode contribuir para decisões seguras, fortalecimento de equipes e evolução sustentável do sistema cooperativista.
As trajetórias de Edineia, Jarlete e Juliana ajudam a traduzir, na prática, o que os indicadores do anuário evidenciam: o cooperativismo agropecuário do Espírito Santo vive um ciclo de ampliação da participação feminina, com impacto direto na qualidade da produção, na adoção de inovação e na ocupação de espaços de liderança.
Em um setor ainda majoritariamente masculino, o avanço das mulheres nas cooperativas sinaliza não apenas mudança cultural, mas também ganhos de eficiência e fortalecimento das redes de apoio no campo — fatores que tendem a influenciar a competitividade do agronegócio capixaba nos próximos anos.
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